domingo, 10 de abril de 2011

Propensão à esquizofrenia

Ultimamente, sempre que vejo uma mensagem marcada como "importante", tento evitá-la; na maioria dos casos, a mensagem é simplesmente uma compilação de mentiras ou idiotices que se espalharam pela net: a "Crendice 2.0"

A mais recente que recebi foi um email falando sobre o estado de Roraima, e sobre a dominação americana da Amazônia (e até da Colombia, do infinito e além).

O início do email já indicou seu tipo de conteúdo, ao dizer que a cada 10 habitantes de Roraima, apenas 1 é nativo do estado, e só se vê japoneses, americanos, franceses... mas eu ainda encarei bravamente o restante do texto.

Posteriormente foi mencionado que não podemos explorar produtos nativos da região porque os americanos e japoneses já patentearam tudo (Só lembrando: não se pode patentear produtos naturais. eles são... naturais! não é uma invenção a ser patenteada. pra vender suco de laranja é preciso pagar royalties pra alguém? acho que não...).

O texto continuava jogando besteira atrás de besteira, e claro, não vou entrar no assunto da "dominação americana" na amazônia, mesmo porque tem gente que acredita piamente nela.
Queria apenas comentar sobre a ignorância (e nesse caso não quero dizer burrice) do pessoal que anda recebendo este email, e o repassando sem avaliá-lo antes.

Um email deste tipo vem, muitas vezes, com informações obviamente falsas ou duvidosas, e algumas vezes com erros de coerência no próprio texto, que nós simplesmente ignoramos. E afinal, ao receber um email com informações no mínimo polêmicas, o primeiro instinto é duvidar, certo? Não! O primeiro instinto é acreditar como um bobo. Depois, se houver algo além de instinto, se questiona. E é justamente esse questionamento, feito após a leitura atenta que leva a uma melhor compreensão do texto. A leitura desatenta seguida da passagem de emails, hoje em dia, é uma representação escrita de como as mentiras são transmitidas oralmente; alguém fala, outro alguém simplesmente acredita e sai contando por aí.

Somos condicionados a pensar "Ah, ele não mentiria desse jeito (para mim)" porque esta é, simplesmente, a "verdade" em que queremos acreditar. Que as pessoas não mentem para nós, o mundo é feliz e aquele moço dando balas para aquela criancinha tem um coração doce e circundado por borboletas de açucar cor de rosa; nós escolhemos acreditar no que nos dizem, porque é mais fácil fazê-lo que duvidar de tudo. Num processo similar ao que nos leva a passar ao lado de mendigos ignorando a realidade que os gera, e fazer comentários indiferentes sobre os assassinatos que formam o entretenimento de massa de nossa geração, a nossa mente foge à realidade, e cria um mundo lindo, onde as únicas vítimas de assassinatos, roubos, doenças e acidentes são os outros - e ainda, os desconhecidos, pois quais são as chances de que isso aconteça com nossos amigos? Nenhuma! Esse mundo em que vivemos se chama ignorância; se há algo que indica que o mundo não é tão bom quanto gostaríamos, deve ser ignorado.

Na maioria dos casos, afinal, a ignorância é voluntária; ou ao menos, a maior parte dela.

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