terça-feira, 16 de abril de 2013

Nós, Escribas pt.1







Estou lendo, nesses dias, muitas coisas relacionadas à literatura pós-moderna¹, que remetem, obviamente, à arte/literatura modernas, que me colocaram pensando a respeito de o que é ser um escritor nos nossos tempos. 

Não que escrever tenha sido, em alguma época, fácil, mas como já foi dito antes, a liberdade formal, o fato de que não se precisa mais rimar ou seguir tais e tais preceitos retóricos de composição pra se ser considerado um bom escritor, tudo isso, na verdade, torna o ato de escrever artisticamente ainda mais complicado, ou, no mínimo, complicado de uma maneira diferente. Hoje em dia temos a teoria da recepção, um cânone ridiculamente grande e complexo, e a própria questão de o que pensamos sobre a literatura, e o que queremos, ou, pior, o que podemos, dizer através dela.

Por isso mesmo, o texto vai dividido justamente nesses três tópicos, apesar de quê, espero que fique claro, todas essas três coisas são interdependentes.

o Leitor e o Texto

A teoria da recepção é relativamente nova, e tudo o que sei sobre ela está em menções feitas em análises literárias de alguns autores, especialmente o Borges - cuja obra foi, na verdade, uma das fontes de onde a própria teoria surgiu.

Justamente por esse meu desconhecimento, não vou categorizar o que eu estou falando aqui como "teoria da  recepção." Ainda que eu saiba que o que falo aqui é relacionado a ela, não posso sair falando com essa liberdade toda. Portanto, vou falar sobre a percepção do leitor.

Uma das anedotas a respeito do Borges (e existem Muitas), é que, quando ele escreveu o conto "Pierre Menard, autor do Quixote"², muitos de seus leitores correram às livrarias à procura da obra, para comprá-la. Se a anedota é verdadeira ou não, é irrelevante; para efeitos de exemplo, vamos imaginar que sim. 

O leitor de Pierre Menard pode ser dividido em vários tipos: aquele que se deixou convencer e foi às livrarias procurando o Don Quixote escrito por ele; aquele que não se deixou convencer, por saber que aquilo descrito por Borges é absolutamente impossível; aquele que não só não se deixou convencer, como compreendeu o modo como Borges brincou, no texto com a aceitação tácita do leitor a tudo que o escritor afirma; por último, há aqueles, que com maior ou menor grau de intensidade reconheceram as citações, os nomes, e entenderam ainda mais profundamente que os outros o (ou os outros) significado da obra.

Em outras palavras: a compreensão do texto depende, em absoluto, do leitor. Cada leitor vai receber, compreender o texto de uma maneira diferente, e essas maneiras podem ser infinitamente variadas, suas possibilidades dependendo do tipo de texto ao qual dizem respeito, e do trabalho feito pelo autor.

Há quem diga que é simplesmente impossível se dizer o que é que um leitor específico vai compreender de um texto, o que, considerando uma pessoa desconhecida ou escolhida aleatoriamente pode ser verdade - até certo ponto. 

Vamos considerar aqui um leitor que não tenha nenhuma espécie de deficiência mental. Uma pessoa a ser escolhida nas ruas. Vamos supor que eu mostre pra ela um best-seller a la Crepúsculo. Talvez eu não saiba dizer o que ela vai pensar a respeito do livro, o que vai achar e o que falará dele; mas a verdade é que eu sei, até certo ponto, qual será a compreensão aproximada da pessoa do texto. 

Claro, o exemplo escolhido aqui é um texto "simples"³, e outros textos podem exigir mais ou menos do leitor. O texto de Borges, como exemplifiquei, tem várias possibilidades de compreensão. Por ser escrito como um ensaio, pode até convencer alguns leitores, mas mesmo dentre aqueles que perceberão a jogada de Borges, quem sabe quem foi Raymond Lull, um dos homens citados na obra? E sem sabê-lo, como perceber até que ponto o citar seu nome influencia no sentido do conto? Agora, o texto de Crepúsculo, ainda que seja muito maior, não possui o mesmo número de possibilidades.

*

Uma coisa é verdade: por mais que a compreensão do texto caiba ao leitor, e ainda que seja impossível dizer que o leitor X vai entender isso, ou aquilo, generalizações são possíveis. Como sempre, generalizações rebaixam boa parte dos envolvidos, elevam outra boa parte, mas muitas vezes acertam, no que diz respeito ao... geral.

Um exemplo: eu sei que os filmes do Lars von Trier não vão fazer muito sucesso nas telas do cinema. Eu também sei que seu último filme, "Melancolia", tem mais chances de fazer sucesso que os outros, uma vez que tem Kirsten Dunst e Kiefer Sutherland como dois dos atores principais. A televisão, afinal, funciona mostrando aos telespectadores aquilo que seus roteiristas sabem que eles querem ver. Digamos que se eu escolher alguém, aleatoriamente, e mostrar a ele um filme do von Trier, eu não saiba dizer com certeza se ele vai gostar ou não do filme - mas que eu tenho uma porcentagem boa de chance de acertar ao dizer que ele não vai, eu tenho - da mesma forma em que sei dizer que o próximo filme do Homem de Ferro vai fazer sucesso. Há coisas previsíveis.

Agora, porque essas coisas são previsíveis? Ou, talvez seja melhor começar perguntando, por que essas coisas são tão naturalmente previsíveis? Eu não preciso parar e pensar pra saber disso. Eu sei que o Homem de Ferro vai fazer sucesso, do mesmo jeito que eu sei que a nova novela da Globo vai. Mas por quê?

Eu suponho que isso tenha a ver com a nossa inserção na cultura. Estamos numa cultura específica (que globalmente, inclusive, é muito similar), cercados principalmente por pessoas "médias"4, e por toda a nossa vida vimos essas pessoas e suas escolhas de programas de TV e alternativas de entretenimento. Ainda que estejamos num mundo que muda muito rapidamente, temos uma boa ideia de como essas pessoa reagirão a determinado novo estímulo. Como Wallace fala no texto que estou traduzindo aqui no blog, a televisão é uma força que altera mais o nosso ambiente cultural, e o define, do que pensamos. A força da internet, nesse sentido, talvez seja ainda maior, o que é uma discussão pra outro dia.

Pensando em tudo o que eu falei até aqui, eu poderia chegar a uma de duas conclusões5: a primeira é que escrever tendo plena consciência do que vão compreender a partir da minha escrita é impossível. A segunda, na qual eu acredito, é a de que é possível prever, até certo ponto o que os leitores vão pensar a respeito de alguma produção artística. Repito: até certo ponto. Acho que ninguém preveria, por exemplo, que Gangnam Style se tornaria o vídeo mais visto da história, ou que o Infinite Jest se tornaria um best-seller. Mas é fácil imaginar que a minoria dos leitores compreende os principais significados do livro. Caramba, é difícil imaginar que a maioria sequer leia o livro até o fim.

Ao mesmo tempo, contradizendo essa onda de imprevisibilidades, eu sei que o Calvino estava consciente de que a maioria dos leitores acharia um livro como "O Visconde partido ao meio" divertido, mas certamente também estava consciente que a maioria dos leitores não passaria muito disso. Borges talvez não soubesse que as pessoas chegariam a procurar o livro de Pierre Menard nas livrarias, mas com certeza sabia que muitíssimas pessoas seriam enganadas e acreditariam na existência do livro. Agora, nós, simples pretensos escritores, precisamos partir do mesmo princípio; como podemos transmitir uma mensagem sem ter a menor ideia do que os outros vão compreender dela? Acaba sendo necessário prever um "universo de compreensão", digamos assim. O Calvino escrevia livros relativamente acessíveis, e tinha, ele mesmo dizia, como um de seus objetivos divertir o leitor. Já o Borges escrevia obras consideradas mais complicadas, como o Cortázar, e ambos, com certeza, sabiam que assim limitavam seu número de leitores, conforme expandiam as fronteiras da própria linguagem. Nós precisamos pensar a respeito de o que e de como fazemos.

*

Toda essa história sobre a incapacidade de se prever a compreensão do leitor, se reflete, no fim das contas, na capacidade de se escrever exatamente aquilo que se deseja. Se eu, escritor, não tenho controle sobre o significado das coisas que eu escrevo, pois quem tem a palavra final é o leitor, que diferença faz o que eu escrevo?

Pra começo de conversa, isso não é bem verdade. O escritor tem, sim, um certo controle sobre o significado, que, dependendo de sua capacidade e do ponto ao qual compreende os possíveis leitores, vai ser maior ou menor. Ao escrever esse texto, por exemplo, eu tenho absoluta certeza que ninguém vai pensar que ele é sobre a venda de peixes exóticos no mercado negro, e mesmo um certo grau de certeza de que ninguém vai achar que ele é um conto, ou que fala sobre a literatura do século 19. Eu sei, mais ou menos, o que se pode entender a partir dele. O que não quer dizer que é fácil sabê-lo a partir de alguma produção literária que eu possa querer desenvolver, uma vez que a literatura trabalha de um modo totalmente diferente - muitas vezes usando símbolos, analogias, alegorias, e etc., que muitas vezes exigem bem mais do leitor que um texto que fala a ele mais diretamente - o que estou dizendo aqui é que, mesmo que seja possível ter certo controle sobre o significado de um texto, esse controle é difícil de se conseguir, e conforme o texto que estou escrevendo se torna mais formalmente complexo, esse controle se torna proporcionalmente mais complexo. Além do quê, sempre existe a possibilidade de uma compreensão parcial ou nula por parte do leitor.

Não só isso, mas o meu texto tem o potencial de revelar características minhas. Ao ler esse texto, alguém poderia muito bem adquirir uma compreensão relativamente acurada da minha opinião a respeito da literatura. Logo no início do Dorian Gray, o personagem Basil Howard, que fez a pintura de Gray que impulsiona o enredo, afirma que não a quer expôr porque ela revela muito dele mesmo, do pintor. Ele afirma que a obra artística revela mais sobre seu autor que sobre seu objeto. Dessa maneira, um escritor pode revelar, através de um texto, uma posição política que ele mesmo não sabe que tem. Voltando ao exemplo "simples" de antes, o fato de que a escritora de Crepúsculo é mórmon com certeza tem uma influência pesada na virgindade e na correção dos personagens. O livro parte de uma ideia de "cordeirização" da humanidade que parece estar pra todo lado* e é meio irritante.

O problema é que o meu objetivo aqui não é impedir que minha produção literária revele minha posição; pelo contrário, um dos sentidos de boa parte da produção literária de qualidade é justamente revelar as opiniões e posições de seus escritores - e portanto não cabe ocultá-la, mas expressá-la de maneira adequada. O problema é que, pra fazer isso, eu preciso, antes de mais nada, compreendê-la. Se eu não tenho uma posição definida a respeito da literatura, da sociedade em que eu vivo, ao tentar representar essa sociedade através da literatura, vou acabar sendo contraditório, ou falando coisas das quais vou me arrepender depois, assimilar preconceitos, etc. Dá pra resumir isso numa frase simples e óbvia: um bom escritor sabe do que está falando.

Ainda a respeito das possibilidades de escrita, todo mundo já sabe, hoje em dia, que não existe neutralidade. Querendo ou não eu transmito uma posição através dos meus textos. É assim que consigo compreender autores como Fernando Pessoa, que se colocou na pele de tantos outros heterônimos. Não ouso afirmar que, um bom leitor que não soubesse da existência de Pessoa, poderia ler textos de, por exemplo, Ricardo Reis e Álvaro de Campos e pensar que são do mesmo autor. Mas repare que aqui não existe neutralidade; Pessoa consegue se distanciar por tomar uma posição diferente. Ele não se esconde, não fica calado, mas sim, coloca uma (outra) máscara, alterando a percepção do leitor à sua obra, que querendo ou não associa o escrito ao escritor, e supõe saber algo de um a partir do outro6.

No fim das contas, nós, escritores, temos como obrigação (a) a definição de uma posição e opinião a respeito do objeto de nossa escrita, (b) a definição do público ao qual direcionamos a nossa escrita7 e (c), o cuidado com a própria escrita, de modo a adequá-la ao leitor esperado, e transportar apenas o conteúdo que delimitarmos previamente. Claro, isso não é nada fácil 8, mas não fazê-lo pode deixar marcas feias no texto.

 Inclusive, por favor, quero pedir que ninguém veja isso como uma espécie de “poética”; cada um fala o que quer e como quer em seus textos literários, claro, isso seria só uma espécie de moral pessoal da escrita, conforme eu vejo hoje em dia; acho que estou  dizendo o que eu acho que são coisas essenciais pra se escrever literatura de verdade.

Como esse texto já ficou muito grande, decidi dividi-lo em três partes. As duas seguintes ainda serão escritas e publicadas mais pra frente. Beijos.



1. Que, inclusive, não me convenceram ainda de que ela existe.
2. No qual um homem chamado Pierre Menard escreve um livro exatamente igual ao Quixote. Ele, contudo, não copia o livro, mas sim, vive de uma maneira em consequência da qual, quando ele decide escrever um livro, sai o Quixote, com consequências filosófico-linguísticas diversas.
3. A palavra está entre aspas aqui porquê, afinal, talvez seja impossível qualificar qualquer romance de simples, por menos complexo que ele seja.
4. Sem ofensa, rs. Isso é só uma tautologia, já que, o conhecimento médio representa, necessariamente, a maioria das pessoas.
* Falo isso no sentido em que, nos tempos modernos, mesmo no que diz respeito à alimentação (vegetarianismo, veganismo, etc.), nós estamos, como "seres superiores", cada vez tratando os outros animais mais como vítimas de nossa existência, ao contrário de, como sempre foi o modo natural, vê-los como criaturas abaixo de nós na cadeia alimentar, e portanto, alimento natural - do mesmo modo como um tigre vê. Não estou dizendo que isso é errado, longe de mim; só falo sobre uma ideia engraçada de que o crescimento moral/intelectual afasta cada vez mais do portador os conceitos de violência, ou mesmo de sexo. Isso é coisa pra outros dias.
5. Pelo visto eu não aprendi nada, :P . Vai saber a quantas conclusões eventuais leitores não podem chegar.
6. Isso, claro, muitas vezes não é verdade, o que não é uma discussão pra agora.
7. A literatura de qualidade em geral negligencia esse aspecto. A maioria dos grandes escritores escreve justamente para leitores que, de certa forma, “não precisam” da leitura de seus livros. Digamos, por exemplo, que o Infinite Jest incentiva a leitura de trabalhos de fôlego e o pensamento aprofundado para leitores que estão dispostos a ler um livro de 1079 páginas extremamente complexo, ou seja, por definição, pessoas para quem a mensagem do livro é desnecessária. Claro que a coisa não é tão simples assim, mas dá pra ter uma ideia. No fim das contas, quem se preocupa com o desenvolvimento da literatura, cria literatura pra acadêmicos, e quem se preocupa com as vendas, cria entretenimento superficial, pra vender. O único autor que eu conheço que realmente tinha como objetivo criar uma literatura ao mesmo tempo densa e divertida foi o já mencionado Ítalo Calvino – que é, realmente, um dos grandes romancistas do século XX, mostrando que alcançar essa literatura comprometida com o público não exige o sacrifício de sua qualidade. É claro que isso tudo é uma grande generalização, mas é, ao mesmo tempo, verdadeiro para a maioria dos escritores.
8. Sim, é impossível, de certa forma, como eu já mencionei. As partes mais difíceis são , provavelmente, "transportar apenas o conteúdo que delimitarmos previamente", e prever com um grau aceitável de sucesso a opinião do leitor.

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