terça-feira, 21 de abril de 2009

Estamos brigados.

Estamos brigados.

Por um motivo banal, e um tipo específico de coisa que me chateia muito.

Foi nosso aniversário de namoro, semana passada. Um ano de namoro, e tudo,
embora não estivesse perfeito, parecia bem. Eu, que tenho o hábito de escrever textos que ela diz serem lindos, escrevi algo para ela, como presente. Quase vinte páginas de dedicação, uma vez que sempre fui mais dado a obedecer à súbitas inspirações que escrever sobre alguém ou algum assunto escolhido antecipadamente. Ela sabe disso.

Mas quando viu o texto, ficou chateada.

Levei um tempo para compreender exatamente qual era o problema.

Depois percebi, ainda que tenha levado um tempo para aceitar a idéia, que ela havia se decepcionado pelo fato de que, para presenteá-la com aquele conto, eu não precisei gastar dinheiro.

Triste, notei que ela não estava nem um pouco satisfeita, embora tentasse fingir. Ainda que o relógio que ela me dera agora parecesse pesar no meu pulso com uma espécie de vergonha que eu sabia que não precisava ou deveria ter, o que mais me doía era o fato de que ela, antes mesmo de ler se decepcionou, ainda que soubesse que aquele era o meu único texto dedicado a alguém, e um dos maiores contos que já havia escrito, além do único fruto de uma inspiração apaixonada entre minhas obras.

Decepcionados um com o outro, terminamos a noite de modo mais frio que qualquer de nós esperava. Eu esperava que ela, pelo menos, começasse a ler o que eu havia escrito. Torcia para que, conforme seus olhos andassem de palavra em palavra, fossem aos poucos adquirindo o brilho que tinham quando ela estava alegre, ou emocionada. Mas isso não aconteceu. A deixei em casa, chateado, e ela, chateada, provavelmente nem sequer chegou a ler.

No dia seguinte, decidimos dar um tempo. Eu era o mais triste, mas não sei se ela percebeu. Nossa relação não era perfeita, mas eu não imaginava que fosse tão imperfeita, a ponto de cair desse modo, como se o acidente fosse ocasionado por uma falha fatal na fundação, que estava ali desde o início. Não sei o que se passava na cabeça dela, mas eu não gostava de pensar que ela havia se decepcionado tanto com o fato de que, ao invés de gastar dinheiro para presenteá-la, gastei dedicação e um longo tempo, durante o qual pensava nela incessantemente, e tentava deixar naquelas folhas a combinação de palavras e frases mais bela que eu podia conceber. Meus dias de esforço seriam superados por alguém que, ao observar um par de sapatos em uma vitrine, se lembrasse dela por alguns segundos, e deixasse que a vendedora escolhesse a embalagem que achasse mais bonita, para que ele não precisasse se dar ao trabalho de fazê-lo.

Me pergunto se ela leu o que escrevi. Penso em como ela reagirá, ao ler. Será que vai perceber o quanto me dediquei, enxergar a beleza naquela história, que eu talvez veja apenas por ser seu autor, e entender a paixão que me levou a escrevê-la? Será que decidiria voltar?

Me pergunto também se eu a aceitaria de volta. Não apenas decepção, um desapontamento com o tipo de pessoa que ela mostrou ser, e eu não sabia que era, mesmo depois de um ano.

Acho que não teremos futuro.

5 comentários:

Marcus Vinícius da Silva disse...

É mais fácil comprar algo do que de fato dedicar um tempo como tu fez. Masse ela não entende isso, é por que tu está certo: não t~em futuro.

Mas nada é certo, né, tem que ve o que acontece.

Abraço!

Bruno disse...

bem

isso não aconteceu. é ficção pura.

vc achou que tinha acontecido mesmo, não foi? não foi o único... rsrs

abraços!

Bruno disse...

se bem que, sendo você, não duvido que esteja "ficcionando" tb... rsrs

nicollas ranieri disse...

ficção pura, sim... mas absolutamente plausível, e de um encontro enorme com acontecimentos similares... kra, eu adorei! adorei mesmo esse texto, e por motivos bem óbvios... enfim, muito obrigado!
abração

Bruno disse...

putz!

eu nunca pensei que veria justo você, nicolas, o cara mais crítico que eu conheço, elogiando assim.. suashsauhsah