domingo, 14 de abril de 2013

Você, manipulável

Esse post não é uma tentativa de manipular você.




Isso fora do caminho, continuemos.

Recentemente tem acontecido uma série de eventos internéticos envolvendo o pastor/deputado (estado laico[sic]) Marco Feliciano. O cara, pura e simplesmente, fala merda. Fala mesmo. E o primeiro exemplo que eu quero dar a respeito da facilidade de manipulação das pessoas é o modo como muita gente acredita na merda que ele fala, graças ao fato de que ele é um pastor, e portanto uma figura (bem)relativamente importante dentro da hierarquia de uma certa religião.

Aí está o primeiro fator que permite que ele engane a vários tão facilmente: tendemos a acreditar em pessoas hierárquica ou pseudo-hierarquicamente acima de nós. O filho acredita no pai, o aluno no professor, o evangélico no pastor, o católico no padre, etc. Afinal, se não acreditarmos neles, acreditaremos em quem? Além do mais, os dois últimos mencionados nessa lista, além dessa forma de superioridade hierárquica, têm do seu lado a crença dos fiéis de que eles são representantes na terra de uma forma de divindade que estaria "acima de todas as coisas", o que com certeza é o melhor mecanismo retórico de todos os tempos, mas que cai junto com as religiões que o sustentam. Conforme as pessoas deixam de acreditar na religião, o poder de seu representante diminui. Se as religiões diversas estão ou não estão certas não vem ao caso, aqui. O que eu quero deixar claro é que essas pessoas, mesmo pais e professores, estão numa posição privilegiada para manipular você - simplesmente porque quando elas falam, você costuma a acreditar.

E é claro que em certos casos, como é o do pastor Feliciano, os resultados disso podem ser tenebrosos - é de se apostar que inúmeros fiéis de sua igreja saíram dali acreditando e, o que é pior, pregando, muitas de suas opiniões racistas. Essas pessoas simplesmente acreditaram na palavra dele pelo simples fato de que ele é um pastor, e se baseou em leituras que variam entre relativamente sãs e insanas da bíblia, que afinal de contas não é o livro mais tolerante do mundo, e ainda é capaz de aceitar diversas interpretações, escolhidas ao bel-prazer do leitor que pode acreditar no que diz, ou simplesmente escolher uma interpretação para convencer a seu público de algo.

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Seguindo pelo caso Feliciano, quero mencionar uma outra possibilidade que, para muitos, pode parecer um pouco mais inverossímil, como já pareceu pra mim, de manipulação. Não que eu ache que isso seja provável, mas eu nunca vi o Feliciano falando essas coisas. Só ouvi dizer que ele falou. Da mesma maneira como eu tenho certeza que Shakespeare, Pessoa, e, especialmente, Clarice, não são responsáveis por algumas das barbaridades de que são acusados na internet - ainda que muita gente acredite que sejam.

Vou falar a respeito de uma experiência pessoal. Há não muito tempo, a grande maioria das universidades federais do país entraram em greve. Na minha universidade, a maioria dos alunos era a favor, mas os jornais só entrevistavam os alunos que eram contra; a grande maioria das federais estava em greve, mas o jornal dizia que a menoria das universidaes estavam em greve (é óbvio que "maioria" deles eram as particulares, que não estariam em greve). Os jornais simplesmente manipulavam a opinião pública mostrando apenas um lado das coisas, formando frases de uma maneira que ao mesmo tempo enganava e não podia ser considerada mentirosa.

Aliás, é interessante notar aqui que até então, em nenhum caso, eu mencionei a mentira. Um pastor pode te enganar interpretando a bíblia de uma maneira diferente; a televisão, simplesmente te dando informação de uma maneira incorreta. Ninguém está mentindo, todos estão enganando.

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Aí entra o movimento internético rumo à mudança do mundo todo através de ações combinadas. Mas como, como isso é manipulável! Os responsáveis por isso conseguiram mais de um milhão de assinaturas para fins diversos, dos quais as pessoas sabem apenas o que eles mesmos contam! É como se o jornal, depois de mostrar dez entrevistas com dez entre cem estudantes que são contra a greve, fizesse um abaixo assinado pra terminar com a greve. Pode crer que teria um milhão de assinaturas.

O problema é que, em geral, não conseguimos, e é realmente difícil e trabalhoso nos manter em dia com todos os inúmeros acontecimentos relacionados à política, economia, indústria, educação, e inúmeros etcs. que, querendo ou não, se influenciam mutuamente, por vezes com consequências imprevisíveis. Nós simplesmente não sabemos, e portanto deixamos que outras pessoas cuspam nas nossas bocas informações já mastigadas - mas aí não conseguimos distinguir o alimento que estava ali antes.

Não me entendam mal; acho a iniciativa dos caras de começar a fazer esse abaixo assinado, e trazer alguma utilidade real - porque, sim, há uma utilidade real¹ - para as manifestações na internet algo fantástico. Mas o problema é que, se você não sabe nada a respeito do assunto de que o cara está falando, o que o impede de te manipular. Dou um exemplo claro.

Eu recebo os e-mails da avaaz.org, um desses sites de abaixo-assinado, que é justamente o que falou muito contra o Feliciano, e coletou as um milhão seiscentas e tantas assinaturas contra ele. Eles acabaram de divulgar um abaixo assinado contra uma empresa de biotecnologia que quer patentear algumas formas desenvolvidas tecnologicamente de pepinos, brócolis, essas coisas. Assim como eles, eu também sou contra esse tipo de coisa, mas muuuuitos detalhes estão envolvidos.

Primeiro, o modo como os caras tentam, atraves desse e-mail, angariar simpatias, é desesperador. O título é "Monsanto [que é a empresa] vs. Mãe Terra". "podemos impedí-los de comprar a nossa Mãe Terra". Que coisa.

O foda é que eu acho essa uma boa causa. Não estou falando que não é. Acho que a explicação dada ali é boa, que o acontecimento realmente merece nossa atenção, e que seria útil para a nossa sociedade fazer algo a respeito. De acordo com o e-mail:

"Uma vez que uma patente passa a existir em um país, os acordos de comércio e negociações internacionais geralmente fazem com que outros países também se comprometam. É por isso que essas patentes transformam todo o modo como a nossa cadeia alimentar funciona: por milhares de anos, os agricultores podiam escolher quais sementes usariam sem se preocupar se seriam processados por violar direitos de propriedade intelectual. Mas agora, as empresas estão patenteando as sementes e obrigando os agricultores a pagarem taxas de 'royalties' exorbitantes. E os agricultores não podem nem mesmo guardar as sementes patenteadas para replantar na próxima estação: a Monsanto processou centenas deles por praticar a arte milenar de economizar as sementes de uma colheita para usá-las no ano seguinte. A Monsanto e outras empresas afirmam que as patentes impulsionam a inovação, mas na verdade elas criam um monopólio corporativo da nossa comida."

Dessa vez eu vou ignorar as inúmeras estratégias escancaradamente retóricas, as frases que nos tentam convencer abertamente de que a empresa está errada. Vou falar de outra coisa.

A empresa, de acordo com o que o e-mail me dá a entender, é de biotecnologia, e altera sementes para mudar algumas características das plantas. Ou seja, ela não estaria criando patentes em cima de qualquer semente ou brócolis ou pepino, mas apenas daquelas que a própria empresa foi responsável por desenvolver, e portanto, qualquer outra variedade, incluindo aquelas que os agricultores plantaram até hoje, ainda podem ser plantadas sem a existência de nenhuma patente, cabendo ao agricultor decidir se quer ou não pagar mais pela outra variedade desenvolvida pela Monsanto, certo? Não sei. É o que o texto do e-mail me leva a entender. É o que o texto parece não estar dizendo, para me convencer a assinar o abaixo assinado.

Como eu não sei nada disso, a tendência natural é acreditar, e talvez eu até tivesse, não fosse essas frases a la "monopólio corporativo da nossa comida", que soam absolutamente forçadas. Depois de pensar que o agricultor não precisa dessas patentes diferentes pra plantar o brócolis (ainda que isso possar ser melhor pra ele, não o impede de continuar sua "arte milenar"), mas só para plantar um tipo de brócolis que essa empresa criou, posso imaginar que, se já houve alguma plantação, da qual os agricultores (provavelmente cientes de que poderiam ser processados caso fizessem isso) reutilizaram as sementes, é porque eles tiveram dinheiro pra comprá-las - a agricultura, afinal de contas, dá muito dinheiro, pois produz algo que nunca pararemos de comprar. Daí, o que me impediria de supor que, na verdade, o cara responsável pelos abaixo assinados não vai receber uma grana violenta dos próprios agricultores que economizarão caso essa lei deixe de existir, e está se aproveitando de sua posição?

Mais uma vez, quero deixar claro, que nunca é demais: não estou falando que isso é verdade; apenas estou dizendo que, se ele quisesse, seria muito fácil pra ele nos manipular. Basta desenhar um sorriso de escárnio no rosto sem expressão da grande empresa internacional (maligna). Nós não perceberemos. Uma pessoa que assume a posição de quem nos impedirá de ser manipulado é justamente aquela que mais pode nos manipular.

Eu mesmo, caso meu blog tivesse mais que um visitante por dia, poderia estar falando isso como defesa da tal da "Monsanto" - dá pra perceber que não pelo contrário do que faz com os outros tenham a facilidade de manipular você: minha posição é insignificante. O que me torna não um manipulador, mas um manipulado².

No fim das contas, eu não fiz nenhuma pesquisa pra escrever esse texto, não li nada, apenas pensei com os meus botões, e mesmo assim aposto que um leitor eventual pensaria a respeito dessas coisas, e poderia mudar de opinião sobre algo caso parasse pra pensar. Você, leitor que fizer isso, estará acreditando na opinião de alguém que simplesmente falou um monte de coisas sem saber ou verificar nada.

Que vergonha!

Mas pelo menos eu não estou te manipulando.


1. Na verdade há várias, mas só pra citar uma óbvia: políticos são eleitos por pessoas, e caso milhões de pessoas se manifestem contra o Feliciano, os políticos que também o fizerem estarão "ao lado do povo"; daí, a pressão faz um efeito. O fato de que somos nós quem elegemos os políticos os pressiona a não se manifestar fortemente contra aquilo que milhões desejam.

2. Frase que, na verdade, seria o final ideal de um texto pra convencer você de que eu não estou te manipulando; só que eu não estou.

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