Hoje encontrei um cartão postal que uma amiga me enviou há um tempo.
Nem sei mais por quê; há algo nostálgico, ou romântico em cartas, e coisas assim. Mas não é sobre isso que quero falar. Não é sobre a amiga de quem me lembro com carinho, mas sobre aquela que esqueci.
Um dia, há tempos, levei esse cartão postal a algum lugar. Não sei se trabalho, faculdade, ou onde, mas o carregava – se me lembro, marcando um livro que lia. E encontrei essa moça, de quem não me lembro.
Algo subconsciente – uma lembrança que não consigo alcançar, talvez – me diz que ela era bonita, e me diz que eu sentia carinho por ela. Como uma palavra de que não nos lembramos, ela está só um pouco além; Mas a não ser que algo, alguém – um cheiro, um gesto, uma voz – a coloquem mais perto, não acho que voltará. No momento, tudo se resume a um pequeno desenho na beira do cartão postal.
Há algo de confuso nas memórias. Lembro-me vagamente de algumas coisas – características, frases, mas não dela. Acho que seus cabelos eram louros, embora não tenha certeza, e sei que, naquele dia, ela pediu pra ver o livro que eu lia, e o abriu na página marcada pelo postal. Lendo-o, exclamou “Que gracinha!” – e eu não pude conter um sorriso. Então, por algum impulso, ela pegou uma caneta e fez um gato – um desenho simples de criança – bem na beira do papel.
Eu sei de tudo isso mas não me lembro dela. Deitei-me hoje sem querer dormir, olhando para o ar, torcendo em segredo pra que alguma voz soasse, uma expressão fosse dita, ou algum cheiro me invadisse, mas nada aconteceu – e não sei tirar da mente aquela frase, e o desenho, aqueles símbolos tão marcados que parecem dizer que algo importante desapareceu, e já não há algo fundamental, que merecia existir. Mas a verdade é que essa pessoa, esse acontecimento, seja o que for, se perdeu, e depois de algumas horas, decidi pensar algo mais – assistir, ler ou ouvir – consciente de que ocasionalmente, as lembranças da frase, do desenho e de todo o dia vão também desaparecer, eliminando minha dúvida a respeito da menina que um dia, talvez abandone também meu inconsciente, de modo que nem o cheiro certo possa trazê-la à tona; e talvez um dia – a alguns anos daqui – eu encontre esses papéis, leia esse texto, e não me lembre do que escrevi, sentindo-me mais uma vez vazio, como se algo essencial houvesse desaparecido, e uma lembrança importante houvesse fugido ao meu alcance; como se parte da vida houvesse deixado de existir. Talvez esse seja o destino de todas as lembranças: como nós e o que há ao redor, um dia elas deixarão de existir; um dia serão esquecidas. E um dia, embora essa perda faça menor a vida, embora essa ausência empobreça a história – elas não serão choradas, e não haverá quem sinta essa falta; não haverá aquele vazio por perdê-las, mas apenas um exterior sem lembranças – seco, insensível.
Deserto de um modo que homem algum pode entender.
Dos conselhos
2 dias atrás
4 comentários:
Você relmente acha que um dia algumas lembranças deixarão de existir? É, algumas sim, mas aquelas marcantes, ou as que deveriam ser esquecidas, não deixam de exisitr. É o que eu acho pelo menos. Bom, li outros textos, bem legais, gostei, tá bem legal o blog. É isso, até qualquer dia! Aline =)
*apaguei o primeiro comentário, tonta!
ah, a coisa é que um dia nós mesmos deixaremos de existir... e nossas casas e mundos. e com isso, as lembranças.
elas não vão existir se não houver ninguém para se lembrar delas...
É verdade, concordo. Ponto pra você. =)
Postar um comentário