quarta-feira, 24 de junho de 2009

A Vida nas Cruzadas

Ele se sentou, segurando na mão esquerda a página do jornal aonde estavam as cruzadinhas e na mão direita uma caneta, uma xícara de café. Ajeitou-se na cadeira, esticou o braço que segurava a caneta como se fizesse um alongamento, e a segurou, pensativamente, do modo como as pessoas fazem quando querem que os passantes que as vejam pensem que são mais inteligentes do que realmente são. Tecnicamente, se ele estivesse em casa, estaria todo largado. Estava em uma mesa em uma livraria, com o café esfumaçante sobre a mesa. Ele não imaginava que aquilo seria tão mais interessante que o normal para um joguinho de palavras.

Resolveu começar no número treze, vertical. "Nome de solteiro de sua mãe". Ele respondeu. Pensava, também, no filme que havia assistido mais cedo. Bebeu um pouco do café, e resolveu tentar fazer alguma das palavras que se cruzavam com esta. "Nome do time cujo uniforme há uma pessoa vestindo à sua frente". Havia ali um jovem, com uma camisa do flamengo. Ele se voltou para as palavras. Estava na letra N (que era aonde as duas palavras se cruzavam) quando, repentinamente, parou. Um observador imparcial que naquele momento se concentrasse nele - como um narrador que contasse sua história - teria visto sua cabeça se levantar, com um olhar interrogativo, que passava a impressão de que aquela situação simplesmente não se encaixava. Leu novamente as perguntas, e completou a palavra "flamengo", se certificando assim de que ela realmente se encaixava ali. Um pouco de café depois, e ele havia elaborado uma teoria para explicar o que estava acontecendo. Aquela edição do jornal havia tentado pregar uma peça em seus leitores e a mais pura coincidência havia colocado a camisa do flamengo ali, e a palavra cruzando com o nome de sua mãe no lugar certo. Era extremamente improvável, é verdade, mas entre improvável e
impossível, o improvável ganhava com folga. Ainda assim, de fato era um improvável tão difícil de acontecer que fazia com que ele se sentisse tentado a provar o impossível. Decidiu preencher, ao menos, mais duas palavras que se cruzassem com as quais já havia preenchido. Uma que se cruzasse com flamengo, e uma que se cruzasse com o nome de sua mãe.

Onze vertical: "nome do livro à extrema esquerda na estante atrás de você."

Ele se virou. Uma funcionária da livraria estava retirando exatamente este livro da estante. Aparentemente alguém o colocara ali erradamente. Ela estava saindo. Ele a alcançou. Nem precisou pedir seja o que for, pois haviam chegado ao mesmo tempo à estante aonde o livro deveria estar. Se ela estivesse na rua, provavelmente acharia que alguém que se aproximava daquele forma queria assaltá-la, mas ali, estava tranqüila, fazendo o que todos que trabalham em atividades mecânicas fazem: pensando em outra coisa.

Ele, como era de se esperar, não notou nada a este respeito. Apenas viu o livro que procurava. Era "Assim falou Zaratustra", e imediantamente preencheu a cruzadinha com a nova informação. O M da palavra "assim" se cruzava com o M de flamengo, e o título do livro se encaixava perfeitamente ali. Voltou à estante aonde o livro estava no início, e verificou se o livro da extrema esquerda não se encaixava na cruzadinha. O nome era completamente diferente, e o fato só fez com que ele pensasse que, pelo que podia perceber, a palavra a ser colocada na cruzadinha era a que respondia à pergunta no exato momento em que ele a lia. Assim que percebesse que precisava fazer algo, deveria fazer, ou acabaria chegando a uma conclusão errada. Foi quando interrompeu essa cadeia de pensamentos, por pensar que ela era, realmente, imbecil. Não tinha como a resposta de uma cruzadinha mudar com o tempo. É claro que ao mesmo tempo, não era possível que a cruzadinha se baseasse em respostas pessoais, ou efêmeras. Tinha que ser algo de conhecimento geral, e que não mudasse a cada quinze minutos. Já estava sentado na cadeira novamente, e fez sinal para que o garçom trouxesse mais um café. Aquele já havia esfriado.

O garçom veio, e trocou aquela xícara por uma nova. Parou ao ouvir o estranho homem ali sentado chamá-lo, com uma certa urgência na voz. O garçom com certeza estranhou o fato de que o homem perguntou seu nome, sem nenhum motivo aparente. O homem, depois de ver a expressão no rosto dele, pensou a este respeito, e percebeu que, não pela primeira vez, estava agindo de modo estranho, algo que a grande maioria das pessoas tende a chamar de "fazendo papel de palhaço" ou de outras frases para as quais em geral não há um equivalente formal que se encaixaria no estilo desta narração e, ao mesmo tempo, transmitiria a idéia com a contundência necessária. Mas agora o homem já não se importava com isso. O primeiro nome do garçom se encaixava perfeitamente na cruzadinha, na horizontal, cruzando com o nome de sua mãe. Aquela cruzadinha, de algum modo, funcionava, apesar de toda a improbabilidade. Ele decidiu que, se fosse realmente completá-la, teria que aceitar sua estranheza, e começar a ignorar a impressão que poderia causar ao tentar resolver algumas das perguntas.

Dezenove, vertical: "Primeiro nome da mulher à sua frente"

Determinado, completara os primeiros dezoito, respondendo a perguntas que, por vezes, exigiam certa manutenção. E agora, dezenove: encontrava uma mulher incrível. Do tipo que não passa o nome para o primeiro idiota que perguntar. Viu uma prancheta sobre uma estante de livros, e a pegou. Uma funcionária desperdiçou cerca de quinze minutos de seu tempo a procurando mais tarde, mas isto é irrelevante para esta história. Ele resolveu que, se quisesse descobrir o nome daquela mulher não seria tão simples quanto chegar perguntando. E com certeza não seria pior que a velhinha do 15 horizontal, que, quando questionada sobre que livro estava lendo, achou que havia algum interesse a mais por parte dele. Não seria tão difícil convencer a loira.

Não foi mesmo. Ela disse o nome quando ele perguntou, e também o telefone, informações que ele anotou com o auxílio da prancheta. Quando ela viu, alguns metros a diante, que ele havia deixado a prancheta sobre uma estante, percebeu que o que havia nela era um jornal e o viu sair andando calmamente, precisou pensar um pouco na situação, mas não fez nada no momento.


Ele estava realmente realizado. Um tipo de realização que você não sente ao terminar uma cruzadinha comum. A livraria ficava no interior de um shopping e, felizmente, nenhuma das questões o fez sair de dentro dele, embora tenha assustado algumas crianças no cinema e, pela primeira vez na vida, roubado uma revista de alguém (experiência que ele admitiu ser levemente emocionante). Esta, de acordo com o que pensaria depois, havia sido a coisa mais ousada que fez. Talvez, nesse quesito, equivalesse a perguntar o nome da mulher do dezenove vertical, com um boné de funcionário da livraria, segurando uma prancheta e agindo como se estivesse fazendo uma pesquisa sobre os clientes do lugar. Quando pensou nisso, teria rido em voz alta, se a mesma mulher que freqüentava este pensamento e a livraria aonde agora estava não o houvesse cutucado, de leve, nas costas, quase provocando um ataque cardíaco no rapaz.

Ela não sabia muito bem por onde começar. Havia começado a andar em direção a ele, querendo saber o que aquele estranho queria com o nome e o telefone dela, quando o viu se sentar ao lado de um senhor, já idoso, e espiar algo na revista que este mesmo senhor estava lendo, para anotar depois em seu jornal. Ficou curiosa com aquilo, e sem perceber, passou a segui-lo. Testemunhou um comportamento absolutamente incomum por parte dele, e ao ver que ele parecia ter parado de fazer coisas estranhas e anotar algo em seu jornal em seguida, criou coragem para ir até lá e lhe perguntar que diabos ele estava fazendo.

Ele riu, e disse que explicaria, mas estava morrendo de fome. Ela poderia ouvir enquanto ele tomava um café. Assentindo, ela o acompanhou, e com certa relutância, começou a resolver a cruzadinha que ele lhe empurrara. Até que ela parou e olhou para ele, que a vigiava com um sorriso no rosto.

- Coragem! - disse ele – Eu sei que parece estranho, mas com um pouco de esforço você consegue.

E então, os dois passaram a resolver a segunda cruzadinha juntos.

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