quarta-feira, 31 de março de 2010

Cartão postal

Hoje encontrei um cartão postal que uma amiga me enviou há um tempo.

Nem sei mais por quê; há algo nostálgico, ou romântico em cartas, e coisas assim. Mas não é sobre isso que quero falar. Não é sobre a amiga de quem me lembro com carinho, mas sobre aquela que esqueci.

Um dia, há tempos, levei esse cartão postal a algum lugar. Não sei se trabalho, faculdade, ou onde, mas o carregava – se me lembro, marcando um livro que lia. E encontrei essa moça, de quem não me lembro.

Algo subconsciente – uma lembrança que não consigo alcançar, talvez – me diz que ela era bonita, e me diz que eu sentia carinho por ela. Como uma palavra de que não nos lembramos, ela está só um pouco além; Mas a não ser que algo, alguém – um cheiro, um gesto, uma voz – a coloquem mais perto, não acho que voltará. No momento, tudo se resume a um pequeno desenho na beira do cartão postal.

Há algo de confuso nas memórias. Lembro-me vagamente de algumas coisas – características, frases, mas não dela. Acho que seus cabelos eram louros, embora não tenha certeza, e sei que, naquele dia, ela pediu pra ver o livro que eu lia, e o abriu na página marcada pelo postal. Lendo-o, exclamou “Que gracinha!” – e eu não pude conter um sorriso. Então, por algum impulso, ela pegou uma caneta e fez um gato – um desenho simples de criança – bem na beira do papel.

Eu sei de tudo isso mas não me lembro dela. Deitei-me hoje sem querer dormir, olhando para o ar, torcendo em segredo pra que alguma voz soasse, uma expressão fosse dita, ou algum cheiro me invadisse, mas nada aconteceu – e não sei tirar da mente aquela frase, e o desenho, aqueles símbolos tão marcados que parecem dizer que algo importante desapareceu, e já não há algo fundamental, que merecia existir. Mas a verdade é que essa pessoa, esse acontecimento, seja o que for, se perdeu, e depois de algumas horas, decidi pensar algo mais – assistir, ler ou ouvir – consciente de que ocasionalmente, as lembranças da frase, do desenho e de todo o dia vão também desaparecer, eliminando minha dúvida a respeito da menina que um dia, talvez abandone também meu inconsciente, de modo que nem o cheiro certo possa trazê-la à tona; e talvez um dia – a alguns anos daqui – eu encontre esses papéis, leia esse texto, e não me lembre do que escrevi, sentindo-me mais uma vez vazio, como se algo essencial houvesse desaparecido, e uma lembrança importante houvesse fugido ao meu alcance; como se parte da vida houvesse deixado de existir. Talvez esse seja o destino de todas as lembranças: como nós e o que há ao redor, um dia elas deixarão de existir; um dia serão esquecidas. E um dia, embora essa perda faça menor a vida, embora essa ausência empobreça a história – elas não serão choradas, e não haverá quem sinta essa falta; não haverá aquele vazio por perdê-las, mas apenas um exterior sem lembranças – seco, insensível.

Deserto de um modo que homem algum pode entender.

sábado, 20 de março de 2010

Os Hambúrgueres Galardão

Flora tentava se esconder.

Claro, dentro de um supermercado, às quatro horas da tarde, é uma tarefa difícil; e caso alguém perguntasse, de modo algum admitiria que não queria ser vista. mas era verdade. ao entrar em um corredor chocando-se com sua vizinha, porém, percebeu que não tivera muito sucesso em seu objetivo.

Elas se entreolharam com olhares surpresos e, involuntariamente, o olhar de ambas percorreu o trajeto rosto-sacola-rosto – e ambas notaram: as duas sacolas continham os famigerados Hambúrgueres Galardão que, segundo o jornal da segunda-feira, continham entre seus ingredientes uma modesta, porém impactante quantidade de serragem! Ainda assim, os Hambúrgueres Galardão guardavam uma característica que os colocavam em grande vantagem em relação a seus concorrentes: custavam apenas quinze centavos por unidade.

Um e cinquenta, incrivelmente, comprava 10 Hambúrgueres – que além de tudo, tinham um gostinho diferente que ninguém sabia exatamente como definir, mas já marcava um outro diferencial dos fabulosos Hambúrgueres Galardão, que há tempos, eram os mais vendidos. Depois da descoberta de que serragem fazia parte dos ingredientes daqueles incríveis hambúrgueres, “Eu”, todos disseram, “nunca mais volto a comprar Hambúrgueres Galardão!”, e talvez o pretendessem, se sentissem enganados ou algo do tipo.

Mas Flora, voltando da faculdade, à noite e com fome, não conseguiu segurar a lembrança do sabor dos Hambúrgueres Galardão. Contou as moedas que recebera de troco da menina do xérox, e descobriu que, com aqueles poucos trocados que não se dera ao trabalho de guardar na carteira, poderia comprar quatro hambúrgueres! “A serragem...”, disse a si mesma, mas não se ouviu; afinal, os Hambúrgueres Galardão eram quinze centavos!

Atravessou o corredor do supermercado com um certo ânimo, mas conforme se aproximava da seção dos congelados, hesitou; “O que alguém pensaria”, pensou, “ao me ver carregando Hambúrgueres Galardão? Que prefiro comer serragem a gastar um pouco mais? Que não me importo com minha saúde? Que minhas mãos não se abrem nem pra abanar frango? Como evitar que me vejam assim?”; com isso em mente, aproximou-se, o mais sorrateira de que era capaz, do local onde, ela já sabia de cor, ficavam os Hambúrgueres Galardão. agiu como se procurasse outra coisa; rodeou e ricocheteou para, depois do que parecia um grande sucesso, se surpreender com o aparecimento de sua vizinha!

Ela, porém, também carregava os Hambúrgueres Galardão – e ela tinha filhos, o que era pior. Como cúmplices, caminharam juntas e silenciosas até os caixas, onde Flora mal podia esperar para deixar as moedas que já, impaciente, carregava nas mãos desde que pegara os hambúrgueres.

Foi então que o fenômeno que mais surpreendeu às duas mulheres aconteceu: todos os cinco clientes que estavam nos caixas do supermercado tinham, entre os itens que compravam, os inesperados Hambúrgueres Galardão! Por um breve momento, os outros olharam para as recém-chegadas – e desviaram os olhos, tão rápido quanto haviam olhado.

Aliviados, e ainda mais embaraçados, todos se retiraram, vítimas de um acontecimento que seria futuramente, até mesmo alvo de estudos: os Hambúrgueres Galardão ainda eram os mais vendidos!

sábado, 6 de março de 2010

Velhos



Numa segunda feira chuvosa, às duas da madrugada, até os ladrões estão dormindo numa cidade como a minha. Por que eles andariam quando não há quase ninguém andando pelas ruas? Só eu – e sem dinheiro. e o asfalto molhado e a chuva suave trazem todo tipo de reflexão – especialmente quando se está sozinho, e não se tem alguém para falar delas.


Por que essa idéia específica me surgiu eu não sei; acredito que, assim como memórias adormecidas podem ser despertas em nossa mente por um cheiro, um toque, ou um som, idéias e pensamentos podem surgir pelos mesmos motivos. também acredito em razões biológicas; talvez uma expansão ou movimento qualquer de células cerebrais possa se traduzir em pensamentos extremamente específicos; algo assim deve ter acontecido, já que não me lembro de nada que possa ser considerado uma razão para que esta idéia – da qual já começo a falar – tenha aparecido em minha mente. não era um assunto prévio, nada que pudesse remotamente remeter a esta idéia aconteceu; nenhum cheiro, gosto, ou sensação, e do processo de pensamento não me lembro; mas ainda assim, a idéia veio, e segue abaixo:


Me vi pensando em como a idade faz com que a vida fique curta. como o que já passou passou tão rápido, e o que não passou é tão pouco para quem já viveu muito, enquanto para o jovem, o que se passou pareceu tanto, e o tempo adiante ainda parece tão longo, e misterioso.


Não é difícil perceber que a grande maioria das pessoas não se preocupa muito com o futuro, - a probabilidade de que alguém se preocupe com o que virá, me parece, é proporcional às chances de que nada venha; de que não haja futuro. alguém prestes a morrer, dificilmente pensaria em outra coisa senão o futuro próximo; alguém de idade muito avançada vê o pensamento da morte aproximar-se sombriamente, como a própria. Um jovem sem razão para temer, porém, dificilmente pensa nisso. o que é, de certa forma, curioso, e me leva a pensar em mais algumas coisas.


Não é a consciência da inevitabilidade da morte que dá sentido à vida? um dos motivos pelos quais tentamos aproveitar ao máximo nossas vidas não é a constatação de que elas não são eternas? e será que, na juventude, não perdemos algo ao deixar de lado um pensamento tão importante? Não nos esquecemos de levar em conta o que deixaremos para trás um dia?


Pensei num exercício(não físico, claro) simples, embora ligeiramente incômodo: se pensar no futuro. e não falo de pensar se será rico, pobre, famoso, ou coisa do tipo; simplesmente se visualizar. Imagine sua aparência, ainda que superficialmente, aos 30, 40, 50, 80 anos (caso não tenham essa idade ainda). imagine-se numa cama de hospital, no seu último dia de vida, e que no momento derradeiro, uma pergunta enganadoramente simples passe pela sua cabeça: o que eu vivi todo esse tempo valeu a pena? e imagine a resposta à essa pergunta.


No fim, a coisa toda ficou um pouco mais auto-ajudística que eu esperava e queria, mas espero que compreendam que foi involuntário... e que eu, pessoalmente, acho esse tipo de pensamento mais assustador que qualquer outra coisa. Não vou discutir aqui a importância de realmente se fazer algo importante durante a vida, pois essa não é a questão – ao menos não aqui; se você acredita que deve curtir a vida ao máximo, pergunte-se então, se curtiu; se não desperdiçou oportunidades por medo, ou coisa assim. Cada ponto de vista pode propor uma pergunta, e no fim, provavelmente, poucos se orgulharão de sua resposta.


Talvez, afinal, esse texto não se pareça com auto-ajuda, mas ao contrário: com uma declaração e constatação de nossa grande mediocridade.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

A gostosa

Não adianta; uma das certezas que se pode ter sobre qualquer homem é simples e óbvia: ele quer pegar a gostosa.

Aquela mulher voluptuosa, com seu grande chamativo decote, um par de coxas que a coloca seu corpo um pouco mais acima, e uma bunda - porquê é difícil moderar o linguajar ao se falar da gostosa - que faz com que todas as cabeças masculinas se inclinem. Essa é a gostosa. Ela pode ser vulgar, ou mesmo uma vagabunda(e aqui a preocupação com um vocabulário bonitinho vai pras cucuias) mas cara, como é gostosa! Faz parte do imaginário masculino. E as mulheres também sabem disso.

A atração pela gostosa, ainda que puramente sexual, está em todos os homens(e em algumas mulheres). Mesmo quem gosta de homem, muitas vezes não consegue conter uma exclamação, ou um olhar mais prolongado para a gostosa, ainda que não passe de admiração profissinal. Ela tem as características que vários anos de evolução(e muito menos, embora bem impactantes anos de televisão) levaram o homem, como animal, a inconscientemente enxergar ali tudo aquilo que vai garantir a saúde(e que saúde!) de sua prole. Aquele corpo atlético, aquela beleza, que certamente vai atrair homens com altos requisitos evolucionários, dos quais ela ao menos deveria escolher o melhor, detalhe sobre o qual não me cabe dizer nada. Claro que, hoje em dia, dependendo do tipo de pessoa que você é, você procura uma certa beleza interna, uma aptidão intelectual, um modo de ver as coisas... mas aquele animal dentro de você, invariavelmente, se sente atraído pela gostosa. Ela é a fêmea que seu predador queria - nem que seja apenas por uma noite, já que "gostosa" não é característica suficiente para manter a maioria das relações que prestam.

E depois de todos esses comentários sobre a gostosa, e sobre como os homens a veêm - dos quais alguém pode discordar -, chego ao ponto no qual eu queria chegar: por quê alguns homens dizem não gostar da gostosa?

Claro, alguns realmente não gostam. Como serial killers e podólatras, há pessoas que simplesmente gostam de outra coisa. Mas a maioria, como machos tradicionais, gosta. E dentre esses, alguns dizem que não gostam! Por quê isso?

Vamos imaginar uma situação fictícia. Nós temos um homem de seus vinte e poucos anos que sabe, seja lá por quê, que aquela gostosa bem ali está interessada por ele. Há os homens que não pensariam duas vezes e partiriam pra cima da gostosa, mas esse não. Ele não tentou. Ficou só jogando um olhar que não conseguia conter, ocasionalmente, mas não fez nada. Depois ele pode ter dito que a menina é uma vagabunda, muito fácil, ou sei lá. Não interessa o que ele respondeu, pois há uma coisa que espero ter deixado claro: ele, certamente, quer a gostosa. Todo homem quer. Então por quê esse comportamento?

Primeiro tem o mais simples, sobre o qual vou falar pouco: talvez a gostosa em questão realmente tenha uma fama de vagabunda e ele acha que não seria socialmente saudável ser visto com ela. A vida numa sociedade em que os outros se preocupam mais com você que você mesmo tem dessas coisas. Mas ainda assim: pode ter certeza que o cara quer. Ele volta pra casa com vontade, mas essa é uma arma contra a gostosa. E chega desse pedaço! não vou alongá-lo ainda mais...

Segundo: ele não gosta daquilo. acontece. há todo tipo de pessoas, ainda que a maioria não entenda "como é que pode".

Terceiro - mais uma vez, o ponto onde eu queria chegar - : medo. o cara tem medo. pode ser medo de rejeição, muitas vezes fruto de baixa auto estima("nossa, uma menina dessas nunca ia me dar mole"), influência de experiências passadas negativas(quase escrevi traumáticas), ou então aquela timidez natural que muitos têm, e que muitos odeiam.

O homem sem razão para aquela "fuga" se vê forçado a inventar alguma história que o proteja, algum argumento que lhe dê alguma razão para não ter aproveitado a chance com a gostosa. Ele tem que parecer "macho". Precisa de um motivo para ter evitado a gostosa. E isso não se aplica apenas a ela; esse tipo de homem, muitas vezes, precisa ter uma desculpa pra não ter tentado nada com aquela outra menina bonitinha, com aquela do sorriso lindo, ou aquela outra de quem ele gosta. Admitir fraqueza jamais! "Chegar" numa mulher hoje em dia é uma asserção de masculinidade. Homem é o cara que puxa o braço da menina na festa, ou o quê tenta "passar a conversa", mas jamais aquele que jaz sem coragem em um dos cantos da boate. Aqueles gostam de se sentir superiores a esses, e esses se sentem inferiores naturalmente.

E fica uma pergunta estranha: por quê todo esse medo? Talvez uma beleza excessiva seja intimidante, talvez o sujeito não acredite em sua própria capacidade de ação, mas há casos em que a beleza não é excessiva, ou em que tudo parece propício. Por quê o medo da rejeição em situações nas quais ela parece completamente improvável?

O medo, na verdade, é o mesmo. ele só é um pouco mais intenso em alguns casos; alguns o superam em situações favoráveis, alguns nunca. e parece derivar sempre da falta de confiança, de coragem, uma baixa auto estima, uma medo da própria capacidade, e eu estava me perguntando a quê essa falta pode levar. como as coisas podem mudar com um pouco mais de coragem. quais as mudanças você queria ter coragem de fazer em sua vida mais não tem? o que te leva a mudar, e o que te impede de realizar as mudanças que quer na sua vida?.. será que aquilo que você deseja não está logo ali, esperando que você acredite em si mesmo e, confiantemente, pegue a gostosa, figurativamente ou não?

Será que sua personalidade, seus medos, podem te travar tanto? Será que os grandes não confiam em si mesmos?

E você não é bom naquilo em que você acredita?

Bem, não vou me alogar por aqui. Cada parte desse texto poderia se prolongar por várias páginas. eu, afinal, não sou psicólogo para compreender, como diz o house, as "intrigantes janelas à mente humana". simplesmente comecei a pensar sobre isso, e cheguei a essas conclusões. Mas tudo é muito integrado; cada coisa leva a outra coisa, cada assunto, cada característica humana explica diversos comportamentos que influem em diversas situações, que muitas vezes, explicam determinada resposta comportamental... e tudo se relaciona com outra coisa. Se deixar levar pode durar para sempre.

Então, repetindo pela vigésima vez que não vou mais me alongar, acabo com o texto aqui, antes que ele acabe comigo.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Gancho(s)

Sim, eu sei o que você está pensando. Certamente algo em torno de "Por quê diabolus o bruno não revisa e publica coisas direitas, sérias, e arrumadinhas por aqui?". Claro, você pode também estar pensando em "Por quê, ó deuses, por quê(!) o bruno insiste em publicar coisas com intervalos de tantos meses ??"

Caso você não esteja se perguntando nada disso, certamente você já desistiu desse blog, onde as coisas parecem acontecer com uma lentidão desesperadora, ou nunca o conheceu, sendo "você", então, todas as pessoas do mundo (exceto as já citadas, que são poucas - me pergunto o que isso quer dizer, e que tipo de extrapolação seria possível fazer a partir daqui, mas não me respondo, e como aparentemente ninguém o fará antes que eu termine esse post, me considero no direito e obrigação de deixar de lado essa pergunta tão levianamente auto-inflingida).

Bem, de qualquer modo, não era isso que eu queria dizer. Embora eu possa começar a partir de uma parte do raciocínio para chegar aonde quero.

Eu realmente tenho deixado este local aqui meio abandonado. E não quero que ele fique de lado assim. Eu queria realmente publicar umas coisas, mas esse semestre, sempre que eu tinha internet, não tinha tempo, ou tinha cansaço, ou não tinha internet novamente, e as coisas acabaram se complicando de modo que, entre minhas prioridades, não dava pra colocar o blog.

No ano que se inicia, porém, tudo parece mais promissor que no ano que passou. E as coisas parecem tender à mudança, incluindo um promissor aumento de tempo livre no meu calendário dos dias, o que favorecerá não apenas o blog, mas também as outras coisas que eu queria escrever há tempos mas nunca pude por falta de... tempo. ou às vezes dedicação, ou as duas coisas, mas agora que não posso mais usar a desculpa de falta de tempo, talvez eu crie vergonha na cara e comece a me dedicar um pouco mais à essas coisas literárias que, afinal, hoje fazem parte mesmo de meu dia-a-dia acadêmico, coisa que não estou certo se tem ou não hífen, mas decidi colocar porque me pareceu adequado.

Na realidade não era isso que eu queria falar. O post deveria ter algo a ver com a tal concepção de "pimenta nos olhos dos outros á refresco", aquela coisa de perdoar o criminoso que mata uma desconhecido, mas pena de morte para o FDP aquele que mata seu filho! e assim por diante. a moral flexível das pessoas e essas coisas. (claro que talvez eu não resistisse a abrir um parênteses mencinoando o fato de que "WTF" pareça fazer muito mais sentido que "FDP" - no sentido de que parece mais natural, ainda que seja de outra língua. a tal "F word" simplesmente não nos soa vulgar...)

mas a coisa é que isso tudo acabou fugindo tanto do assunto inicial que eu nem quero mais falar dele. vou deixar isso pra outro post, e deixar este servindo como lembrete. desse modo, eu não apenas coloco um novo post como também deixo um gancho para um post futuro, de modo que não demore muito a postar novamente. acho que vou até mesmo chamar este momento de "Gancho", pois assim a chance de que eu me lembre que ele é, realmente, um gancho, será maior. dois posts pelo preço de um!(ou seriam mais? podem ser meus olhos, mas acho que ainda tem pano pra manga escondido por aqui...)

então é isso. eu criei esse post com o objetivo de falar alguma coisa e acabei não falando nada, mas não tem problema - afinal de contas, muito texto bom não fala nada; este só tem o defeito de não ser um deles.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Criptonita

Pessoal só um detalhe.

Esse conto abaixo não é meu. é do Victor Stéfano, amigo meu que tem o blog http://blogdesetecabecas.blogspot.com/ que é um dos blogs na lista aí do lado da pág. Leiam! o blog dele é bem legal. Segue um conto que ele escreveu, pra vocês terem uma idéia.


Criptonita

Sarah Miller tem o poder de chegar aos pontos de ônibus precisamente 30 segundos depois do Linha 461. O próximo ônibus que pára na porta da sua casa só passa daqui a uma hora, e todas as lojas acabaram de fechar. Procura na bolsa algo que prometeu ao médico nunca mais por na boca.
Tinha esse problema com os médicos mais simpáticos: eles a faziam prometer se cuidar.
Devia voltar pra casa correndo agora, tentar perder um pouco de peso, pensa, olhando a horda de velhos tomar a ciclovia, correndo com seus shorts reluzentes pra não serem atropelados naquele horário em que já não se vê mais sol, mas também não há postes acesos.
Olha com gratidão pros últimos cigarros encontrados na bolsa. Os cigarros têm o poder de passar o tempo.

No apartamento decorado apenas com os próprios quadros, Fred Novaes perdeu outra batalha contra o seu metabolismo. Do confronto, sobrou uma única cartela de comprimidos a ser derrotada pela resistência que vai se adquirindo depois da quarta tentativa de suicídio
Numa dimensão paralela, o telefone toca, e, pelo horário, Leon já deve estar bêbado e precisando urgentemente saber se esteve dando pra outros caras enquanto ele tirava férias com a família da namorada de fachada. "Tenho 38 anos e trabalho numa concessionária. Não é que nem pintar quadros. Nesse meio não é legal gostar de homem."
Fred procura, misturando os tons de verde, a cor dos seus comprimidos preferidos. A garota que lhe passara os chamava de "criptonita". Eles conseguiam deixá-lo mole como um defunto por quase dois dias.

Cansada de viagem Racquel Puonto sentou-se no fundo e esperou que alguém viesse lhe perguntar o que estava fazendo. Se o tivessem feito, teria respondido que estava simplesmente farta do modo como o marido vinha menosprezando sua identidade secreta, expondo-a cheio de deboche quando quer que lhe fosse dada a chance, nos encontros da firma ou até nos churrascos daquela família esnobe dele. "Outra que fez admnistração à toa, essa aí. Desistiu no meio do curso e foi fazer odonto... desistiu também e virou professora, nunca termina o que começa. Quando conheci tava escrevendo um livro. Até hoje não li uma página desse livro."
Pensara na possibilidade centenas de vezes, escrevera sobre aquilo até. Ir para uma cidade onde não fosse ninguém, e ainda não houvesse aquele olhar de cobrança lhe perseguindo onde quer que fosse, e um dia, de repente, todos ficariam maravilhados em saber que tinham uma escritora na vizinhança. Sempre travava na hora de comprar a passagem. Agora lá estava ela, a caminho do hotel do anúncio que guardara da última vez que visitara a cidade. Mas ninguém veio lhe perguntar coisa alguma.
Esperou que o próximo quebra-molas acordasse o trocador, e foi até lá, começar uma conversa a qualquer custo e deixar claro de uma vez por todas por que estava ali.
Foi quando um louco cheio de tinta verde pela cara entrou na frente do ônibus.

Fred já está voando quando o Linha 461 consegue finalmente frear, e Sarah Miller corre pela primeira vez como os outros aposentados, desobstruindo seus pulmões, para alcançar seu ônibus. Do lado de dentro, o trocador acorda com dedos ansiosos de mulher tamborilando sobre o caixa. Nossos heróis avançam, certos de que hoje o universo vai ter o que merece.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Momentos

Calculemos então o valor da vida.

Mas pra isso é necessária a criação de padrões que vão ser a base de nossas descobertas; premissas da vida.

Primerira:
Quanto mais durar, melhor.

Segunda:
Dura mais se é feita de mais momentos.

E daí partimos. Definimos.

Momento: Situação ou condição temporária. oportunidade. ocasião propícia; intervalo de tempo.

O momento é então um espaço de tempo no qual há atitudes a serem tomadas.

Então continuemos. Diferenciemos.

Você se senta e assiste à TV por duas horas.

Outro dia.

Você se senta e assiste à TV por duas horas.

Outro dia.

Você se senta e assiste à TV por duas horas.

Tem mesmo certeza que são três momentos? Parecem o mesmo.

O que há igual nos momentos não é novo. É um mesmo momento, condição, ocasião, intervalo de tempo igual.

No qual se fez algo que já se fez algo que já se fez. É ler frase simples duas vezes.

Momentos iguais não são mais de um momento; contam uma vez só, uma vez que um evento só aconteceu.

E daí concluímos.

Já vimos pessoas que aos vinte viveram tantos momentos que os velhos parecem crianças. Pessoas que tendo cinqüenta nem mesmo chegaram à vida que alguns com
metade da idade alcançam. Viveram os mesmos momentos os mesmos momentos por tanto tempo que viram o tempo passar tão rápido que não perceberam. Se contam
a vida concluem que nada fizeram em longos anos iguais que passaram como se nada tivesse acontecido.

Faltaram momentos.

Os momentos que fazem uma vida longa.

Batalhar, crescer, viajar, entrar num eclipse e sair do outro lado, como se a vida se resumisse ao momento, mesmo que seja uma série.