sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Utopia

Trezentos anos se passaram e, finalmente, seres humanos estabeleceram contato com outra
forma de vida inteligente.

O planeta, a mais de 1,5 milhões de anos luz da Terra, era o segundo de seu sistema solar, e
possuía uma atmosfera semelhante à nossa, de modo que podíamos permanecer lá sem a
necessidade de qualquer equipamento. Os habitantes do planeta pareciam ser inteligentes e, talvez
por haverem evoluído em um planeta parecido com o nosso, eram fisicamente muito semelhantes a
seres humanos.

Sem utilizar símbolos ou sinais que pudessem ser erroneamente interpretados, entregamos
uma mensagem, e por meses agimos de modo quase obediente, enquanto ajudávamos na tradução
da mesma, de modo que ambos os povos começavam a aprender a linguagem um do outro. Eles
também haviam descoberto os princípios das viagens interespaciais, ou melhor, um princípio, uma
vez que suas naves funcionavam de modo diferente das nossas. Nossos físicos, engenheiros e
matemáticos, de olhos cheios, ansiosamente agiram em prol do intercâmbio de tecnologias, e foi
pouco tempo depois que o problema surgiu.

Cerca de 100 anos antes deste episódio, os seres humanos haviam desenvolvido a Teoria
Unificada, uma teoria física que explicava o funcionamento de toda a existência, de quarks a
universos, finalmente se tornando capazes de desenvolver novas tecnologias baseados em uma
espécie de conhecimento concreto e universal. A partir deste ponto, foi possível que a tecnologia
das viagens interespaciais fosse finalmente encontrada. Assim fizeram também os Nils, como são
chamados; ambos os povos, apesar de separados por anos-luz de distância, haviam desenvolvido
leis universais, e tecnologias incríveis a partir das mesmas. Só havia, na verdade, um problema: as
leis eram diferentes.

A física, como é bem sabido, não pode ser completamente explicada por palavras simples;
incontáveis cálculos são necessários para que se encontre a grande solução a que cada um dos povos
chegou. Mas era fácil saber que as soluções eram diferentes pelo simples fato de que cada uma
previa a existência de um número diferente de universos.

Os físicos de ambos os planetas, repentinamente, se tornaram céticos a respeito da
tecnologia dos alienígenas. Mas como alguns sabiamente fizeram questão de ressaltar, os
estrangeiros haviam chegado até ali(na época já haviam naves de Nil na Terra) utilizando de
tecnologia desenvolvida a partir daqueles cálculos. Era improvável que uma destas duas físicas
fosse melhor que a outra em absolutamente todos os aspectos, sendo, então, quase certo que ao se
aprender o método que os estrangeiros utilizavam em seus cálculos, seria possível se obter avanços
em certas áreas.

Alguns físicos, de ambos os planetas, permaneciam céticos, enquanto outros – entre eles
alguns dos melhores – passaram a estudar com afinco os métodos utilizados pelos estrangeiros.
Cerca de vinte anos terrestres se passaram, até que uns pudessem dizer que compreendiam
totalmente a física dos outros. Destes, cerca de cinco anos foram gastos com experiências. Sob o
comando do brilhante físico terrestre Kingson, os humanos assistiam, assustados, ao sucesso da
física extraterrestre em cada teste. Tudo foi tentado. Cada hipótese que parecia capaz de provar que
um erro existia na física daquele planeta era exaustivamente testada. Enquanto isto, o líder dos Nils,
Vallians(numa tradução livre), fazia o mesmo, até que o inesperado por todos aconteceu; a
conclusão de ambos os pesquisadores foi a mesma; não havia um erro sequer em toda a enorme
série de cálculos de qualquer um dos povos.

Os físicos que de início haviam se mostrado céticos, tentavam desesperadamente se
atualizar. Poucos achavam que o time de físicos de ambos os planetas poderia estar completamente
errado, e aqueles que o faziam, necessariamente, precisavam conhecer a fundo a física estrangeira
para que pudessem ter alguma esperança de encontrar o erro até então ignorado, e possivelmente
inexistente. Dentre aqueles que já admitiam a realidade, a procura se voltava para um novo e
intrigante mistério: porquê? Os esforços persistiam em certos centros de pesquisas, envolvendo
pesquisadores de ambos os planetas. Foram efetuadas avaliações de eficiência de aparelhos
terrestres e nils, e apenas os melhores para cada objetivo foram selecionados. Aqueles
pesquisadores formaram um dos grupos mais eficientes da história. A mesma mente aberta que lhes
permitira acreditar na possível qualidade da física estrangeira, permitiu também que pudessem
enxergar as tecnologias que poderiam ser desenvolvidas a partir de suas pesquisas. Os
conhecimentos humanos e Nil se somaram, e a mistura de ambos resultou na criação de uma
espécie de cálculo mais avançado, gerando descobertas e tecnologias jamais antes imaginadas. Com
elas, os físicos conseguiram encontrar novos planetas habitáveis, porém desertos e, com a infindável
quantidade de mundos no universo, humanos e Nils não precisaram guerrear entre si por recursos,
não tendo assim nenhum motivo maior para lutas. A conclusão era simples: se todos pudessem
realizar viajens interestelares com facilidade, não faltaria espaço ou alimento jamais, lutas se
tornariam desnecessárias, e as pessoas poderiam se dedicar àquilo que as interessasse, de modo que
aqueles que se interessavam pelas descobertas da física poderiam se juntar aos pesquisadores, o
mesmo valendo para qualquer outra profissão ou hobby.

Não muito tempo depois, um artigo foi publicado; havia sido escrito por um filósofo, com
palavras simples, mas apesar de algumas inconsistências, muitos o consideraram como o mais
próximo à resposta pelos físicos procurada.

“Tudo é uma questão de perspectiva.” dizia o texto. “Cada povo cresceu e evoluiu em um
planeta diferente, de modo diferente, desenvolvendo assim, cálculos diferentes, uma vez que são
remotíssimas as chances de um desenvolvimento igual, ordenado como o nosso, surgindo em um
lugar abissalmente distante e extremamente diferente, na mais incrível coincidência. Cada física
estudada saiu de um ponto diferente, de modo diferente, e observou o universo de uma perspectiva
diferente. Um resultado diferente era de se esperar.”

O texto continuava por várias páginas, a partir desta idéia principal, impressionando os
líderes do centro de pesquisas interplanetárias, Kingson e Vallians. Em conjunto, prepararam um
texto a ser lido por Vallians na Terra, e por Kingson, em Nil, não sem antes conversar com os outros
membros da equipe de pesquisas, que concordaram, em sua maioria.

“Concordamos”, dizia um trecho do discurso, “com o fato de que, apesar de diferenças de
perspectiva, o resultado final deveria ser equivalente. Mas ao mesmo tempo, enxergamos a
evolução tecnológica que o intercâmbio de informações nos trouxe, acreditando assim, que o
intercâmbio de tecnologias poderia ser bem sucedido com seres de um terceiro, quarto, ou quinto
planeta que seja abrigo de vida inteligente, provocando, cada vez mais, a integração de diferentes
perspectivas, e o conseqüente desenvolvimento de novas tecnologias.”

“Nossos cálculos, como esta situação nos mostrou, funcionam apenas em seu próprio
contexto, o contexto que desenvolvemos para eles e a partir deles. Vamos, pois, integrá-los a novos
cálculos! Formaremos novas maneiras de pensar a partir da junção daquelas que conhecemos,
criando uma física melhor, mais avançada, e, talvez um dia, perfeita.”

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