terça-feira, 2 de abril de 2013

Lenta evolução - Tradução de um trecho de "E Unibus Pluram" pré-revisão

O texto é de David Foster Wallace, tem algumas notas (princiapelmente relativas a referências) que eu ainda não coloquei, e MUITO maior que isso.

outras partes virão

começa na próxima palavra:

aja naturalmente

Escritores de ficção, como espécie, tendem a ser olhadores. Eles tendem a espreitar e a encarar. Eles são observadores natos. Eles são espectadores. Eles são aqueles no metrô cujo encarar diferente tem alguma coisa esquisita, de certa forma. Quase predatória. Isso é porque situações humanas são a comida dos escritores. Escritores de ficção assistem outros humanos mais ou menos como os curiosos diminuem a velocidade para ver acidentes de carro: sua ambição é se verem como testemunhas.

Mas escritores de ficção tendem ao mesmo tempo a serem horrivelmente auto-conscientes. Ao devotar muito tempo produtivo estudando de perto como as pessoas se parecem pra ele, escritores de ficção também passam muito tempo menos produtivo cogitando nervosamente a imagem que passam para as outras pessoas. Como eles aparecem, como são psercebidos, se a fralda da camisa não está balançando pra fora da braguilha, se pode ser que haja batom em seus dentes, se as pessoas a quem eles estão olhando podem de alguma forma considerá-los esquisitos, como espreitadores e olhadores.

O resultado disso é que a maioria dos escritores de ficção, assistidores natos, tendem a ser objetos da atenção de outras pessoas com desgosto. Desgostam de serem assistidos. As exceções a essa regra – Mailer, Mcnelnerney – algumas vezes criam a impressão de que a maioria dos tipos beletristas cobiçam a atração dos outros. A maioria não. Os poucos que gostam de atenção naturalmente a conseguem. Nós outros assistimos.

A maior parte dos escritores de ficção que conheço são americanos abaixo dos 40. Eu não sei se escritores de ficção abaixo dos 40 assistem mais televisão que qualquer outra espécie americana. Estatísticas reportam que se assiste mais de seis horas por dia de televisão na casa de família americana média. Eu não conheço nenhum escritor de ficção que viva em uma casa de família americana média. Imagino que talvez Louse Erdrich viva. Na verdade eu nunca vi uma casa de família americana média. Exceto na TV.

Imediatamente, você pode ver algumas coisas que parecem potencialmente ótimas, para a escritores de ficção nos E.U.A. a respeito da televisão. Primeiro, a televisão faz muito de nossa pesquisa predatória humana pra nós. O ser humano americano é um grupo escorregadio e proteico, infernalmente difícil de de considerar de um modo geral. Mas a televisão considera exatamente esse problema. É uma definição incrível do genérico. Se quisermos saber o que a normalidade americana é – i.e. O que os americanos querem considerar normal – podemos confiar na televisão. Pois a raison da televisão é refletir aquilo que as pessoas querem ver. Ela é um espelho. Não o espelho Stendhaliano que reflete o céu azul e a poça de lama. É mais como o espelho do banheiro extra-iluminado em que o adolescente monitora seu bíceps e determina qual é o seu melhor perfil. Esse tipo de janela para a nervosa percepção dos americanos de si mesmos é simplesmente inestimável para a escrita da ficção. E escritores podem ter fé na televisão. Tem muito dinheiro em jogo, afinal; e a televisão é dona dos melhores demógrafos que a ciência social aplicada tem a oferecer, e esses pesquisadores podem determinar precisamente o que americanos nos anos 1990s são, querem, veem – como nós, como Audiência queremos ver a nós mesmos. Televisão, da superfície abaixo, é sobre desejo. E, em termos de ficção, desejo é o açúcar na comida humana.

A segunda coisa que parece ótima é que a televisão parece ser um presente absoluto de Deus para uma subespécie humana que ama assistir pessoas mas detesta que pessoas a assistam. Pois a tela da televisão permite o acesso somente em um sentido. A válvula de uma bola de cristal mística. Nós vemos a Eles; Eles não veem a Nós. Nós podemos relaxar, invisíveis, enquanto olhamos. Eu acredito que é por isso que a televisão também atrai tanto pessoas solitárias. Reclusos voluntários. Todo humano solitário que eu conheço assiste muito mais que a média americana de seis horas por dia. O solitário, assim como o fictício, ama o assistir monodirecional. Pois pessoais solitárias normalmente não são solitárias graças a alguma deformidade horrível ou fedor ou insuportabilidade – na verdade existem grupos sociais e de apoio a pessoas com precisamente esses atributos. Pessoas solitárias tendem, ao invés, a serem solitárias porque decidem não ter que suportar os custos psíquicos de se estar ao redor de outros humanos. Eles são alérgicos a pessoas. Pessoas os afetam muito intensamente. Vamos chamar a pessoa solitária média americana de João Gravata. João Gravata teme e odeia a tensão que parece afligi-lo só quando outros seres humanos estão a seu redor, encarando, as antenas de seus sentidos humanos eretas. João G. receia o modo como aparece, é percebido por, quem o assiste. Ele escolhe se sentar fora do enormemente estressante jogo de poker das aparências dos E.U.A.

Mas pessoas solitárias, em casa, sozinhas, ainda anseiam por vistas e cenas, companhia. Daí a televisão. João pode vê-Los na tela; Eles permanecem cegos a João. É quase como voyeurismo. Eu conheço pessoas que consideram a televisão um verdadeiro deus ex machina para voyeurs. E muitas das críticas, as críticas realmente raivosas menos colocadas que jogadas tanto nas redes de televisão quanto nas propagadas e audiências, tem a ver com a acusação de que a televisão nos transformou numa nação de voyeurs transpirantes e boquiabertos. Essa acusação no fim das contas é falsa, mas ela é falsa por razões interessantes.
O que o voyeurismo clássico é é espião, i.e. assistir a pessoas que não sabem que você está lá conforme essas pessoas seguem fazendo as pequenas atividades mundanas mas eroticamente carregadas da vida privada. É interessante que muito do voyeurismo clássico passe por alguma forma de vidro moldado – janelas, telescópios,etc. Talvez a analogia com a televisão seja tão interessante graças ao vidro moldado. Mas assistir televisão é diferente de verdadeiramente dar uma espiada. Porque as pessoas que estamos assistindo através do vidro moldado da tela da TV não são realmente ignorantes do fato de que alguém as está assistindo. Na realidade, muitos alguéns. Na realidade as pessoas na televisão sabem que é em virtude dessa verdadeiramente gigantesca platéia de alguéns olhadores que eles estão na tela se envolvendo em gestos completamente, amplamente não-mundanos. A televisão não permite espiar de verdade porque a televisão é performance, espetáculo, que por definição requer quem o assista. Aqui não somos de forma alguma voyeurs, Somos apenas espectadores. Nós somos a audiência, megametricamente muitos, ainda que a maioria de nós assista sozinho. E Unibus Pluram.

Uma das razões pelas quais escritores parecem esquisitos em pessoa é que por vocação eles são mesmo voyeurs. Eles precisam desse roubo visual direto que é assistir a alguém que não preparou um eu especialmente assistível. A única ilusão na verdadeira espionagem voyeur é sofrida pelo voyee, que não sabe que está passando imagens ou impressões. Um problema a respeito de tantos de nós ficcionistas com menos de 40 usarmos a ficção como um substituto para a espionagem verdadeira, contudo, é que o “voyeurismo” televisivo envolve toda uma orgia de belíssimas ilusões para o pseudo-espião, quando ele assiste. A ilusão (1) é que nós não somos voyeurs aqui de modo algum: os “voyees”do outro lado do vidro estão apenas fingindo não saber. Eles sabem perfeitamente bem que estamos aqui fora. E o fato de que estamos aqui fora também está fundo na mente daqueles que estão atrás da segunda camada do de vidro, v. as lentes e monitores através dos quais técnicos e arrumadores propelem as imagens visíveis a nós com enorme genialidade. O que vemos está longe de ser roubado; é proferido – ilusão (2). E, ilusão (3), o que estamos vendo através das janelas moldadas não são pessoas em situações reais que fazem ou mesmo que poderiam continuar sem a consciência de uma Audiência. I.e., aquela realidade em que os jovens escritores estão procurando por dados para ficcionalizar, já é composta de personagens ficcionais em narrativas altamente formalizadas. E, (4), nós não estamos nem realmente vendo “personagens”: aquele não é o Major Frank Burns, o patético idiota-presunçoso de Fort Wayne, Indiana; é Larry Linville de Ojai, California, ator estoico o suficiente para sobreviver a milhares de cartas (que continuam chegando, mesmo em sindicância) de pseudo-voyeurs ralhando com ele por ser um idiota de Indiana. E também (5) no fim das contas não são nem mesmo atores que estamos espiando, nem mesmo pessoas: são ondas analógicas propelidas por EM e redes de íons e reações químicas no fundo da tela arremessando fosfenos em grades de pontos não muito mais vivos que os comentários Impressionistas do próprio Seurat sobre a ilusão perceptual. Meu Deus e (6) os pontos estão saindo de um móvel, na verdade nós só estamos espiando um de nossos próprios móveis, e nossas próprias cadeiras e lâmpadas e lombadas de livros permanecem visíveis mas não vistas à margem de nosso olhar conforme contemplamos a “Coréia” ou somos levados “ao vivo para Jerusalém” ou encaramos as cadeiras almofadadas e as lombadas de livros classudos da “casa” dos Huxtable como indicações ilusórias de que este é algum interior doméstico cuja membrana tenhamos (furtivamente, despercebidos) violado – (7) e (8) e ilusões ad inf.

Não que essas realidades sobre atores e fosfenos e móveis sejam desconhecidas para nós. Nós escolhemos ignorá-las. Elas são partes da descrença que suspendemos. Mas é um peso absurdamente grande para se segurar seis horas por dia; ilusões de voyeurismo e acesso privilegiado requerem uma cumplicidade profunda do telespectador. Como podemos ter nos tornado tão acessíveis à ilusão de que as pessoas na televisão não sabem que estão sendo assistidas, à fantasia de que estamos de alguma maneira transcendendo sua privacidade e nos alimentando de mentes inconscientes do outro? Podem existir inúmeras razões porque essas irrealidades são tão engolíveis, mas uma das grandes é a de que os artistas atrás do vidro são – levando em consideração variados graus de talento dramático – gênios absolutos em parecer não estar sendo assistidos. Não se engane – parecer não estar sendo assistido em frente a uma câmera é uma arte. Dê uma olhada em como os não profissionais agem quando alguém aponta uma câmera de TV pra eles: muitas vezes eles se desastram, ou endurecem, congelados pela consciência de si mesmos. Mesmo pessoas das RP e políticos são, em termos de aparecer na câmera, amadores. E nós amamos rir do modo como os não profissionais aparecem na televisão, rígido e fingido. Quão não natural.

Mas se você, mesmo que apenas uma vez, já foi o objeto daquele terrível olho arredondado e vazio, você sabe muito bem o quão congelantemente auto-consciente ele te faz sentir. Um cara cabeludo com fones de ouvido e uma prancheta te diz pra “agir naturalmente” conforme seu rosto começa a andar pelo seu crânio, lutando por uma expressão de não-estar-sendo-assistido que parece completamente impossível porquê “parecer não assistido” é, assim como “aja naturalmente”, oximorônico. Tente acertar uma bola de golfe com toda a força depois que alguém te pergunta se você inspira ou expira o ar durante o movimento do taco, ou receber a promessa de recompensas magníficas se você conseguir passar dez segundos sem pensar num rinoceronte verde, e você terá alguma ideia das contorções verdadeiramente heroicas de corpo e mente que são necessárias para que um David Duchovny ou Don Johnson atue não-assistido enquanto é assistido por uma lente que é um emblema esmagador do que Emerson, anos antes da TV, chamou de “o olhar de milhões”.

Para Emerson, somente uma certa espécie muito rara de pessoa é adequada para suportar esse olhar de milhões. Não é a espécie normal, trabalhadora, silenciosamente desesperada de americanos. O homem que consegue suportar esse mega olhar é um imago ambulante, um certo tipo de semi-humano transcendente que, na frase de Emerson, “carrega o feriado em seus olhos”. O feriado Emersoniano que os atores televisivos carregam em seus olhos é a promessa de férias da auto-consciência humana. Não se preocupar a respeito de como você é percebido. Uma não-alergia total a olhares. Isso é contemporaneamente heroico. É assustador e forte. É também, é claro, atuação, porque você precisa ser anormalmente auto-consciente e auto-controlado para parecer não estar sendo assistido diante de câmeras e lentes e homens com pranchetas. Essa aparência auto-consciente de a-auto-consciência é a verdadeira porta da sala-de-espelhos das ilusões da TV, e para nós, a audiência, é ao mesmo tempo remédio e veneno.

 Porque nós encaramos essas pessoas raras, altamente treinadas, que aparentemente não estão sendo assistidas, por seis horas diariamente. E nós amamos essas pessoas. Em termos de atribuir a elas características verdadeiramente supranaturais e desejar emulá-las, é justo dizer que nós meio que as idolatramos. No mundo real de João Gravata – mundo que muda cada vez mais assustadoramente de alguma comunidade de relacionamentos para redes de estranhos conectados por interesse próprio e tecnologia, as pessoas que espiamos na TV nos oferecem familiaridade, comunidade. Amizade íntima. Mas nós dividimos o que vemos. Os personagens podem ser nossos “amigos próximos”, mas os atores são mais que estranhos: eles são imagos, semideuses, e se movem numa esfera diferente, saem e se casam apenas uns com os outros, parecem, mesmo como atores, acessíveis à Audiência somente através da mediação dos tabloides, talk shows, sinais de EM. E ainda assim tanto atores quanto personagens, tão terrivelmente distantes e filtrados, parecem tão terrivelmente, gloriosamente naturais quando nós os assistimos.

Dado o quanto assistimos e o que assistir quer dizer, é inevitável, para aqueles de nós que são ficcionistas ou para os Joões Gravata que acreditam que somos voyeurs, ter na cabeça a ideia de que essas pessoas atrás do vidro – pessoas que são frequentemente as mais coloridas, animadas, vivas na nossa experiência diária – são também pessoas que são ignorantes do fato de que estão sendo assistidas. Essa ilusão é tóxica. É tóxica para pessoas solitárias porque levanta um ciclo alienador (v. “Porque EU não posso ser assim?”, etc.), e é tóxica para escritores porque nos leva a confundir a pesquisa para a ficção com um tipo esquisito de consumo de ficção. A supersensibilidade de pessoas auto-conscientes quanto a seres humanos reais tende a colocá-las diante da janela monodirecional da televisão numa atitude de recepção totalmente relaxada, arrebatados. Nós assistimos a diversos atores atuando como vários personagens, etc. Por 360 minutos per diem, nós recebemos inconscientemente suporte à ideia de que a característica mais atraente de pessoas verdadeiramente vivas é sua assistibilidade, e que o valor humano genuíno não é simplesmente idêntico, mas enraizado no fenômeno do assistir. Além disso, a ideia de que a maior parte da verdadeira assistibilidade é a capacidade de parecer inconsciente de que se está sendo assistido de qualquer forma. Agir naturalmente. As pessoas que nós, jovens escritores de ficção e reclusos selecionados estudamos, por quem sentimos, e em quem sentimos são intencionalmente, por virtude de um gênio de simulada a-auto-consciência, adequadas para resistirem ao olhar das pessoas. E nós, tentando desesperadamente parecermos indiferentes, transpiramos estranhamente no metrô.

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