sexta-feira, 20 de março de 2009

Senhor

Não gosto de acordar cedo. Nunca gostei.

Os únicos motivos a que posso atribuir essa aversão são o fato de que gosto de dormir tarde, e uma certa possibilidade de que inconscientemente me revolte contra algo a que fui "obrigado" durante a maior parte de minha vida.

Mas hoje, não consegui dormir como normalmente. às seis da manhã estava de pé, sem querer.

Ainda assim, decidi que não dormiria mais. "Não hoje. Tenho coisas para fazer."

Fui à padaria, então, para comer alguma coisa. Fui mais determinado que de costume, como determinado estava a passar o dia acordado e a resolver o que tinha para resolver, ainda que o sono tentasse atacar a cada distração.

A manhã que raiava parecia me dar um pouco mais de energia. Agora, acordar de manhã, sem nenhuma obrigação a fazer que eu não estivesse determinado a fazer, parecia certo. A manhã parecia fazer sentido. Como se o despertar de um novo dia tivesse algum poder restaurador, que fosse capaz de despertar as minhas próprias energias que o sono tentava turvar. E isso só fazia aumentar minha vontade.

Caminhei no amanhecer frio, chegando a correr em parte do caminho. A padaria, que acabara de abrir, ainda não tinha o que eu procurava; aparentemente
só ficaria pronto mais tarde. Não quis esperar; comprei apenas a primeira coisa que me apareceu com recheio de doce-de-leite.

Quando fui pagar, algo no mínimo curioso aconteceu. A mulher que me atendia me chamou de "Senhor". Ela nunca fazia isso, e afinal, não é algo com o que estou acostumado; sou novo demais para que me chamem de senhor, e as pessoas dessa padaria, que eu freqüentava a tempos, nunca o haviam feito. Por um momento, pensei que podia ter sido um engano, mas depois acabei divagando a respeito.

Por quê ela se enganaria? Eu estava de short e uma camiseta do tipo que tem o símbolo de vários patrocinadores nas costas, e calçava um par de chinelos. Julgando pelas roupas, era mais fácil que ela me chamasse de "moleque" que de senhor. E a confusão não pode ter nascido do nada. Algo fez com que ela se confundisse.

Pensei a respeito, e concluí que havia apenas uma coisa diferente em mim; a determinação que havia em cada ato. Os olhos abertos, e a decisão que
parecia ser óbvia mesmo na mais simples afirmação, entregando a vontade através do tom. Não sei. talvez passe a aparência de uma certa maturidade. talvez (provavelmente)de modo inconsciente, ela percebeu, em minha linguagem corporal algo que indicava que ela devia me chamar de senhor.

Talvez não seja nada disso; mas deve ter um motivo, certo? e não sei o que mais poderia ser.

De qualquer jeito, prefiro pensar assim.