sábado, 27 de junho de 2009

Coelho

Hoje aconteceu algo estranho.

Saí de casa, depois de almoçar, para buscar o pote de sorvete que tinha prometido aos meus filhos, e esquecido.

Não precisava de carro porquê a padaria ficava no mesmo quarteirão de minha casa, mas no outro lado. Era só virar para direita duas vezes, que estava lá. Mas quando eu abri a porta de casa, fiquei surpreso ao ver que, parado bem em frente à porta do meu carro, havia um coelho.

O coelho olhava bem na minha direção, com seus olhos vermelhos. Mais que isso, ele olhava bem em meus olhos, quase como se estivesse me encarando, comportamento que eu não pude deixar de achar estranho vindo de um coelho.

"Anda logo, pai!" foi a frase que me fez perceber que eu estava parado, olhando para o coelho sem continuar fazendo o que devia estar fazendo. Fechei a porta, a tranquei, e comecei a caminhar para a direita.

Olhei para trás, logo depois dos primeiros passos. O coelho me acompanhava com o olhar. E de repente, andou um pouco.

Bem devagar, o coelho começou a se aproximar. E por algum motivo isso me inspirou um medo crescente. Comecei a andar cada vez mais rápido. Estava quase correndo quando virei a esquina, quase trombando com o carteiro, que passava.

Isso me tranqüilizou um pouco. O coelho não estava mais à vista. Comecei a andar um pouco mais devagar. Quando havia caminhado metade do caminho até a outra esquina, porém, avistei, alguns metros à frente, o coelho.

O mesmo pelo branquinho, e olhos vermelhos que me encaravam, alguns metros à frente. "Mas isso é impossível!", pensei. "Não tem como ele ter dado a volta tão rápido!". Mas o coelho estava inegavelmente ali. Repentinamente, tomado por alguma espécie de instinto, olhei para trás. Ali estava a explicação: o coelho à minha frente era outro coelho, idêntico ao primeiro.

Os dois me encaravam incessantemente, e se aproximavam aos poucos. Um "passo" de cada vez, naquele andar peculiar dos coelhos, que parece um pequeno salto. Um passo, paravam. Um passo, paravam. E lentamente, se aproximavam cada vez mais de mim.

Agora eu não sabia o que fazer. Acho que entrei em pânico. Os dois coelhos se aproximavam e eu estava assustado com tudo aquilo. Que comportamento estranho para coelhos! Não resisti à pressão, e atravessei a rua.

Ali, os coelhos não tinham coragem de me seguir. Mas conforme eu seguia pelo outro quarteirão, os coelhos andavam, sempre, na mesma direção que eu. Se mantinham, do outro lado da rua, na mesma altura do quarteirão em que eu estava, e mesmo daquela distância, continuavam me olhando.

Eu já estava planejando atravessar a rua correndo, vencendo os coelhos pela velocidade, quando, do pet shop que havia ao lado da padaria onde eu iria comprar o sorvete, saiu uma mulher, com uma gaiola.

"Ah, aí estão vocês!", disse, e pegou os coelhos, colocando-os um de cada vez na gaiola. Enquanto eu estava ao alcance, os coelhos ainda me olhavam; mas agora não podiam mais me seguir.

Aliviado, comprei o sorvete, e voltei para casa. Minha mulher e filhos repararam meu estranho silêncio, mas eu simplesmente não conseguia me concentrar na conversa.

Naquele dia, à noite, joguei fora o pé de coelho que guardava desde a infância. Nunca se sabe.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

A Vida nas Cruzadas

Ele se sentou, segurando na mão esquerda a página do jornal aonde estavam as cruzadinhas e na mão direita uma caneta, uma xícara de café. Ajeitou-se na cadeira, esticou o braço que segurava a caneta como se fizesse um alongamento, e a segurou, pensativamente, do modo como as pessoas fazem quando querem que os passantes que as vejam pensem que são mais inteligentes do que realmente são. Tecnicamente, se ele estivesse em casa, estaria todo largado. Estava em uma mesa em uma livraria, com o café esfumaçante sobre a mesa. Ele não imaginava que aquilo seria tão mais interessante que o normal para um joguinho de palavras.

Resolveu começar no número treze, vertical. "Nome de solteiro de sua mãe". Ele respondeu. Pensava, também, no filme que havia assistido mais cedo. Bebeu um pouco do café, e resolveu tentar fazer alguma das palavras que se cruzavam com esta. "Nome do time cujo uniforme há uma pessoa vestindo à sua frente". Havia ali um jovem, com uma camisa do flamengo. Ele se voltou para as palavras. Estava na letra N (que era aonde as duas palavras se cruzavam) quando, repentinamente, parou. Um observador imparcial que naquele momento se concentrasse nele - como um narrador que contasse sua história - teria visto sua cabeça se levantar, com um olhar interrogativo, que passava a impressão de que aquela situação simplesmente não se encaixava. Leu novamente as perguntas, e completou a palavra "flamengo", se certificando assim de que ela realmente se encaixava ali. Um pouco de café depois, e ele havia elaborado uma teoria para explicar o que estava acontecendo. Aquela edição do jornal havia tentado pregar uma peça em seus leitores e a mais pura coincidência havia colocado a camisa do flamengo ali, e a palavra cruzando com o nome de sua mãe no lugar certo. Era extremamente improvável, é verdade, mas entre improvável e
impossível, o improvável ganhava com folga. Ainda assim, de fato era um improvável tão difícil de acontecer que fazia com que ele se sentisse tentado a provar o impossível. Decidiu preencher, ao menos, mais duas palavras que se cruzassem com as quais já havia preenchido. Uma que se cruzasse com flamengo, e uma que se cruzasse com o nome de sua mãe.

Onze vertical: "nome do livro à extrema esquerda na estante atrás de você."

Ele se virou. Uma funcionária da livraria estava retirando exatamente este livro da estante. Aparentemente alguém o colocara ali erradamente. Ela estava saindo. Ele a alcançou. Nem precisou pedir seja o que for, pois haviam chegado ao mesmo tempo à estante aonde o livro deveria estar. Se ela estivesse na rua, provavelmente acharia que alguém que se aproximava daquele forma queria assaltá-la, mas ali, estava tranqüila, fazendo o que todos que trabalham em atividades mecânicas fazem: pensando em outra coisa.

Ele, como era de se esperar, não notou nada a este respeito. Apenas viu o livro que procurava. Era "Assim falou Zaratustra", e imediantamente preencheu a cruzadinha com a nova informação. O M da palavra "assim" se cruzava com o M de flamengo, e o título do livro se encaixava perfeitamente ali. Voltou à estante aonde o livro estava no início, e verificou se o livro da extrema esquerda não se encaixava na cruzadinha. O nome era completamente diferente, e o fato só fez com que ele pensasse que, pelo que podia perceber, a palavra a ser colocada na cruzadinha era a que respondia à pergunta no exato momento em que ele a lia. Assim que percebesse que precisava fazer algo, deveria fazer, ou acabaria chegando a uma conclusão errada. Foi quando interrompeu essa cadeia de pensamentos, por pensar que ela era, realmente, imbecil. Não tinha como a resposta de uma cruzadinha mudar com o tempo. É claro que ao mesmo tempo, não era possível que a cruzadinha se baseasse em respostas pessoais, ou efêmeras. Tinha que ser algo de conhecimento geral, e que não mudasse a cada quinze minutos. Já estava sentado na cadeira novamente, e fez sinal para que o garçom trouxesse mais um café. Aquele já havia esfriado.

O garçom veio, e trocou aquela xícara por uma nova. Parou ao ouvir o estranho homem ali sentado chamá-lo, com uma certa urgência na voz. O garçom com certeza estranhou o fato de que o homem perguntou seu nome, sem nenhum motivo aparente. O homem, depois de ver a expressão no rosto dele, pensou a este respeito, e percebeu que, não pela primeira vez, estava agindo de modo estranho, algo que a grande maioria das pessoas tende a chamar de "fazendo papel de palhaço" ou de outras frases para as quais em geral não há um equivalente formal que se encaixaria no estilo desta narração e, ao mesmo tempo, transmitiria a idéia com a contundência necessária. Mas agora o homem já não se importava com isso. O primeiro nome do garçom se encaixava perfeitamente na cruzadinha, na horizontal, cruzando com o nome de sua mãe. Aquela cruzadinha, de algum modo, funcionava, apesar de toda a improbabilidade. Ele decidiu que, se fosse realmente completá-la, teria que aceitar sua estranheza, e começar a ignorar a impressão que poderia causar ao tentar resolver algumas das perguntas.

Dezenove, vertical: "Primeiro nome da mulher à sua frente"

Determinado, completara os primeiros dezoito, respondendo a perguntas que, por vezes, exigiam certa manutenção. E agora, dezenove: encontrava uma mulher incrível. Do tipo que não passa o nome para o primeiro idiota que perguntar. Viu uma prancheta sobre uma estante de livros, e a pegou. Uma funcionária desperdiçou cerca de quinze minutos de seu tempo a procurando mais tarde, mas isto é irrelevante para esta história. Ele resolveu que, se quisesse descobrir o nome daquela mulher não seria tão simples quanto chegar perguntando. E com certeza não seria pior que a velhinha do 15 horizontal, que, quando questionada sobre que livro estava lendo, achou que havia algum interesse a mais por parte dele. Não seria tão difícil convencer a loira.

Não foi mesmo. Ela disse o nome quando ele perguntou, e também o telefone, informações que ele anotou com o auxílio da prancheta. Quando ela viu, alguns metros a diante, que ele havia deixado a prancheta sobre uma estante, percebeu que o que havia nela era um jornal e o viu sair andando calmamente, precisou pensar um pouco na situação, mas não fez nada no momento.


Ele estava realmente realizado. Um tipo de realização que você não sente ao terminar uma cruzadinha comum. A livraria ficava no interior de um shopping e, felizmente, nenhuma das questões o fez sair de dentro dele, embora tenha assustado algumas crianças no cinema e, pela primeira vez na vida, roubado uma revista de alguém (experiência que ele admitiu ser levemente emocionante). Esta, de acordo com o que pensaria depois, havia sido a coisa mais ousada que fez. Talvez, nesse quesito, equivalesse a perguntar o nome da mulher do dezenove vertical, com um boné de funcionário da livraria, segurando uma prancheta e agindo como se estivesse fazendo uma pesquisa sobre os clientes do lugar. Quando pensou nisso, teria rido em voz alta, se a mesma mulher que freqüentava este pensamento e a livraria aonde agora estava não o houvesse cutucado, de leve, nas costas, quase provocando um ataque cardíaco no rapaz.

Ela não sabia muito bem por onde começar. Havia começado a andar em direção a ele, querendo saber o que aquele estranho queria com o nome e o telefone dela, quando o viu se sentar ao lado de um senhor, já idoso, e espiar algo na revista que este mesmo senhor estava lendo, para anotar depois em seu jornal. Ficou curiosa com aquilo, e sem perceber, passou a segui-lo. Testemunhou um comportamento absolutamente incomum por parte dele, e ao ver que ele parecia ter parado de fazer coisas estranhas e anotar algo em seu jornal em seguida, criou coragem para ir até lá e lhe perguntar que diabos ele estava fazendo.

Ele riu, e disse que explicaria, mas estava morrendo de fome. Ela poderia ouvir enquanto ele tomava um café. Assentindo, ela o acompanhou, e com certa relutância, começou a resolver a cruzadinha que ele lhe empurrara. Até que ela parou e olhou para ele, que a vigiava com um sorriso no rosto.

- Coragem! - disse ele – Eu sei que parece estranho, mas com um pouco de esforço você consegue.

E então, os dois passaram a resolver a segunda cruzadinha juntos.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Paixão

Duas mães conversavam, em uma pracinha.

Já que ambas haviam se tornado mães recentemente, decidiram que fariam esse passeio juntas. Colocavam as crianças em seus carrinhos, e as empurravam por ali, conversando.

Mas nesse dia, porém, a conversa não era tanta. Uma das crianças chorava incessantemente.

As mães tentavam entender, mas ele ainda era tão pequeno que não conseguia se levantar nem um pouco no carrinho e ficava tentando de todo modo alcançar o balão vermelho que podia ver dali.

Ninguém percebia que ele tentava esticar os bracinhos, em um movimento não muito efetivo nem perceptível, na direção do balão.

As duas mães o cercaram, tentando entender o motivo da tristeza, e não perceberam que ele simplesmente queria o balão que não podia ter. O balão estava perto, pois estava amarrado no outro carrinho. Mas ele o queria ali, em sua mão. E não conseguia. Tudo porquê o balão estava amarrado no outro carrinho, que agora se distanciava.

Quando voltou pra casa ainda estava chorando.

domingo, 14 de junho de 2009

carta de suicídio

Sentado, Emerson Siqueira escrevia um conto que deveria estar em seu próximo livro.

Era o terceiro livro que publicaria. Não havia vendido muito os primeiros, mas gostava do que fazia, e continuava.

O conto, porém, oferecia grande dificuldade. O final era esquivo, e ele não conseguia ficar satisfeito com o início. O meio teria de se adaptar a essas duas coisas, e ele estava cansado.

Foi nesse momento que ligou o som, e começou a ouvir uma música na rádio.

A música era antiga, mas muito bonita. A letra, melhor que qualquer conto ou poesia que ele jamais escrevera. e ele parou.

Naquele momento chegara a uma terrível conclusão.

Olhou para sua estante, preenchida com os livros dos grandes mestres literários de seu tempo e de tempos antigos, e percebeu que jamais estaria à altura deles.

Para se tornar um grande, ele sabia, não bastava esforço. Era necessário gênio, talento natural. e o que possuía, definitivamente não bastava para superar aqueles escritores.

Levantou-se então, em estado de choque.

Que significado poderiam ter suas obras, pensava, quando não eram as melhores? Sua única função seria engrossar a massa de trabalhos razoáveis que fazem a glória dos superiores. Seria apenas "mais um". O trabalho de sua vida, pensou enquanto retirava a arma da caixa de sapatos onde a escondia, não era nada. Era insignificante. E ele não podia fazer nada.

A diarista encontrou seu corpo pela manhã.

quebra-cabeças(alpha)

Ás vezes a gente simplesmente se sente estranho, e é como se não soubéssemos o que dizer, as coisas estivessem fora do lugar e as pessoas simplesmente não se encaixem.

Você procura seu lugar naquele pedaço de mundo, que é o mesmo que foi ontem, e no dia anterior, mas hoje não parece estar lá. Como se o panorama que representa um perfeito céu azul tenha, bem no meio, um espaço vazio, onde você deveria se encaixar; mas você e aquele espaço não tem o mesmo formato. Sendo assim, você é obrigado a olhar à distância, e como o panorama é agora incompleto, não parece mais tão bonito quanto foi nos dias em que você estava lá.

Mas algumas vezes você percebe, no meio das outras peças que parecem se encaixar tão bem, uma que faz você querer se encaixar também.

É uma situação complicada, abandonar o conforto da solidão, e você fica confuso, fala coisas erradas. Comete os erros que por vezes acontecem quando se tenta, meio sem saber, meio sem pensar, mas não se quer deixar de tentar.

E de repente você quer ficar perto daquele pequeno e lindo trecho de paisagem; aí você se enfia de qualquer jeito no espaço vazio e decide que vai tentar se juntar.

Mas tem que ser bem ali do lado.

P.S.: Não dá pra ficar bom com interrupções toda hora! mas eu queria postar algo aqui... depois dou uma melhorada no texto.