sexta-feira, 29 de março de 2013

A prática dos contornos e retornos

Acabo de conferir. A última postagem nesse blog é de 14 de abril de 2012, há pouco menos de um ano.

Não sei se posso dizer com todo o pulmão que senti muita falta de escrever no blog. A sensação é a de estar sendo observado por um vidro conforme escrevo, ainda que, me desculpem, possíveis leitores, o julgamento de vocês não amedronte.

Só recentemente vim a considerar a escrita aqui como uma possibildade de exercício, uma abertura a brincadeiras narrativas e what not. 


O que trouxe essas ideias foi um artigo (de revista) do David Foster Wallace chamado "Authority and American usage", que estou lendo para a elaboração de um artigo (acadêmico). O texto dele é muito interessante e é curioso como a obra não-ficcional¹ dele pode ser uma janela para a obra ficcional.


Nesse caso, o narrador é um "SNOOT", sigla que significaria algo como "Chatos da gramática da nossa época" (exceto que um SNOOT escreveria essa frase corretamente - e esta). Esse narrador é uma persona obviamente muuuuuito irônica do próprio Wallace, que mistura elementos autobiográficos e escreve do ponto de vista de um "Grammar Nazi" do tipo que quando vê o quanto seus alunos não sabem de gramática, "espuma".

A partir disso eu reparei em como essa ideia de imaginar um narrador específico por trás do texto pra poder selecionar à vontade um tom de subjetividade (que seria similar à despersonalização dramática do Shakespeare, e consequentemente à ideia dos heterônimos do Pessoa) pode ajudar a entender parte da obra mais ficcional do próprio Wallace.

A gente pode imaginar que a criatividade, variedade de técnicas, estilo, e mesmo as brincadeiras que ele faz ao longo desses ensaios e textos mais "sérios" funcionam, no fim, quer intencionalmente quer não, como práticas para a produção literária do cara.

Isso dito, eu pensei no potencial que a escrita no blog pode ter, mais ou menos no mesmo sentido. Ando tendo dias cheios e imagino que uma escrita "descompromissada" "desabafante" ocasional possa ajudar a relaxar também. Mas pode ser, talvez possa ser ainda mais, que o cansaço me faça desanimar, como já fez antes, de continuar escrevendo coisas por aqui.

Caso eu realmente vá continuar, devo mudar o nome do blog. Considerem isso um sinal.



1. Não tenho certeza de que mesmo os artigos em revista e ensaios de Wallace podem ser chamados de não-ficcionais. As características desse artigo que eu menciono ao longo desse post devem deixar claro o porquê.

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