quarta-feira, 11 de março de 2009

Natal

*em homenagem ao primeiro visitante de Natal que veio aqui, vou colocar essa, tirada da comunidade no orkut, e uma das coisas mais antigas que tenho


Se houvesse ali uma arma de fogo, ele se suicidaria.

Não era necessária, especificamente, uma arma de fogo. Tudo que queria era uma morte rápida. Cortar os pulsos e ficar parado, ouvindo as gotas de sangue caírem uma a uma, daria tempo para que ele rejeitasse a idéia, mudasse seus pensamentos, e o deixaria assistindo à própria morte depois de não mais desejá-la e não mais ter o poder ou tempo para evitá-la. Se uma arma de fogo estivesse a seu lado, atiraria na própria cabeça imediatamente. Se estivesse em algum lugar com altura suficiente, se jogaria e fecharia os olhos, talvez nu, para sentir o vento em seu corpo pela última vez. Mas não tinha. Não estava. Estava pateticamente trancado em um banheiro, sentado no chão, com lágrimas de frustração nos olhos.

Um dia, há algum tempo atrás, havia dito que jamais se suicidaria. Mas na época, não tinha que enfrentar os pensamentos que agora enfrentava. A consciência de inutilidade, o riso amargurado que sentia vontade de rir quando alguém parecia se pensar superior ou melhor que ele ou ao que realmente era, ao que fosse, como se estas mesmas pessoas não fossem igualmente insignificantes.

Andava nas ruas e percebia. Olhava para cada rosto, e via sorrisos, tristezas, amarguras e alegrias, sem conseguir evitar o pensamento em como aquelas pequenas alegrias eram passageiras e morriam facilmente. O quanto a batalha diária na vida, os sucessos como um "aumento de salário" ou uma "promoção" pareciam satisfazer a alma das pessoas, que os exaltavam como se fossem grandes coisas, acontecimentos, sem perceber que na verdade, estas eram apenas pequenas coisas que impediam que eles percebessem o quão fúteis são suas vidas, e como haviam fracassado na luta por seus sonhos. Pelo menos com a maioria das pessoas era assim.

Andava e percebia...

Ultimamente também havia recebido um aumento. Mas aquilo significava tão pouco. Antes de seu primeiro salário, já sabia que se alegrar muito por uma coisa como aquela não fazia sentido. É claro que possuir dinheiro é bom. Mas ter que possuí-lo para se sentir bem não é. E ele sabe disso. Mas prosseguia andando, com pensamentos obscuros já passando pela mente. Se ao menos as pessoas pudessem ver o quanto são insignificantes, se pudessem entender, poucas restariam no mundo. Os "líderes" mundiais se sentem superiores as pessoas "comuns", mas não sabem do que falam, ou o que podem fazer. O crescimento nunca será suficiente, pois sempre há coisas maiores, e ele sabe disso.

Alguns tentam acreditar que não são insignificantes, ou que são menos insignificantes, mas ele sabe que não é assim. "O bater de asas de uma borboleta pode provocar um furacão no outro lado do mundo"? Ele não duvida. Mas sabe que a destruição de um universo pode provocar muito mais. Mais que qualquer um jamais poderia. Sabe que o poder é limitado, mas que uma parte ínfima do poder existente ultrapassa o limite necessário para que ele e todos de sua raça sejam destruídos.

Pensava...

Ouvia os gritos vindos da casa ao lado agora. A discussão gritada alto o suficiente para ultrapassar as paredes do banheiro, que era a parte mais próxima da outra casa, não importava tanto, embora fizesse a atmosfera de crise se intensificar. Pensava... Pensava no que outras pessoas já haviam dito. Que existem milhões, bilhões de pessoas em condições piores que as dele. Mas as pessoas em sua maioria não conseguem perceber o que isto quer dizer. Ele se sente pior que as outras, porque elas não pensam como ele. Ele não quer dizer que sejam menos inteligentes, mas que pensam de modo diferente. Estas pessoas podem ter fome, doenças ou coisas parecidas. Mas agruras físicas não parecem ser tão importantes quanto as mentais, que o estão quase matando de um modo bem mais eficiente que as outras parecem ser capazes. E as dores mentais, psicológicas, são bem piores quando se é consciente da veracidade de suas razões.

Ele sabe que a depressão não é egoísta. Ao menos não a dele. Ele percebe que vale tão pouco quanto os outros, reconhece a diferença entre as pessoas, apesar de não acreditar que uns mereçam mais que outros. A diferença é tão pequena! É claro que quaisquer benefícios são tão pequenos quanto elas, mas ainda assim...

Agora, ele esperava. Ele esperava que pensamentos mais agradáveis se aproximassem. Tinha, sim, alegrias. Alegrias proporcionadas principalmente, pelas pessoas que amava. Mas estas pessoas são as que mais podem te machucar, e ele sabe disso. A maioria de seus momentos de crise eram provocados por alguém que amava. Mas ele sabe que o amor é incontrolável.

Lembrou-se de um beijo dado a pouco tempo. Acha que está apaixonado. Lembrou-se de como voltou para casa andando através da noite, perguntando-se como alguém podia ser tão triste e tão feliz ao mesmo tempo.

Percebeu que as lágrimas já haviam secado. Os pensamentos que chegavam agora não eram agradáveis, embora dessem força para que sobrevivesse. Sabia que pessoas dependiam dele. Sabia que, ao menos por alguns, era amado, e quase não poderia controlar as lágrimas ao pensar na tristeza do olhar destas pessoas caso seu enterro fosse tão previamente realizado. Apesar disto, sabia que muito poucos o consolariam. Mas devia algo aos poucos que o fariam.

Lavou o rosto. Não foi o suficiente para eliminar as marcas que todas aquelas lágrimas haviam deixado. Os olhos estavam vermelhos o suficiente para denunciar o choro, mas já haviam chamado à porta do banheiro algumas vezes, e ele havia ficado feliz ao ouvir algumas das vozes que o haviam feito. Jogou mais um pouco de água no rosto, e enxugou-se depois. Abriu a porta, e sorriu ao ouvir o primeiro desejo de "feliz natal", e ao abraçar a primeira pessoa que o cumprimentou.

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