domingo, 29 de novembro de 2009

"Eu lírico" ou "Contexto"

- Imagine um enfeite de natal.

- Sim.

- Bonito, só esperando o momento em que alguém vai acendê-lo. Pronto pra brilhar com uma beleza muito maior que a que tem agora.

- Sei, o que tem?

- Esse enfeite passa o ano todo esperando um enfeite específico. Aquele momento em que a casa estará cheia de alegria, amor, e essas coisas que vivem dizendo sobre o natal.

- Sei.

- E ele sabe que, por mais que sejam piegas, cafonas ou o que for as descrições, aquilo vai despertar algo novo nele. Tudo será lindo, como nos livros baratos e finais felizes de filme. Ele está esperando por esse momento. É isso o que ele mais anseia.

- Ahã.

- Mas então, uma coisa dá errado.

[...]

- uma coisa dá errado.

- O quê?

- No meio do ano(talvez um pouco antes, em maio), alguém tenta acender o enfeite, pra ver se ligado ele fica tão bonito quanto dizem.

[...]

- E sabe o que acontece?

- O quê?

- Nada. Ele não acende. Outras pessoas tentam, mas não dá em nada. O enfeite continua apagado. Ele se pergunta se a culpa é dele. Se há alguma peça queimada, algo essencial errado nele. "Por quê?", ele pergunta, e não sabe responder. Queria tanto que alguém fizesse com que as luzes acendessem, mas ninguém parece ser capaz.
Então ele espera. Afinal, é só um enfeite, não pode fazer nada. Ironicamente, passa as noites em claro, sentindo-se completamente impotente.

- Coitado.

- É. Mas ele ainda espera. Tem esperança, entende? Mas enquanto espera, e o tempo que tem pra esperar vai acabando, ele vê crescendo o seu maior medo.

- O quê?

- Que um dia, não haja mais ninguém para tentar e, esquecido, ele seja jogado numa caixa de velharias, em um porão, maleiro, ou armário velho qualquer.

- Nossa...

- Pois é.
Triste, não?

- Muito. E falando nisso, você também parece triste. Aconteceu alguma coisa?

- Ah, não é nada. Acho que eu só queria alguém com quem pudesse ter essa conversa.

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