sábado, 6 de março de 2010

Velhos



Numa segunda feira chuvosa, às duas da madrugada, até os ladrões estão dormindo numa cidade como a minha. Por que eles andariam quando não há quase ninguém andando pelas ruas? Só eu – e sem dinheiro. e o asfalto molhado e a chuva suave trazem todo tipo de reflexão – especialmente quando se está sozinho, e não se tem alguém para falar delas.


Por que essa idéia específica me surgiu eu não sei; acredito que, assim como memórias adormecidas podem ser despertas em nossa mente por um cheiro, um toque, ou um som, idéias e pensamentos podem surgir pelos mesmos motivos. também acredito em razões biológicas; talvez uma expansão ou movimento qualquer de células cerebrais possa se traduzir em pensamentos extremamente específicos; algo assim deve ter acontecido, já que não me lembro de nada que possa ser considerado uma razão para que esta idéia – da qual já começo a falar – tenha aparecido em minha mente. não era um assunto prévio, nada que pudesse remotamente remeter a esta idéia aconteceu; nenhum cheiro, gosto, ou sensação, e do processo de pensamento não me lembro; mas ainda assim, a idéia veio, e segue abaixo:


Me vi pensando em como a idade faz com que a vida fique curta. como o que já passou passou tão rápido, e o que não passou é tão pouco para quem já viveu muito, enquanto para o jovem, o que se passou pareceu tanto, e o tempo adiante ainda parece tão longo, e misterioso.


Não é difícil perceber que a grande maioria das pessoas não se preocupa muito com o futuro, - a probabilidade de que alguém se preocupe com o que virá, me parece, é proporcional às chances de que nada venha; de que não haja futuro. alguém prestes a morrer, dificilmente pensaria em outra coisa senão o futuro próximo; alguém de idade muito avançada vê o pensamento da morte aproximar-se sombriamente, como a própria. Um jovem sem razão para temer, porém, dificilmente pensa nisso. o que é, de certa forma, curioso, e me leva a pensar em mais algumas coisas.


Não é a consciência da inevitabilidade da morte que dá sentido à vida? um dos motivos pelos quais tentamos aproveitar ao máximo nossas vidas não é a constatação de que elas não são eternas? e será que, na juventude, não perdemos algo ao deixar de lado um pensamento tão importante? Não nos esquecemos de levar em conta o que deixaremos para trás um dia?


Pensei num exercício(não físico, claro) simples, embora ligeiramente incômodo: se pensar no futuro. e não falo de pensar se será rico, pobre, famoso, ou coisa do tipo; simplesmente se visualizar. Imagine sua aparência, ainda que superficialmente, aos 30, 40, 50, 80 anos (caso não tenham essa idade ainda). imagine-se numa cama de hospital, no seu último dia de vida, e que no momento derradeiro, uma pergunta enganadoramente simples passe pela sua cabeça: o que eu vivi todo esse tempo valeu a pena? e imagine a resposta à essa pergunta.


No fim, a coisa toda ficou um pouco mais auto-ajudística que eu esperava e queria, mas espero que compreendam que foi involuntário... e que eu, pessoalmente, acho esse tipo de pensamento mais assustador que qualquer outra coisa. Não vou discutir aqui a importância de realmente se fazer algo importante durante a vida, pois essa não é a questão – ao menos não aqui; se você acredita que deve curtir a vida ao máximo, pergunte-se então, se curtiu; se não desperdiçou oportunidades por medo, ou coisa assim. Cada ponto de vista pode propor uma pergunta, e no fim, provavelmente, poucos se orgulharão de sua resposta.


Talvez, afinal, esse texto não se pareça com auto-ajuda, mas ao contrário: com uma declaração e constatação de nossa grande mediocridade.

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