terça-feira, 16 de abril de 2013

Nós, Escribas pt.1







Estou lendo, nesses dias, muitas coisas relacionadas à literatura pós-moderna¹, que remetem, obviamente, à arte/literatura modernas, que me colocaram pensando a respeito de o que é ser um escritor nos nossos tempos. 

Não que escrever tenha sido, em alguma época, fácil, mas como já foi dito antes, a liberdade formal, o fato de que não se precisa mais rimar ou seguir tais e tais preceitos retóricos de composição pra se ser considerado um bom escritor, tudo isso, na verdade, torna o ato de escrever artisticamente ainda mais complicado, ou, no mínimo, complicado de uma maneira diferente. Hoje em dia temos a teoria da recepção, um cânone ridiculamente grande e complexo, e a própria questão de o que pensamos sobre a literatura, e o que queremos, ou, pior, o que podemos, dizer através dela.

Por isso mesmo, o texto vai dividido justamente nesses três tópicos, apesar de quê, espero que fique claro, todas essas três coisas são interdependentes.

o Leitor e o Texto

A teoria da recepção é relativamente nova, e tudo o que sei sobre ela está em menções feitas em análises literárias de alguns autores, especialmente o Borges - cuja obra foi, na verdade, uma das fontes de onde a própria teoria surgiu.

Justamente por esse meu desconhecimento, não vou categorizar o que eu estou falando aqui como "teoria da  recepção." Ainda que eu saiba que o que falo aqui é relacionado a ela, não posso sair falando com essa liberdade toda. Portanto, vou falar sobre a percepção do leitor.

Uma das anedotas a respeito do Borges (e existem Muitas), é que, quando ele escreveu o conto "Pierre Menard, autor do Quixote"², muitos de seus leitores correram às livrarias à procura da obra, para comprá-la. Se a anedota é verdadeira ou não, é irrelevante; para efeitos de exemplo, vamos imaginar que sim. 

O leitor de Pierre Menard pode ser dividido em vários tipos: aquele que se deixou convencer e foi às livrarias procurando o Don Quixote escrito por ele; aquele que não se deixou convencer, por saber que aquilo descrito por Borges é absolutamente impossível; aquele que não só não se deixou convencer, como compreendeu o modo como Borges brincou, no texto com a aceitação tácita do leitor a tudo que o escritor afirma; por último, há aqueles, que com maior ou menor grau de intensidade reconheceram as citações, os nomes, e entenderam ainda mais profundamente que os outros o (ou os outros) significado da obra.

Em outras palavras: a compreensão do texto depende, em absoluto, do leitor. Cada leitor vai receber, compreender o texto de uma maneira diferente, e essas maneiras podem ser infinitamente variadas, suas possibilidades dependendo do tipo de texto ao qual dizem respeito, e do trabalho feito pelo autor.

Há quem diga que é simplesmente impossível se dizer o que é que um leitor específico vai compreender de um texto, o que, considerando uma pessoa desconhecida ou escolhida aleatoriamente pode ser verdade - até certo ponto. 

Vamos considerar aqui um leitor que não tenha nenhuma espécie de deficiência mental. Uma pessoa a ser escolhida nas ruas. Vamos supor que eu mostre pra ela um best-seller a la Crepúsculo. Talvez eu não saiba dizer o que ela vai pensar a respeito do livro, o que vai achar e o que falará dele; mas a verdade é que eu sei, até certo ponto, qual será a compreensão aproximada da pessoa do texto. 

Claro, o exemplo escolhido aqui é um texto "simples"³, e outros textos podem exigir mais ou menos do leitor. O texto de Borges, como exemplifiquei, tem várias possibilidades de compreensão. Por ser escrito como um ensaio, pode até convencer alguns leitores, mas mesmo dentre aqueles que perceberão a jogada de Borges, quem sabe quem foi Raymond Lull, um dos homens citados na obra? E sem sabê-lo, como perceber até que ponto o citar seu nome influencia no sentido do conto? Agora, o texto de Crepúsculo, ainda que seja muito maior, não possui o mesmo número de possibilidades.

*

Uma coisa é verdade: por mais que a compreensão do texto caiba ao leitor, e ainda que seja impossível dizer que o leitor X vai entender isso, ou aquilo, generalizações são possíveis. Como sempre, generalizações rebaixam boa parte dos envolvidos, elevam outra boa parte, mas muitas vezes acertam, no que diz respeito ao... geral.

Um exemplo: eu sei que os filmes do Lars von Trier não vão fazer muito sucesso nas telas do cinema. Eu também sei que seu último filme, "Melancolia", tem mais chances de fazer sucesso que os outros, uma vez que tem Kirsten Dunst e Kiefer Sutherland como dois dos atores principais. A televisão, afinal, funciona mostrando aos telespectadores aquilo que seus roteiristas sabem que eles querem ver. Digamos que se eu escolher alguém, aleatoriamente, e mostrar a ele um filme do von Trier, eu não saiba dizer com certeza se ele vai gostar ou não do filme - mas que eu tenho uma porcentagem boa de chance de acertar ao dizer que ele não vai, eu tenho - da mesma forma em que sei dizer que o próximo filme do Homem de Ferro vai fazer sucesso. Há coisas previsíveis.

Agora, porque essas coisas são previsíveis? Ou, talvez seja melhor começar perguntando, por que essas coisas são tão naturalmente previsíveis? Eu não preciso parar e pensar pra saber disso. Eu sei que o Homem de Ferro vai fazer sucesso, do mesmo jeito que eu sei que a nova novela da Globo vai. Mas por quê?

Eu suponho que isso tenha a ver com a nossa inserção na cultura. Estamos numa cultura específica (que globalmente, inclusive, é muito similar), cercados principalmente por pessoas "médias"4, e por toda a nossa vida vimos essas pessoas e suas escolhas de programas de TV e alternativas de entretenimento. Ainda que estejamos num mundo que muda muito rapidamente, temos uma boa ideia de como essas pessoa reagirão a determinado novo estímulo. Como Wallace fala no texto que estou traduzindo aqui no blog, a televisão é uma força que altera mais o nosso ambiente cultural, e o define, do que pensamos. A força da internet, nesse sentido, talvez seja ainda maior, o que é uma discussão pra outro dia.

Pensando em tudo o que eu falei até aqui, eu poderia chegar a uma de duas conclusões5: a primeira é que escrever tendo plena consciência do que vão compreender a partir da minha escrita é impossível. A segunda, na qual eu acredito, é a de que é possível prever, até certo ponto o que os leitores vão pensar a respeito de alguma produção artística. Repito: até certo ponto. Acho que ninguém preveria, por exemplo, que Gangnam Style se tornaria o vídeo mais visto da história, ou que o Infinite Jest se tornaria um best-seller. Mas é fácil imaginar que a minoria dos leitores compreende os principais significados do livro. Caramba, é difícil imaginar que a maioria sequer leia o livro até o fim.

Ao mesmo tempo, contradizendo essa onda de imprevisibilidades, eu sei que o Calvino estava consciente de que a maioria dos leitores acharia um livro como "O Visconde partido ao meio" divertido, mas certamente também estava consciente que a maioria dos leitores não passaria muito disso. Borges talvez não soubesse que as pessoas chegariam a procurar o livro de Pierre Menard nas livrarias, mas com certeza sabia que muitíssimas pessoas seriam enganadas e acreditariam na existência do livro. Agora, nós, simples pretensos escritores, precisamos partir do mesmo princípio; como podemos transmitir uma mensagem sem ter a menor ideia do que os outros vão compreender dela? Acaba sendo necessário prever um "universo de compreensão", digamos assim. O Calvino escrevia livros relativamente acessíveis, e tinha, ele mesmo dizia, como um de seus objetivos divertir o leitor. Já o Borges escrevia obras consideradas mais complicadas, como o Cortázar, e ambos, com certeza, sabiam que assim limitavam seu número de leitores, conforme expandiam as fronteiras da própria linguagem. Nós precisamos pensar a respeito de o que e de como fazemos.

*

Toda essa história sobre a incapacidade de se prever a compreensão do leitor, se reflete, no fim das contas, na capacidade de se escrever exatamente aquilo que se deseja. Se eu, escritor, não tenho controle sobre o significado das coisas que eu escrevo, pois quem tem a palavra final é o leitor, que diferença faz o que eu escrevo?

Pra começo de conversa, isso não é bem verdade. O escritor tem, sim, um certo controle sobre o significado, que, dependendo de sua capacidade e do ponto ao qual compreende os possíveis leitores, vai ser maior ou menor. Ao escrever esse texto, por exemplo, eu tenho absoluta certeza que ninguém vai pensar que ele é sobre a venda de peixes exóticos no mercado negro, e mesmo um certo grau de certeza de que ninguém vai achar que ele é um conto, ou que fala sobre a literatura do século 19. Eu sei, mais ou menos, o que se pode entender a partir dele. O que não quer dizer que é fácil sabê-lo a partir de alguma produção literária que eu possa querer desenvolver, uma vez que a literatura trabalha de um modo totalmente diferente - muitas vezes usando símbolos, analogias, alegorias, e etc., que muitas vezes exigem bem mais do leitor que um texto que fala a ele mais diretamente - o que estou dizendo aqui é que, mesmo que seja possível ter certo controle sobre o significado de um texto, esse controle é difícil de se conseguir, e conforme o texto que estou escrevendo se torna mais formalmente complexo, esse controle se torna proporcionalmente mais complexo. Além do quê, sempre existe a possibilidade de uma compreensão parcial ou nula por parte do leitor.

Não só isso, mas o meu texto tem o potencial de revelar características minhas. Ao ler esse texto, alguém poderia muito bem adquirir uma compreensão relativamente acurada da minha opinião a respeito da literatura. Logo no início do Dorian Gray, o personagem Basil Howard, que fez a pintura de Gray que impulsiona o enredo, afirma que não a quer expôr porque ela revela muito dele mesmo, do pintor. Ele afirma que a obra artística revela mais sobre seu autor que sobre seu objeto. Dessa maneira, um escritor pode revelar, através de um texto, uma posição política que ele mesmo não sabe que tem. Voltando ao exemplo "simples" de antes, o fato de que a escritora de Crepúsculo é mórmon com certeza tem uma influência pesada na virgindade e na correção dos personagens. O livro parte de uma ideia de "cordeirização" da humanidade que parece estar pra todo lado* e é meio irritante.

O problema é que o meu objetivo aqui não é impedir que minha produção literária revele minha posição; pelo contrário, um dos sentidos de boa parte da produção literária de qualidade é justamente revelar as opiniões e posições de seus escritores - e portanto não cabe ocultá-la, mas expressá-la de maneira adequada. O problema é que, pra fazer isso, eu preciso, antes de mais nada, compreendê-la. Se eu não tenho uma posição definida a respeito da literatura, da sociedade em que eu vivo, ao tentar representar essa sociedade através da literatura, vou acabar sendo contraditório, ou falando coisas das quais vou me arrepender depois, assimilar preconceitos, etc. Dá pra resumir isso numa frase simples e óbvia: um bom escritor sabe do que está falando.

Ainda a respeito das possibilidades de escrita, todo mundo já sabe, hoje em dia, que não existe neutralidade. Querendo ou não eu transmito uma posição através dos meus textos. É assim que consigo compreender autores como Fernando Pessoa, que se colocou na pele de tantos outros heterônimos. Não ouso afirmar que, um bom leitor que não soubesse da existência de Pessoa, poderia ler textos de, por exemplo, Ricardo Reis e Álvaro de Campos e pensar que são do mesmo autor. Mas repare que aqui não existe neutralidade; Pessoa consegue se distanciar por tomar uma posição diferente. Ele não se esconde, não fica calado, mas sim, coloca uma (outra) máscara, alterando a percepção do leitor à sua obra, que querendo ou não associa o escrito ao escritor, e supõe saber algo de um a partir do outro6.

No fim das contas, nós, escritores, temos como obrigação (a) a definição de uma posição e opinião a respeito do objeto de nossa escrita, (b) a definição do público ao qual direcionamos a nossa escrita7 e (c), o cuidado com a própria escrita, de modo a adequá-la ao leitor esperado, e transportar apenas o conteúdo que delimitarmos previamente. Claro, isso não é nada fácil 8, mas não fazê-lo pode deixar marcas feias no texto.

 Inclusive, por favor, quero pedir que ninguém veja isso como uma espécie de “poética”; cada um fala o que quer e como quer em seus textos literários, claro, isso seria só uma espécie de moral pessoal da escrita, conforme eu vejo hoje em dia; acho que estou  dizendo o que eu acho que são coisas essenciais pra se escrever literatura de verdade.

Como esse texto já ficou muito grande, decidi dividi-lo em três partes. As duas seguintes ainda serão escritas e publicadas mais pra frente. Beijos.



1. Que, inclusive, não me convenceram ainda de que ela existe.
2. No qual um homem chamado Pierre Menard escreve um livro exatamente igual ao Quixote. Ele, contudo, não copia o livro, mas sim, vive de uma maneira em consequência da qual, quando ele decide escrever um livro, sai o Quixote, com consequências filosófico-linguísticas diversas.
3. A palavra está entre aspas aqui porquê, afinal, talvez seja impossível qualificar qualquer romance de simples, por menos complexo que ele seja.
4. Sem ofensa, rs. Isso é só uma tautologia, já que, o conhecimento médio representa, necessariamente, a maioria das pessoas.
* Falo isso no sentido em que, nos tempos modernos, mesmo no que diz respeito à alimentação (vegetarianismo, veganismo, etc.), nós estamos, como "seres superiores", cada vez tratando os outros animais mais como vítimas de nossa existência, ao contrário de, como sempre foi o modo natural, vê-los como criaturas abaixo de nós na cadeia alimentar, e portanto, alimento natural - do mesmo modo como um tigre vê. Não estou dizendo que isso é errado, longe de mim; só falo sobre uma ideia engraçada de que o crescimento moral/intelectual afasta cada vez mais do portador os conceitos de violência, ou mesmo de sexo. Isso é coisa pra outros dias.
5. Pelo visto eu não aprendi nada, :P . Vai saber a quantas conclusões eventuais leitores não podem chegar.
6. Isso, claro, muitas vezes não é verdade, o que não é uma discussão pra agora.
7. A literatura de qualidade em geral negligencia esse aspecto. A maioria dos grandes escritores escreve justamente para leitores que, de certa forma, “não precisam” da leitura de seus livros. Digamos, por exemplo, que o Infinite Jest incentiva a leitura de trabalhos de fôlego e o pensamento aprofundado para leitores que estão dispostos a ler um livro de 1079 páginas extremamente complexo, ou seja, por definição, pessoas para quem a mensagem do livro é desnecessária. Claro que a coisa não é tão simples assim, mas dá pra ter uma ideia. No fim das contas, quem se preocupa com o desenvolvimento da literatura, cria literatura pra acadêmicos, e quem se preocupa com as vendas, cria entretenimento superficial, pra vender. O único autor que eu conheço que realmente tinha como objetivo criar uma literatura ao mesmo tempo densa e divertida foi o já mencionado Ítalo Calvino – que é, realmente, um dos grandes romancistas do século XX, mostrando que alcançar essa literatura comprometida com o público não exige o sacrifício de sua qualidade. É claro que isso tudo é uma grande generalização, mas é, ao mesmo tempo, verdadeiro para a maioria dos escritores.
8. Sim, é impossível, de certa forma, como eu já mencionei. As partes mais difíceis são , provavelmente, "transportar apenas o conteúdo que delimitarmos previamente", e prever com um grau aceitável de sucesso a opinião do leitor.

domingo, 14 de abril de 2013

Você, manipulável

Esse post não é uma tentativa de manipular você.




Isso fora do caminho, continuemos.

Recentemente tem acontecido uma série de eventos internéticos envolvendo o pastor/deputado (estado laico[sic]) Marco Feliciano. O cara, pura e simplesmente, fala merda. Fala mesmo. E o primeiro exemplo que eu quero dar a respeito da facilidade de manipulação das pessoas é o modo como muita gente acredita na merda que ele fala, graças ao fato de que ele é um pastor, e portanto uma figura (bem)relativamente importante dentro da hierarquia de uma certa religião.

Aí está o primeiro fator que permite que ele engane a vários tão facilmente: tendemos a acreditar em pessoas hierárquica ou pseudo-hierarquicamente acima de nós. O filho acredita no pai, o aluno no professor, o evangélico no pastor, o católico no padre, etc. Afinal, se não acreditarmos neles, acreditaremos em quem? Além do mais, os dois últimos mencionados nessa lista, além dessa forma de superioridade hierárquica, têm do seu lado a crença dos fiéis de que eles são representantes na terra de uma forma de divindade que estaria "acima de todas as coisas", o que com certeza é o melhor mecanismo retórico de todos os tempos, mas que cai junto com as religiões que o sustentam. Conforme as pessoas deixam de acreditar na religião, o poder de seu representante diminui. Se as religiões diversas estão ou não estão certas não vem ao caso, aqui. O que eu quero deixar claro é que essas pessoas, mesmo pais e professores, estão numa posição privilegiada para manipular você - simplesmente porque quando elas falam, você costuma a acreditar.

E é claro que em certos casos, como é o do pastor Feliciano, os resultados disso podem ser tenebrosos - é de se apostar que inúmeros fiéis de sua igreja saíram dali acreditando e, o que é pior, pregando, muitas de suas opiniões racistas. Essas pessoas simplesmente acreditaram na palavra dele pelo simples fato de que ele é um pastor, e se baseou em leituras que variam entre relativamente sãs e insanas da bíblia, que afinal de contas não é o livro mais tolerante do mundo, e ainda é capaz de aceitar diversas interpretações, escolhidas ao bel-prazer do leitor que pode acreditar no que diz, ou simplesmente escolher uma interpretação para convencer a seu público de algo.

*

Seguindo pelo caso Feliciano, quero mencionar uma outra possibilidade que, para muitos, pode parecer um pouco mais inverossímil, como já pareceu pra mim, de manipulação. Não que eu ache que isso seja provável, mas eu nunca vi o Feliciano falando essas coisas. Só ouvi dizer que ele falou. Da mesma maneira como eu tenho certeza que Shakespeare, Pessoa, e, especialmente, Clarice, não são responsáveis por algumas das barbaridades de que são acusados na internet - ainda que muita gente acredite que sejam.

Vou falar a respeito de uma experiência pessoal. Há não muito tempo, a grande maioria das universidades federais do país entraram em greve. Na minha universidade, a maioria dos alunos era a favor, mas os jornais só entrevistavam os alunos que eram contra; a grande maioria das federais estava em greve, mas o jornal dizia que a menoria das universidaes estavam em greve (é óbvio que "maioria" deles eram as particulares, que não estariam em greve). Os jornais simplesmente manipulavam a opinião pública mostrando apenas um lado das coisas, formando frases de uma maneira que ao mesmo tempo enganava e não podia ser considerada mentirosa.

Aliás, é interessante notar aqui que até então, em nenhum caso, eu mencionei a mentira. Um pastor pode te enganar interpretando a bíblia de uma maneira diferente; a televisão, simplesmente te dando informação de uma maneira incorreta. Ninguém está mentindo, todos estão enganando.

*

Aí entra o movimento internético rumo à mudança do mundo todo através de ações combinadas. Mas como, como isso é manipulável! Os responsáveis por isso conseguiram mais de um milhão de assinaturas para fins diversos, dos quais as pessoas sabem apenas o que eles mesmos contam! É como se o jornal, depois de mostrar dez entrevistas com dez entre cem estudantes que são contra a greve, fizesse um abaixo assinado pra terminar com a greve. Pode crer que teria um milhão de assinaturas.

O problema é que, em geral, não conseguimos, e é realmente difícil e trabalhoso nos manter em dia com todos os inúmeros acontecimentos relacionados à política, economia, indústria, educação, e inúmeros etcs. que, querendo ou não, se influenciam mutuamente, por vezes com consequências imprevisíveis. Nós simplesmente não sabemos, e portanto deixamos que outras pessoas cuspam nas nossas bocas informações já mastigadas - mas aí não conseguimos distinguir o alimento que estava ali antes.

Não me entendam mal; acho a iniciativa dos caras de começar a fazer esse abaixo assinado, e trazer alguma utilidade real - porque, sim, há uma utilidade real¹ - para as manifestações na internet algo fantástico. Mas o problema é que, se você não sabe nada a respeito do assunto de que o cara está falando, o que o impede de te manipular. Dou um exemplo claro.

Eu recebo os e-mails da avaaz.org, um desses sites de abaixo-assinado, que é justamente o que falou muito contra o Feliciano, e coletou as um milhão seiscentas e tantas assinaturas contra ele. Eles acabaram de divulgar um abaixo assinado contra uma empresa de biotecnologia que quer patentear algumas formas desenvolvidas tecnologicamente de pepinos, brócolis, essas coisas. Assim como eles, eu também sou contra esse tipo de coisa, mas muuuuitos detalhes estão envolvidos.

Primeiro, o modo como os caras tentam, atraves desse e-mail, angariar simpatias, é desesperador. O título é "Monsanto [que é a empresa] vs. Mãe Terra". "podemos impedí-los de comprar a nossa Mãe Terra". Que coisa.

O foda é que eu acho essa uma boa causa. Não estou falando que não é. Acho que a explicação dada ali é boa, que o acontecimento realmente merece nossa atenção, e que seria útil para a nossa sociedade fazer algo a respeito. De acordo com o e-mail:

"Uma vez que uma patente passa a existir em um país, os acordos de comércio e negociações internacionais geralmente fazem com que outros países também se comprometam. É por isso que essas patentes transformam todo o modo como a nossa cadeia alimentar funciona: por milhares de anos, os agricultores podiam escolher quais sementes usariam sem se preocupar se seriam processados por violar direitos de propriedade intelectual. Mas agora, as empresas estão patenteando as sementes e obrigando os agricultores a pagarem taxas de 'royalties' exorbitantes. E os agricultores não podem nem mesmo guardar as sementes patenteadas para replantar na próxima estação: a Monsanto processou centenas deles por praticar a arte milenar de economizar as sementes de uma colheita para usá-las no ano seguinte. A Monsanto e outras empresas afirmam que as patentes impulsionam a inovação, mas na verdade elas criam um monopólio corporativo da nossa comida."

Dessa vez eu vou ignorar as inúmeras estratégias escancaradamente retóricas, as frases que nos tentam convencer abertamente de que a empresa está errada. Vou falar de outra coisa.

A empresa, de acordo com o que o e-mail me dá a entender, é de biotecnologia, e altera sementes para mudar algumas características das plantas. Ou seja, ela não estaria criando patentes em cima de qualquer semente ou brócolis ou pepino, mas apenas daquelas que a própria empresa foi responsável por desenvolver, e portanto, qualquer outra variedade, incluindo aquelas que os agricultores plantaram até hoje, ainda podem ser plantadas sem a existência de nenhuma patente, cabendo ao agricultor decidir se quer ou não pagar mais pela outra variedade desenvolvida pela Monsanto, certo? Não sei. É o que o texto do e-mail me leva a entender. É o que o texto parece não estar dizendo, para me convencer a assinar o abaixo assinado.

Como eu não sei nada disso, a tendência natural é acreditar, e talvez eu até tivesse, não fosse essas frases a la "monopólio corporativo da nossa comida", que soam absolutamente forçadas. Depois de pensar que o agricultor não precisa dessas patentes diferentes pra plantar o brócolis (ainda que isso possar ser melhor pra ele, não o impede de continuar sua "arte milenar"), mas só para plantar um tipo de brócolis que essa empresa criou, posso imaginar que, se já houve alguma plantação, da qual os agricultores (provavelmente cientes de que poderiam ser processados caso fizessem isso) reutilizaram as sementes, é porque eles tiveram dinheiro pra comprá-las - a agricultura, afinal de contas, dá muito dinheiro, pois produz algo que nunca pararemos de comprar. Daí, o que me impediria de supor que, na verdade, o cara responsável pelos abaixo assinados não vai receber uma grana violenta dos próprios agricultores que economizarão caso essa lei deixe de existir, e está se aproveitando de sua posição?

Mais uma vez, quero deixar claro, que nunca é demais: não estou falando que isso é verdade; apenas estou dizendo que, se ele quisesse, seria muito fácil pra ele nos manipular. Basta desenhar um sorriso de escárnio no rosto sem expressão da grande empresa internacional (maligna). Nós não perceberemos. Uma pessoa que assume a posição de quem nos impedirá de ser manipulado é justamente aquela que mais pode nos manipular.

Eu mesmo, caso meu blog tivesse mais que um visitante por dia, poderia estar falando isso como defesa da tal da "Monsanto" - dá pra perceber que não pelo contrário do que faz com os outros tenham a facilidade de manipular você: minha posição é insignificante. O que me torna não um manipulador, mas um manipulado².

No fim das contas, eu não fiz nenhuma pesquisa pra escrever esse texto, não li nada, apenas pensei com os meus botões, e mesmo assim aposto que um leitor eventual pensaria a respeito dessas coisas, e poderia mudar de opinião sobre algo caso parasse pra pensar. Você, leitor que fizer isso, estará acreditando na opinião de alguém que simplesmente falou um monte de coisas sem saber ou verificar nada.

Que vergonha!

Mas pelo menos eu não estou te manipulando.


1. Na verdade há várias, mas só pra citar uma óbvia: políticos são eleitos por pessoas, e caso milhões de pessoas se manifestem contra o Feliciano, os políticos que também o fizerem estarão "ao lado do povo"; daí, a pressão faz um efeito. O fato de que somos nós quem elegemos os políticos os pressiona a não se manifestar fortemente contra aquilo que milhões desejam.

2. Frase que, na verdade, seria o final ideal de um texto pra convencer você de que eu não estou te manipulando; só que eu não estou.

sábado, 6 de abril de 2013

Os Moradores de Rua e os Cachorros


Atualizado em 7/4 às 0:55

Faz pouco tempo que eu tenho dois cachorros aqui em casa. Antes deles eu já tinha pensado em um texto como esse, uma ou outra vez, mas agora, que eles parecem sempre estar tentando subir na minha cabeça de tanto pulo, acho que o pensamento acaba vindo com mais frequência. A respeito de o que é o que gostamos nos cachorros e o que faz com que eles sejam coisas tão agradáveis (exceto pra você, pessoa a quem eles não agradam), e com que queiramos tê-los em casa, e de porque, já que somos da espécie humana, muitos de nós sente mais pena dos animais abandonados pelas ruas que das pessoas que dormem nelas.

Acho que existe um aspecto muito estranho na evolução humana que, no fim das contas, é bom, e com certeza foi surgindo aos poucos ao longo de muitas gerações de existência racional, ou mesmo "racional", e de manifesta superioridade em relação a outros animais: a compaixão.

Eu sei que a compaixão é uma coisa limitada (em alguns casos inexistente), e depende de uma série de fatores, sendo o principal deles o bem próprio. Alguns "raciocinam" que não vão dar aos outros as coisas que eles trabalharam tanto para conseguir, oras; eles tem que trabalhar, correr atrás. Acho que a simples enumeração de fatores históricos, sociais e psicológicos que isso envolve já seria algo trabalhoso, e talvez em si mesma (e por isso mesmo) capaz de mostrar o quanto esse "raciocínio" é simplista (adjetivo muito compassionado da minha parte, inclusive). A ideia de que por simples escolha um mendigo seria capaz de mudar a vida que leva através de "um pouco de trabalho", e em muitos casos, a ideia de que a pressão social + psicológica da vida levada até então por ele sequer permite que ele considere essa possibilidade, são quase que desvairadas, mesmo. Além de inúmeros outros fatores como as razões que o levaram até ali, as tentativas que já pode ter feito de mudar e seus resultados, um possível estado de depressão, vício, tragédias pessoais, infinitos etecéteras dos quais preferimos manter distância. 

É engraçado, curioso mesmo, que basicamente, ao julgar um pedinte na rua como inferior, a pessoa, logicamente, está se colocando como alguém superior. Isso em si já tem diversos problemas. Em primeiro lugar, muitas vezes ela não trabalha coisa nenhuma, não faz nada que o homem ali na rua não poderia fazer (talvez até melhor que ela) dada a oportunidade. A maioria de nós encara aqueles homens e mulheres em trapos pedindo um trocado no farol ou dormindo em caixas de papelão sem qualquer espécie de aquecimento, em dias de chuva e frio, com uma de quatro atitudes. A pessoa pode ignorá-los; caso seja abordada por um deles, pode sentir um certo desconforto, ou mesmo compaixão - ou não, seja por simplesmente, sei lá, ser um psicopata, ou por ter tão enraizado um "raciocínio" como o citado acima que simplesmente não sente nada a respeito do assunto. Ou então, ela pode reparar neles; aqui, ocorre o mesmo que no outro caso - constrangimento e possível compaixão, ou não. Eu acho que a maioria das pessoas, especialmente se colocadas numa situação de contato direto com alguém em necessidade, se sente constrangida. Sei que algumas delas pagam ao constrangimento cinco centavos pra que ele vá embora.

O constrangimento tem razões mais que óbvias, claro. Se eu sou essa "pessoa superior", como minha superioridade se manifesta em deixar que outros passem fome na minha frente? Eu não quero perceber que, na minha "lógica", superioridade é deixar que os outros morram, e eu me sinto mau por isso. 

***

Eu suponho que a ideia de animais de estimação seja algo que precisou de duas coisas para surgir: a superioridade absoluta como espécie, e uma espécie de projeção sentimental.

Quanto ao sentimento, nós conseguimos (e gostamos) de pensar que qualquer animal gosta de nós como nós gostamos deles. Que eles sentem muito a nossa falta quando não estamos, e que ficarão arrasados com a nossa morte. Pelo que eu sei, a maioria dos animais está cagando e andando (alguns literalmente) para seu dono. Acredito realmente, não só pela experiência (na qual obviamente sou parcial) com meus cachorros, mas também com histórias que ouço sobre cachorros dos outros, que alguns animais criam, sim, certos laços. Todos sabemos de fatos "bonitinhos" como o de que cães-guias muitas vezes vivem vários anos acima da média, para acompanhar seus donos, e muitas histórias de fidelidade canina que trouxeram ao cachorro a sua fama de melhor amigo do homem. Já ouvi histórias de alguns exemplares fiéis de uma ou outra espécie.

O problema é que nós os vemos com olhos "humanos", ou seja, atribuímos aos outros animais sentimentos similares aos nossos, quando mesmo aqueles que tem sentimentos, dificilmente tem sentimentos exatamente como os nossos - para o bem ou para o mal (não consigo imaginar um humano tão fiel quanto um cachorro, por exemplo). O fato de que cachorros entram em uma espécie de "depressão canina" (de que não sei ao certo as características clínicas), e tem alguns sentimentos similares aos nossos trouxeram na bagagem terapeutas, banhos à base de vinho e psicólogos para animais - e todas essas coisas podem ser encontradas com relativa facilidade em cidades de porte médio e grande no Brasil. É sabido que, após um certo período de desenvolvimento, ao atingir uma certa estabilidade econômica e conseguir se manter no que diz respeito ao "essencial", o homem médio da sociedade capitalista começa a gastar com bobagens. Não falo especificamente do caso dos animais, mas tenho certeza de que todos os leitores desse texto conseguem enxergar alguma "bobagem" de onde estão sentados. O que quero dizer é que, enquanto você não consegue pagar um aluguel, e o dinheiro aperta pra comprar comida, se você tem um cachorro, ele muitas vezes vai viver de restos, tomar banhos infrequentes ou dados com produtos destinados para humanos e/ou inadequados. Ainda que, com certeza, cuidados, atenção e carinho seja o principal que se pode dar a um animal, e sejam, na minha opinião, muito mais importantes que dar a melhor ração e nenhuma atenção, pagar a um veterinário, comprar uma ração de boa qualidade, comprar os produtos que eliminam pulgas e carrapatos, etc., custa dinheiro. Daí a ascenção recente dos Pet Shops e tratamentos, digamos, exagerados, para animais: o país atingiu um estado de evolução econômica em que mais pessoas podem gastar com isso. Os animais estão sendo mais bem tratados. Claro que quem não tem o dinheiro pra isso, em geral, simplesmente não vai ter um cachorro, e vai no máximo jogar um resto de comida pra algum que viva pelas ruas da vizinhança.

Para muitas pessoas os cachorros passam despercebidos nas ruas. Eles são tratados aproximadamente da mesma maneira que os moradores de rua. A diferença é que, nesse caso, as pesoas pagam um pedaço de comida jogado ao chão para a sensação de constrangimento ir embora, quando isso.

Mas quero falar das outras pessoas, as que veem um cachorro na rua e sentem pena. Aqui muitas vezes se manifesta um outro sentimento comum ao modo como se vê, geralmente, o mendigo (e que, no caso dele, provavelmente configura preconceito): algumas pessoas julgam que o animal, por ser de rua, pode ter alguma doença tansmissível ao toque. Claro que, pra começo de conversa, caso isso seja verdade, o fato de que somos espécies diferents faz com que não haja um número lá muito elevado de doenças que o cachorro pode ter que possamos pegar. De qualquer modo, existe o nojo. A pessoa não fala nada, mas não encosta no cachorro, e nem na mão do mendigo. Ainda, existe o medo da violência, e da mordida.

Mas estranha, estranhamente, é mais comum que a pessoa ajude ao cachorro.

Aqui eu tenho que mencionar o tópico do início dessa sessão, a respeito de uma "superioridade absoluta como espécie". Eu mencionei isso porque, teoricamente, cada espécie cuida dos seus. Claro, o ecossistema funciona de modo a que (quase) nada acabe ou se multiplique excessivamente. Ainda temos que ver como isso vai funcionar com os humanos¹,  mas em geral a colaboração trans-espécie é coisa rara.  Antes que o ser humano se tornasse o dono do mundo, me parece provável que animais mais fracos fossem comida e mais fortes predadores. E só. Pelo menos até a descoberta de meios para deixar a todos eles mais fracos, e a subsequente superioridade. Daí, depois de algum tempo, e da projeção de sentimentos, acabamos pegando alguns animaizinhos pra criar. Provavelmente estou errado, mas foi a única hipótese que consegui imaginar para explicar o porquê de nos darmos a tanto trabalho para proteger criaturas de outras espécies. Talvez seja a nossa consciência, quiçá natural, da importância do ecossistema, superada apenas pela cobiça de conseguir peles raras.


***

Uma vez eu li, em algum lugar, uma frase que dizia algo como: "Quem nunca chegou em casa e encontrou um cachorro esperando nunca viu a felicidade legítima." Talvez seja verdade. Cachorros realmente parecem imensuravelmente felizes quando veem seu dono depois de um certo tempo. Dependendo do cachorro, pode ser trinta segundos. Não estou dizendo que eles não fiquem realmente felizes, estou dizendo que eu não sei. Não tenho como saber. Acredito que fiquem, na medida em que possa ser parecida a nossa sensação de felicidade àquilo que eles expressam que se parece com ela.

O que me lembra de dizer uma coisa: esse texto não é de forma alguma uma crítica do cuidado a animais de estimação. Acho que a maioria deles são criaturas urbanas cuja existência dentro das cidades é em grande parte culpa das pessoas que construíram as cidades (quem são elas, mesmo?). Sempre fui curioso a respeito do processo de evolução que levou ao surgimento dos animais "urbanos", cachorros, gatos, pombos... como se deu a adaptação do comportamento deles, desde o ambiente selvagem? Deve ser interessante. Mas de qualquer modo, pode-se argumentar que nós somos os responsáveis por esses animais porque nós os criamos, de certa maneira. Nós os tornamos o que são hoje, e os deixamos num ambiente que se pode chamar de inóspito.

Mas afinal, é graças, também, a criações nossas, especialmente no que diz respeito a governos e sistemas de, micro ou macro, que há pedintes nas ruas, e não sentimos a necessidade de ajudá-los. Enxergamos essa pessoa dentro de uma ótica capitalista, e olha que eu não digo isso como um absoluto anti-capitalismo. Acredito na possibildade da existência de um capitalismo não-cruel, do qual estamos muito, Muito longe. Nossa mentalidade está inserida no sistema em que estamos como uma luva. Há uma quantidade inefável de razões que levam uma pessoa a cair em absoluta miséria, como mencionei no início do texto. Mas nós vivemos num mundo do "Quem é brasileiro não desiste nunca", do "Quem espera sempre alcança". Nós fomos criados pra acreditar que basta ter vontade, basta correr atrás que se consegue qualquer coisa, uma espécie de meritocracia, e portanto, essas pessoas que precisam pedir para comprar sequer um pão são fracos, desertores, desonrosos desistentes - inferiores. Nós não temos que ajudá-los, mas sim, eles tem que se virar. Nós achamos que eles perderam ou desistiram a luta, mas em nossa situação não conseguimos sequer imaginar que há estados psicológicos em que a pessoa não consegue sequer perceber a existência da possibilidade da luta, quanto mais enfrentá-la. Uma enfermeira que conheço me disse que, segundo algumas pesquisas, a grande maioria dos moradores de rua tem algum problema psicológico - tenho certeza de que, quando esse problema não foi intensificado pelo tratamento que eles recebem, foi causado por ele. Me lembro de um trecho de um livro de que gosto muito em que um homem, graças a uma aposta, se veste de pedinte, à entrada de um metrô, e pede não dinheiro, mas apenas um aperto de mão. Os passantes, que ao receberem esse pedido e perceberem que jamais vão apertar àquela mão suja, sentem-se ainda mais constrangidos que o normal, e como resultado o homem recebe uma quantia relativamente alta de dinheiro, e até mesmo começa a ser imitado por outros mendigos que veem o sucesso da abordagem. Depois de mais de um ano ele recebe um aperto de mão, de um jovem que, por ser deficiente, não tinha o mesmo preconceito dos outros passantes.

É fácil sentirmos pena de alguém que está com alguma condição física, alguma doença. Conseguimos nos colocar no lugar daquela pessoa, perceber seu sofrimento ainda que de maneira distante, ao pensarmos no que nós mesmos já sentimos no passado - ferimentos, dores, vômitos, etc. Problemas sociais - como o preconceito, que, talvez, em suas diversas formas (sócio-econômico, racial, de gênero, preferência sexual, reticências, reticências...) seja o pior deles, são muitas vezes ignorados porque envolvem uma série de fatores históricos e, não infrequentemente, passam completamente despercebidos por aqueles que não os sofrem. É tecnicamente impossível, para alguém que não sofre preconceito, imaginá-lo, ou colocar-se no lugar de quem o sofreu durante uma vida. E o preconceito é certamente um dos obstáculos que um pedinte teria que enfrentar caso conseguisse e quisesse lutar. Ressalto, inclusive, aqui, que não estou dizendo que a pessoa não luta - ela luta e permanece viva, através de uma luta intensa, e à sua maneira; não luta no sentido que aqueles que a observam de outra perspectiva entendem a luta - o de correr atrás de algo que a coloque num patamar financeiro mais alto. Moradores de rua enfrentam, muitas vezes, ainda outro obstáculo difícil de perceber, ou mesmo invisível àqueles que não o sofrem: psicológico. David Foster Wallace, escritor de Infinite Jest (e do texto que venho traduzindo no blog), se suicidou em 2008, e passou por problemas relativos à depressão por boa parte de sua vida, e portanto, acho justo supor que sua descrição do problema nas páginas do Infinite Jest seja acurada, e por isso traduzo aqui um trecho:

"O autoritário termo depressão psicótica faz com que Kate Gompert se sinta especialmente solitária. Especialmente a parte do psicótica. Imagine o seguinte. Duas pessoas estão gritando de dor. Uma delas está sendo torturada com uma corrente elétrica. A outra não. Os gritos da que está sendo torturada com uma corrente elétrica não são psicóticos: eles são apropriados à circunstância. A pessoa que grita mas não está sendo torturada, contudo, é psicótica, uma vez que os outros, responsáveis por fazer o diagnóstico, não podem ver nenhum eletrodo ou amperagem mensurável. Uma das coisas menos agradáveis a respeito de se ser psicoticamente deprimido em uma ala repleta de pacientes psicoticamente deprimidos é perceber que nenhum deles é psicótico, que seus gritos são inteiramente apropriados a certas circunstâncias que têm como parte de seu charme o fato de que são indetectáveis por qualquer outra pessoa. Daí a solidão: é um circuito fechado: a corrente é tanto aplicada quanto recebida por dentro.

O assim-chamado 'psicoticamente depressivo' que tenta se matar não o faz graças a, entre aspas, 'desespero' ou a alguma convicção abstrata de que os prós e contras da vida não são justos. E certamente não o faz porque repentinamente a morte parece lhe mais atraente. A pessoa em quem a agonia invisível Daquilo atinge um nível insuportável se matará da mesma maneira como uma pessoa sem saída saltará pela janela de um arranha-céus em chamas. Não se engane a respeito de pessoas que saltam de janelas em chamas. O terror de cair de uma grande altura ainda é tão grande quanto seria se você ou eu estivéssemos especulativamente parados frente à mesma janela olhando a vista; i.e., o medo da queda permanece constante. A variável aqui é o outro terror, as chamas do fogo: quando as chamas se aproximam o suficiente, uma queda fatal se torna o ligeiramente menos terrível de dois terrores. Não é desejar a queda; é o terror das chamas. E ainda, ninguém nas calçadas, olhando para cima e gritando 'Não!' e 'Se segure!', consegue entender o salto. Não realmente. Você teria que ser pessoalmente aprisionado e sentir as chamas para compreender um terror muito maior que o da queda."

Como qualquer um de nós pode se supor capaz de sequer começar a compreender a perspectiva de uma pessoa com problemas psicológicos graves? Talvez o melhor seja justamente perceber que somos absolutamente incapazes de fazê-lo, e agir de acordo. Aceitar. Se possível, ajudar.

Claro que não estou sugerindo que se leve o pedinte pra casa e se cuide dele, mas apenas refletindo sobre o fato de que muitas pessoas tendem a ajudar e sentir menos compaixão por outros seres humanos que por cachorros por inconscientemente considerá-los culpados por todos os problemas pelos quais estão passando. É difícil perceber que a culpa é de todos os que aceitam estarem inseridos num sistema que permite que isso aconteça. É difícil perceber que em muitos casos, a pessoa que criticamos pode ser, e muitas vezes realmente é, simplesmente incapaz de fazer algo a respeito de sua situação.

***

Este último trecho do texto fala realmente de cachorros. Eles (ou qualquer outro animal de estimação, especialmente os adotados) funcionam como uma forma de suavizador da consciência. Eu tirei esse bichinho das ruas e cuido dele. É como se eu tivesse feito algo social importante - e realmente, eu acredito, é algo importante - ainda que os diversos cachorros espalhados pelas ruas sejam resultado, até certo ponto, dos mesmos problemas sociais mencionados acima, dos quais fazemos parte. Ainda, o cachorro é indefeso.

Ajudar a um cachorro é muito mais simples porque suas necessidades são mais simples. Basta dar-lhe comida (muitas vezes barata e em pouca quantidade - mesmo restos) e um lugar onde viver, que não precisa atender a muitas especificidades. Cachorros, afinal, muitas vezes preferem dormir no chão, mesmo. E pronto, já me sinto melhor. 

Além disso, tenho agora uma criaturinha que me recebe à porta de casa com tamanha alegria que me faz até me sentir melhor. Chego cansado do trabalho, e sou recebido com saltos e lambidas - o que, dependendo de quem eu sou, pode me irritar. Mas esses pulos, essa alegria, são dados por uma criatura que não exige nada de mim, de quem eu não preciso ter qualquer tipo de vergonha, que não vai em hipótese alguma me tratar com qualquer espécie de preconceito, não vai me cobrar ou me tratar mal mesmo que hoje eu tenha me esquecido de colocar ração pra ela na parte da manhã.²

O cachorro acompanha a quem lhe dá carinho e alimenta, e sua conhecida fidelidade parece ser devotada a essa pessoa. Mais; mesmo que uma pessoa não seja especificamente quem o alimenta ou faça carinho, mas seja companhia frequente na vida do animal, ele muitas vezes a defenderá, o que eu mesmo já testemunhei. Óbvio, depende do cachorro, e da pessoa. Mas creio que em geral é assim que acontece. 

Uma criatura que depende de você completamente, que tem como (pelo menos aparentemente) melhores momentos do dia aqueles em que você está com ela, que não te julga e que te defende e adora cegamente. Como não gostar?

Além do quê essa criatura não tem como se virar³, ela precisa de você. Sem você ela viveria na rua, no frio, passaria fome. Como não ajudá-la?




1. Tenho algumas hipóteses-brincadeiras sobre isso de que provavelmente falarei em outro dia.

2. Claro, não estou falando de casos de abandono, ou da crueldade de deixar o animal dias sem comida, e sim de um esquecimento raro e remediável.

3. O número enorme de animais na rua, alguns de certa longevidade, claro, desmente isso; mas até certo ponto é assim que pensamos. A palavra "vida", no caso, acaba se referindo a uma vida sem tanto sofrimento.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Lenta evolução - Tradução de um trecho de "E Unibus Pluram" pré-revisão

O texto é de David Foster Wallace, tem algumas notas (princiapelmente relativas a referências) que eu ainda não coloquei, e MUITO maior que isso.

outras partes virão

começa na próxima palavra:

aja naturalmente

Escritores de ficção, como espécie, tendem a ser olhadores. Eles tendem a espreitar e a encarar. Eles são observadores natos. Eles são espectadores. Eles são aqueles no metrô cujo encarar diferente tem alguma coisa esquisita, de certa forma. Quase predatória. Isso é porque situações humanas são a comida dos escritores. Escritores de ficção assistem outros humanos mais ou menos como os curiosos diminuem a velocidade para ver acidentes de carro: sua ambição é se verem como testemunhas.

Mas escritores de ficção tendem ao mesmo tempo a serem horrivelmente auto-conscientes. Ao devotar muito tempo produtivo estudando de perto como as pessoas se parecem pra ele, escritores de ficção também passam muito tempo menos produtivo cogitando nervosamente a imagem que passam para as outras pessoas. Como eles aparecem, como são psercebidos, se a fralda da camisa não está balançando pra fora da braguilha, se pode ser que haja batom em seus dentes, se as pessoas a quem eles estão olhando podem de alguma forma considerá-los esquisitos, como espreitadores e olhadores.

O resultado disso é que a maioria dos escritores de ficção, assistidores natos, tendem a ser objetos da atenção de outras pessoas com desgosto. Desgostam de serem assistidos. As exceções a essa regra – Mailer, Mcnelnerney – algumas vezes criam a impressão de que a maioria dos tipos beletristas cobiçam a atração dos outros. A maioria não. Os poucos que gostam de atenção naturalmente a conseguem. Nós outros assistimos.

A maior parte dos escritores de ficção que conheço são americanos abaixo dos 40. Eu não sei se escritores de ficção abaixo dos 40 assistem mais televisão que qualquer outra espécie americana. Estatísticas reportam que se assiste mais de seis horas por dia de televisão na casa de família americana média. Eu não conheço nenhum escritor de ficção que viva em uma casa de família americana média. Imagino que talvez Louse Erdrich viva. Na verdade eu nunca vi uma casa de família americana média. Exceto na TV.

Imediatamente, você pode ver algumas coisas que parecem potencialmente ótimas, para a escritores de ficção nos E.U.A. a respeito da televisão. Primeiro, a televisão faz muito de nossa pesquisa predatória humana pra nós. O ser humano americano é um grupo escorregadio e proteico, infernalmente difícil de de considerar de um modo geral. Mas a televisão considera exatamente esse problema. É uma definição incrível do genérico. Se quisermos saber o que a normalidade americana é – i.e. O que os americanos querem considerar normal – podemos confiar na televisão. Pois a raison da televisão é refletir aquilo que as pessoas querem ver. Ela é um espelho. Não o espelho Stendhaliano que reflete o céu azul e a poça de lama. É mais como o espelho do banheiro extra-iluminado em que o adolescente monitora seu bíceps e determina qual é o seu melhor perfil. Esse tipo de janela para a nervosa percepção dos americanos de si mesmos é simplesmente inestimável para a escrita da ficção. E escritores podem ter fé na televisão. Tem muito dinheiro em jogo, afinal; e a televisão é dona dos melhores demógrafos que a ciência social aplicada tem a oferecer, e esses pesquisadores podem determinar precisamente o que americanos nos anos 1990s são, querem, veem – como nós, como Audiência queremos ver a nós mesmos. Televisão, da superfície abaixo, é sobre desejo. E, em termos de ficção, desejo é o açúcar na comida humana.

A segunda coisa que parece ótima é que a televisão parece ser um presente absoluto de Deus para uma subespécie humana que ama assistir pessoas mas detesta que pessoas a assistam. Pois a tela da televisão permite o acesso somente em um sentido. A válvula de uma bola de cristal mística. Nós vemos a Eles; Eles não veem a Nós. Nós podemos relaxar, invisíveis, enquanto olhamos. Eu acredito que é por isso que a televisão também atrai tanto pessoas solitárias. Reclusos voluntários. Todo humano solitário que eu conheço assiste muito mais que a média americana de seis horas por dia. O solitário, assim como o fictício, ama o assistir monodirecional. Pois pessoais solitárias normalmente não são solitárias graças a alguma deformidade horrível ou fedor ou insuportabilidade – na verdade existem grupos sociais e de apoio a pessoas com precisamente esses atributos. Pessoas solitárias tendem, ao invés, a serem solitárias porque decidem não ter que suportar os custos psíquicos de se estar ao redor de outros humanos. Eles são alérgicos a pessoas. Pessoas os afetam muito intensamente. Vamos chamar a pessoa solitária média americana de João Gravata. João Gravata teme e odeia a tensão que parece afligi-lo só quando outros seres humanos estão a seu redor, encarando, as antenas de seus sentidos humanos eretas. João G. receia o modo como aparece, é percebido por, quem o assiste. Ele escolhe se sentar fora do enormemente estressante jogo de poker das aparências dos E.U.A.

Mas pessoas solitárias, em casa, sozinhas, ainda anseiam por vistas e cenas, companhia. Daí a televisão. João pode vê-Los na tela; Eles permanecem cegos a João. É quase como voyeurismo. Eu conheço pessoas que consideram a televisão um verdadeiro deus ex machina para voyeurs. E muitas das críticas, as críticas realmente raivosas menos colocadas que jogadas tanto nas redes de televisão quanto nas propagadas e audiências, tem a ver com a acusação de que a televisão nos transformou numa nação de voyeurs transpirantes e boquiabertos. Essa acusação no fim das contas é falsa, mas ela é falsa por razões interessantes.
O que o voyeurismo clássico é é espião, i.e. assistir a pessoas que não sabem que você está lá conforme essas pessoas seguem fazendo as pequenas atividades mundanas mas eroticamente carregadas da vida privada. É interessante que muito do voyeurismo clássico passe por alguma forma de vidro moldado – janelas, telescópios,etc. Talvez a analogia com a televisão seja tão interessante graças ao vidro moldado. Mas assistir televisão é diferente de verdadeiramente dar uma espiada. Porque as pessoas que estamos assistindo através do vidro moldado da tela da TV não são realmente ignorantes do fato de que alguém as está assistindo. Na realidade, muitos alguéns. Na realidade as pessoas na televisão sabem que é em virtude dessa verdadeiramente gigantesca platéia de alguéns olhadores que eles estão na tela se envolvendo em gestos completamente, amplamente não-mundanos. A televisão não permite espiar de verdade porque a televisão é performance, espetáculo, que por definição requer quem o assista. Aqui não somos de forma alguma voyeurs, Somos apenas espectadores. Nós somos a audiência, megametricamente muitos, ainda que a maioria de nós assista sozinho. E Unibus Pluram.

Uma das razões pelas quais escritores parecem esquisitos em pessoa é que por vocação eles são mesmo voyeurs. Eles precisam desse roubo visual direto que é assistir a alguém que não preparou um eu especialmente assistível. A única ilusão na verdadeira espionagem voyeur é sofrida pelo voyee, que não sabe que está passando imagens ou impressões. Um problema a respeito de tantos de nós ficcionistas com menos de 40 usarmos a ficção como um substituto para a espionagem verdadeira, contudo, é que o “voyeurismo” televisivo envolve toda uma orgia de belíssimas ilusões para o pseudo-espião, quando ele assiste. A ilusão (1) é que nós não somos voyeurs aqui de modo algum: os “voyees”do outro lado do vidro estão apenas fingindo não saber. Eles sabem perfeitamente bem que estamos aqui fora. E o fato de que estamos aqui fora também está fundo na mente daqueles que estão atrás da segunda camada do de vidro, v. as lentes e monitores através dos quais técnicos e arrumadores propelem as imagens visíveis a nós com enorme genialidade. O que vemos está longe de ser roubado; é proferido – ilusão (2). E, ilusão (3), o que estamos vendo através das janelas moldadas não são pessoas em situações reais que fazem ou mesmo que poderiam continuar sem a consciência de uma Audiência. I.e., aquela realidade em que os jovens escritores estão procurando por dados para ficcionalizar, já é composta de personagens ficcionais em narrativas altamente formalizadas. E, (4), nós não estamos nem realmente vendo “personagens”: aquele não é o Major Frank Burns, o patético idiota-presunçoso de Fort Wayne, Indiana; é Larry Linville de Ojai, California, ator estoico o suficiente para sobreviver a milhares de cartas (que continuam chegando, mesmo em sindicância) de pseudo-voyeurs ralhando com ele por ser um idiota de Indiana. E também (5) no fim das contas não são nem mesmo atores que estamos espiando, nem mesmo pessoas: são ondas analógicas propelidas por EM e redes de íons e reações químicas no fundo da tela arremessando fosfenos em grades de pontos não muito mais vivos que os comentários Impressionistas do próprio Seurat sobre a ilusão perceptual. Meu Deus e (6) os pontos estão saindo de um móvel, na verdade nós só estamos espiando um de nossos próprios móveis, e nossas próprias cadeiras e lâmpadas e lombadas de livros permanecem visíveis mas não vistas à margem de nosso olhar conforme contemplamos a “Coréia” ou somos levados “ao vivo para Jerusalém” ou encaramos as cadeiras almofadadas e as lombadas de livros classudos da “casa” dos Huxtable como indicações ilusórias de que este é algum interior doméstico cuja membrana tenhamos (furtivamente, despercebidos) violado – (7) e (8) e ilusões ad inf.

Não que essas realidades sobre atores e fosfenos e móveis sejam desconhecidas para nós. Nós escolhemos ignorá-las. Elas são partes da descrença que suspendemos. Mas é um peso absurdamente grande para se segurar seis horas por dia; ilusões de voyeurismo e acesso privilegiado requerem uma cumplicidade profunda do telespectador. Como podemos ter nos tornado tão acessíveis à ilusão de que as pessoas na televisão não sabem que estão sendo assistidas, à fantasia de que estamos de alguma maneira transcendendo sua privacidade e nos alimentando de mentes inconscientes do outro? Podem existir inúmeras razões porque essas irrealidades são tão engolíveis, mas uma das grandes é a de que os artistas atrás do vidro são – levando em consideração variados graus de talento dramático – gênios absolutos em parecer não estar sendo assistidos. Não se engane – parecer não estar sendo assistido em frente a uma câmera é uma arte. Dê uma olhada em como os não profissionais agem quando alguém aponta uma câmera de TV pra eles: muitas vezes eles se desastram, ou endurecem, congelados pela consciência de si mesmos. Mesmo pessoas das RP e políticos são, em termos de aparecer na câmera, amadores. E nós amamos rir do modo como os não profissionais aparecem na televisão, rígido e fingido. Quão não natural.

Mas se você, mesmo que apenas uma vez, já foi o objeto daquele terrível olho arredondado e vazio, você sabe muito bem o quão congelantemente auto-consciente ele te faz sentir. Um cara cabeludo com fones de ouvido e uma prancheta te diz pra “agir naturalmente” conforme seu rosto começa a andar pelo seu crânio, lutando por uma expressão de não-estar-sendo-assistido que parece completamente impossível porquê “parecer não assistido” é, assim como “aja naturalmente”, oximorônico. Tente acertar uma bola de golfe com toda a força depois que alguém te pergunta se você inspira ou expira o ar durante o movimento do taco, ou receber a promessa de recompensas magníficas se você conseguir passar dez segundos sem pensar num rinoceronte verde, e você terá alguma ideia das contorções verdadeiramente heroicas de corpo e mente que são necessárias para que um David Duchovny ou Don Johnson atue não-assistido enquanto é assistido por uma lente que é um emblema esmagador do que Emerson, anos antes da TV, chamou de “o olhar de milhões”.

Para Emerson, somente uma certa espécie muito rara de pessoa é adequada para suportar esse olhar de milhões. Não é a espécie normal, trabalhadora, silenciosamente desesperada de americanos. O homem que consegue suportar esse mega olhar é um imago ambulante, um certo tipo de semi-humano transcendente que, na frase de Emerson, “carrega o feriado em seus olhos”. O feriado Emersoniano que os atores televisivos carregam em seus olhos é a promessa de férias da auto-consciência humana. Não se preocupar a respeito de como você é percebido. Uma não-alergia total a olhares. Isso é contemporaneamente heroico. É assustador e forte. É também, é claro, atuação, porque você precisa ser anormalmente auto-consciente e auto-controlado para parecer não estar sendo assistido diante de câmeras e lentes e homens com pranchetas. Essa aparência auto-consciente de a-auto-consciência é a verdadeira porta da sala-de-espelhos das ilusões da TV, e para nós, a audiência, é ao mesmo tempo remédio e veneno.

 Porque nós encaramos essas pessoas raras, altamente treinadas, que aparentemente não estão sendo assistidas, por seis horas diariamente. E nós amamos essas pessoas. Em termos de atribuir a elas características verdadeiramente supranaturais e desejar emulá-las, é justo dizer que nós meio que as idolatramos. No mundo real de João Gravata – mundo que muda cada vez mais assustadoramente de alguma comunidade de relacionamentos para redes de estranhos conectados por interesse próprio e tecnologia, as pessoas que espiamos na TV nos oferecem familiaridade, comunidade. Amizade íntima. Mas nós dividimos o que vemos. Os personagens podem ser nossos “amigos próximos”, mas os atores são mais que estranhos: eles são imagos, semideuses, e se movem numa esfera diferente, saem e se casam apenas uns com os outros, parecem, mesmo como atores, acessíveis à Audiência somente através da mediação dos tabloides, talk shows, sinais de EM. E ainda assim tanto atores quanto personagens, tão terrivelmente distantes e filtrados, parecem tão terrivelmente, gloriosamente naturais quando nós os assistimos.

Dado o quanto assistimos e o que assistir quer dizer, é inevitável, para aqueles de nós que são ficcionistas ou para os Joões Gravata que acreditam que somos voyeurs, ter na cabeça a ideia de que essas pessoas atrás do vidro – pessoas que são frequentemente as mais coloridas, animadas, vivas na nossa experiência diária – são também pessoas que são ignorantes do fato de que estão sendo assistidas. Essa ilusão é tóxica. É tóxica para pessoas solitárias porque levanta um ciclo alienador (v. “Porque EU não posso ser assim?”, etc.), e é tóxica para escritores porque nos leva a confundir a pesquisa para a ficção com um tipo esquisito de consumo de ficção. A supersensibilidade de pessoas auto-conscientes quanto a seres humanos reais tende a colocá-las diante da janela monodirecional da televisão numa atitude de recepção totalmente relaxada, arrebatados. Nós assistimos a diversos atores atuando como vários personagens, etc. Por 360 minutos per diem, nós recebemos inconscientemente suporte à ideia de que a característica mais atraente de pessoas verdadeiramente vivas é sua assistibilidade, e que o valor humano genuíno não é simplesmente idêntico, mas enraizado no fenômeno do assistir. Além disso, a ideia de que a maior parte da verdadeira assistibilidade é a capacidade de parecer inconsciente de que se está sendo assistido de qualquer forma. Agir naturalmente. As pessoas que nós, jovens escritores de ficção e reclusos selecionados estudamos, por quem sentimos, e em quem sentimos são intencionalmente, por virtude de um gênio de simulada a-auto-consciência, adequadas para resistirem ao olhar das pessoas. E nós, tentando desesperadamente parecermos indiferentes, transpiramos estranhamente no metrô.