quarta-feira, 31 de março de 2010

Cartão postal

Hoje encontrei um cartão postal que uma amiga me enviou há um tempo.

Nem sei mais por quê; há algo nostálgico, ou romântico em cartas, e coisas assim. Mas não é sobre isso que quero falar. Não é sobre a amiga de quem me lembro com carinho, mas sobre aquela que esqueci.

Um dia, há tempos, levei esse cartão postal a algum lugar. Não sei se trabalho, faculdade, ou onde, mas o carregava – se me lembro, marcando um livro que lia. E encontrei essa moça, de quem não me lembro.

Algo subconsciente – uma lembrança que não consigo alcançar, talvez – me diz que ela era bonita, e me diz que eu sentia carinho por ela. Como uma palavra de que não nos lembramos, ela está só um pouco além; Mas a não ser que algo, alguém – um cheiro, um gesto, uma voz – a coloquem mais perto, não acho que voltará. No momento, tudo se resume a um pequeno desenho na beira do cartão postal.

Há algo de confuso nas memórias. Lembro-me vagamente de algumas coisas – características, frases, mas não dela. Acho que seus cabelos eram louros, embora não tenha certeza, e sei que, naquele dia, ela pediu pra ver o livro que eu lia, e o abriu na página marcada pelo postal. Lendo-o, exclamou “Que gracinha!” – e eu não pude conter um sorriso. Então, por algum impulso, ela pegou uma caneta e fez um gato – um desenho simples de criança – bem na beira do papel.

Eu sei de tudo isso mas não me lembro dela. Deitei-me hoje sem querer dormir, olhando para o ar, torcendo em segredo pra que alguma voz soasse, uma expressão fosse dita, ou algum cheiro me invadisse, mas nada aconteceu – e não sei tirar da mente aquela frase, e o desenho, aqueles símbolos tão marcados que parecem dizer que algo importante desapareceu, e já não há algo fundamental, que merecia existir. Mas a verdade é que essa pessoa, esse acontecimento, seja o que for, se perdeu, e depois de algumas horas, decidi pensar algo mais – assistir, ler ou ouvir – consciente de que ocasionalmente, as lembranças da frase, do desenho e de todo o dia vão também desaparecer, eliminando minha dúvida a respeito da menina que um dia, talvez abandone também meu inconsciente, de modo que nem o cheiro certo possa trazê-la à tona; e talvez um dia – a alguns anos daqui – eu encontre esses papéis, leia esse texto, e não me lembre do que escrevi, sentindo-me mais uma vez vazio, como se algo essencial houvesse desaparecido, e uma lembrança importante houvesse fugido ao meu alcance; como se parte da vida houvesse deixado de existir. Talvez esse seja o destino de todas as lembranças: como nós e o que há ao redor, um dia elas deixarão de existir; um dia serão esquecidas. E um dia, embora essa perda faça menor a vida, embora essa ausência empobreça a história – elas não serão choradas, e não haverá quem sinta essa falta; não haverá aquele vazio por perdê-las, mas apenas um exterior sem lembranças – seco, insensível.

Deserto de um modo que homem algum pode entender.

sábado, 20 de março de 2010

Os Hambúrgueres Galardão

Flora tentava se esconder.

Claro, dentro de um supermercado, às quatro horas da tarde, é uma tarefa difícil; e caso alguém perguntasse, de modo algum admitiria que não queria ser vista. mas era verdade. ao entrar em um corredor chocando-se com sua vizinha, porém, percebeu que não tivera muito sucesso em seu objetivo.

Elas se entreolharam com olhares surpresos e, involuntariamente, o olhar de ambas percorreu o trajeto rosto-sacola-rosto – e ambas notaram: as duas sacolas continham os famigerados Hambúrgueres Galardão que, segundo o jornal da segunda-feira, continham entre seus ingredientes uma modesta, porém impactante quantidade de serragem! Ainda assim, os Hambúrgueres Galardão guardavam uma característica que os colocavam em grande vantagem em relação a seus concorrentes: custavam apenas quinze centavos por unidade.

Um e cinquenta, incrivelmente, comprava 10 Hambúrgueres – que além de tudo, tinham um gostinho diferente que ninguém sabia exatamente como definir, mas já marcava um outro diferencial dos fabulosos Hambúrgueres Galardão, que há tempos, eram os mais vendidos. Depois da descoberta de que serragem fazia parte dos ingredientes daqueles incríveis hambúrgueres, “Eu”, todos disseram, “nunca mais volto a comprar Hambúrgueres Galardão!”, e talvez o pretendessem, se sentissem enganados ou algo do tipo.

Mas Flora, voltando da faculdade, à noite e com fome, não conseguiu segurar a lembrança do sabor dos Hambúrgueres Galardão. Contou as moedas que recebera de troco da menina do xérox, e descobriu que, com aqueles poucos trocados que não se dera ao trabalho de guardar na carteira, poderia comprar quatro hambúrgueres! “A serragem...”, disse a si mesma, mas não se ouviu; afinal, os Hambúrgueres Galardão eram quinze centavos!

Atravessou o corredor do supermercado com um certo ânimo, mas conforme se aproximava da seção dos congelados, hesitou; “O que alguém pensaria”, pensou, “ao me ver carregando Hambúrgueres Galardão? Que prefiro comer serragem a gastar um pouco mais? Que não me importo com minha saúde? Que minhas mãos não se abrem nem pra abanar frango? Como evitar que me vejam assim?”; com isso em mente, aproximou-se, o mais sorrateira de que era capaz, do local onde, ela já sabia de cor, ficavam os Hambúrgueres Galardão. agiu como se procurasse outra coisa; rodeou e ricocheteou para, depois do que parecia um grande sucesso, se surpreender com o aparecimento de sua vizinha!

Ela, porém, também carregava os Hambúrgueres Galardão – e ela tinha filhos, o que era pior. Como cúmplices, caminharam juntas e silenciosas até os caixas, onde Flora mal podia esperar para deixar as moedas que já, impaciente, carregava nas mãos desde que pegara os hambúrgueres.

Foi então que o fenômeno que mais surpreendeu às duas mulheres aconteceu: todos os cinco clientes que estavam nos caixas do supermercado tinham, entre os itens que compravam, os inesperados Hambúrgueres Galardão! Por um breve momento, os outros olharam para as recém-chegadas – e desviaram os olhos, tão rápido quanto haviam olhado.

Aliviados, e ainda mais embaraçados, todos se retiraram, vítimas de um acontecimento que seria futuramente, até mesmo alvo de estudos: os Hambúrgueres Galardão ainda eram os mais vendidos!

sábado, 6 de março de 2010

Velhos



Numa segunda feira chuvosa, às duas da madrugada, até os ladrões estão dormindo numa cidade como a minha. Por que eles andariam quando não há quase ninguém andando pelas ruas? Só eu – e sem dinheiro. e o asfalto molhado e a chuva suave trazem todo tipo de reflexão – especialmente quando se está sozinho, e não se tem alguém para falar delas.


Por que essa idéia específica me surgiu eu não sei; acredito que, assim como memórias adormecidas podem ser despertas em nossa mente por um cheiro, um toque, ou um som, idéias e pensamentos podem surgir pelos mesmos motivos. também acredito em razões biológicas; talvez uma expansão ou movimento qualquer de células cerebrais possa se traduzir em pensamentos extremamente específicos; algo assim deve ter acontecido, já que não me lembro de nada que possa ser considerado uma razão para que esta idéia – da qual já começo a falar – tenha aparecido em minha mente. não era um assunto prévio, nada que pudesse remotamente remeter a esta idéia aconteceu; nenhum cheiro, gosto, ou sensação, e do processo de pensamento não me lembro; mas ainda assim, a idéia veio, e segue abaixo:


Me vi pensando em como a idade faz com que a vida fique curta. como o que já passou passou tão rápido, e o que não passou é tão pouco para quem já viveu muito, enquanto para o jovem, o que se passou pareceu tanto, e o tempo adiante ainda parece tão longo, e misterioso.


Não é difícil perceber que a grande maioria das pessoas não se preocupa muito com o futuro, - a probabilidade de que alguém se preocupe com o que virá, me parece, é proporcional às chances de que nada venha; de que não haja futuro. alguém prestes a morrer, dificilmente pensaria em outra coisa senão o futuro próximo; alguém de idade muito avançada vê o pensamento da morte aproximar-se sombriamente, como a própria. Um jovem sem razão para temer, porém, dificilmente pensa nisso. o que é, de certa forma, curioso, e me leva a pensar em mais algumas coisas.


Não é a consciência da inevitabilidade da morte que dá sentido à vida? um dos motivos pelos quais tentamos aproveitar ao máximo nossas vidas não é a constatação de que elas não são eternas? e será que, na juventude, não perdemos algo ao deixar de lado um pensamento tão importante? Não nos esquecemos de levar em conta o que deixaremos para trás um dia?


Pensei num exercício(não físico, claro) simples, embora ligeiramente incômodo: se pensar no futuro. e não falo de pensar se será rico, pobre, famoso, ou coisa do tipo; simplesmente se visualizar. Imagine sua aparência, ainda que superficialmente, aos 30, 40, 50, 80 anos (caso não tenham essa idade ainda). imagine-se numa cama de hospital, no seu último dia de vida, e que no momento derradeiro, uma pergunta enganadoramente simples passe pela sua cabeça: o que eu vivi todo esse tempo valeu a pena? e imagine a resposta à essa pergunta.


No fim, a coisa toda ficou um pouco mais auto-ajudística que eu esperava e queria, mas espero que compreendam que foi involuntário... e que eu, pessoalmente, acho esse tipo de pensamento mais assustador que qualquer outra coisa. Não vou discutir aqui a importância de realmente se fazer algo importante durante a vida, pois essa não é a questão – ao menos não aqui; se você acredita que deve curtir a vida ao máximo, pergunte-se então, se curtiu; se não desperdiçou oportunidades por medo, ou coisa assim. Cada ponto de vista pode propor uma pergunta, e no fim, provavelmente, poucos se orgulharão de sua resposta.


Talvez, afinal, esse texto não se pareça com auto-ajuda, mas ao contrário: com uma declaração e constatação de nossa grande mediocridade.