quinta-feira, 14 de abril de 2011

Fogo

Em mil novecentos e oitenta e sete, houve (ao menos é o que se ouve) uma série de incêndios em são paulo, a começar por um incêndio que atingiu um prédio famoso.

Não vou me lembrar em detalhes porque, na verdade, eu nunca soube essa história em detalhes, só li algumas coisas a respeito. O nome do prédio, por exemplo, agora me foge à memória. Sei que era um prédio no qual só havia empresas, e que o fogo se espalhou facilmente e ninguém se feriu porque o incêndio ocorreu no final de semana. Parece que alguns indícios apontavam pra um incêndio criminoso, mas alguns policiais interpretavam os mesmos indícios de forma diferente, afinal, às vezes uma palavra tem dois significados. O dono do edifício atingido, porém, era muito poderoso, o que foi suficiente para começar uma investigação mais aprofundada do caso. A grande maioria dos investigadores, a um ponto, já estava convencida de que tudo não passava de um acidente, mas o empresário fazia questão de que cada mínimo indício fosse analisado antes que a investigação fosse abandonada. Como resultado, inúmeros policiais foram, digamos assim, mantidos em atividades inúteis por meses, até chegar à inevitável conclusão. Algusn tablóides sensacionalistas, porém, descobriram, do modo mágico como esse povo descobre, vários detalhes sobre essa história, e começaram a alardear o desperdício do poder público, e sua manipulação pelas grandes empresas. Claro, como era um tablóide, não dava pra acreditar muito, mas sempre tem alguém que acredita. O que surpreendeu foi que, meses depois, outro incêndio, idêntico ao primeiro (fim de semana, no mesmo prédio), ocorreu. Os policiais correram para investigar e descobriram outra cena idêntica. O dono do edifício estava furioso. Na semana seguinte, outro edifício da mesma empresa foi vítima de um incêndio similar, e na outra, o terceiro edifício da empresa, que possuía apenas três naquela cidade. O presidente da companhia já estava em estado de stress intenso, e desde o segundo incêndio descontava cada vez mais a sua frustração nos policiais, que eram obrigados a aguentar calados. Até que, finalmente, eles não aguentaram mais. Mandaram o homem à merda, com sua empresa e o diabo que os carregasse. O presidente, surpreso, mal acreditando, tentou trazê-los de volta, mas havia abusado demais daqueles homens, que, afinal, já tinham ganhado uma pequena fortuna em subornos, e sabiam demais. Não sei se há alguma lição que podemos tirar daí. Os incêndios, certamente, especialmente ao se considerar a sua quantidade, foram criminosos. Talvez até, o primeiro tenha sido acidental, e os posteriores não; o criminoso pode ter sido alguém que se revoltou ao ler sobre a situação num tablóide, ou mesmo algum policial descontende. O fogo, aos poucos foi se espalhando, e tomando conta da situação por si mesmo. Até que ponto a sequência de acontecimentos foi vontade de alguém específico, porém, é difícil dizer. Só se sabe que a empresa sofreu muitas perdas, mas depois, consegui voltar a crescer, e hoje é uma das maiores do mundo.

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