domingo, 1 de março de 2009

Cópia D'eu

Já tinha dito à mãe: Tira daqui essa porra de espelho!, Mas nada. O espelho ficara, e ele não agüentava mais o outro eu-ele encarando. Não podia olhar de lado não, sem que visse o infeliz cópia-dele, em quem ele não podia bater. Tentara uma vez, quando criança, e nunca mais, depois de se machucar do jeito que aconteceu. Cópia-dele o imitava irritantemente, fazendo valer o nome que lhe dera(embora o chamasse “reflexo” pra outros ouvidos). “Cópia-D’eu”, muito mais certo, por ser mais particular , tinha, do outro lado, tudo o que ele tinha daqui, e fazia o mesmo, ao menos quando ele olhava. Cópia-dele só não tinha aprendido as letras, e fazia tudo errado, ao contrário.

Um dia ele escreveu umas coisas e levou ‘pra frente do espelho, e começou a rir das coisas que Cópia-dele tinha escrito. Mas aí uma coisa estranha aconteceu. Cópia-dele começou a rir exatamente na mesma hora que ele. Os dois riram por pouco tempo por quê, bem rápido, ele começou a pensar que talvez Cópia-dele se achava certo. Mas e se fosse?

Pensou que, se cópia dele visse as letras ao contrário quando olhasse pro lado de cá, devia acabar achando que as letras dele, do lado de lá, é que eram as certas.

Mas e se fossem?

Ele e Cópia-dele eram iguaizinhos, mas não tinha em nenhum lugar nenhuma Bíblia que dissesse qual era o de verdade. E se fosse o outro?

E se Cópia-dele fosse o de verdade e ele fosse a cópia?

Percebeu que, do lado de lá, Cópia-dele pensava as mesmas coisas, pois tinha parado de rir também.

Foi aí que combinaram uma coisa.

Não puderam apertar a mão por causa do vidro que existe entre os de lá e os de cá, mas, cada um de seu lado, encostaram a mão aberta no vidro. Daí selaram o trato: nunca iam contar pra ninguém que o mundo de lá e o de cá eram mesmo dois, iam parar de se implicar, um não ia mais chamar o outro de Cópia, e eles nunca mais tocariam no assunto de que um só deles era de verdade.
Na verdade, eles não conversaram.

Mas já que as atitudes de Cópia-dele(que agora seria “O Outro”) eram iguais às dele, imaginou que ele devia pensar igual também. As atitudes do Outro, logo depois, confirmaram isso, e ele ficou feliz de ver o inimigo virar amigo.

Pena que aquele vidro infeliz não deixava um ir ajudar o outro.

Ainda teria um papo sério com aquele vidro.

Ô se ia!

Nenhum comentário: