segunda-feira, 30 de março de 2009

sensações

As musas são conhecidas por trazer inspiração, como responsáveis pelas grandes obras da humanidade. ou ao menos foram conhecidas um dia.

mas por que, eu pergunto sem usar letras maiúsculas ou acento já que o teclado deste computador não presta, por que as obras foram atribuídas a influencias externas de seres intangíveis? com certeza, por serem intangíveis, nunca foram percebidos. e o que levava a crer que existissem? o fato de que aquelas histórias existiam. mas o que levava as pessoas a sentirem o toque das musas?

talvez se acreditasse que o sentimento provocado pelas palavras de uma obra literária, ou pelo som de uma música, quando muito intenso ou tocante, teria que ser obra de uma musa que, intangível, usava aquele meio para deixar clara sua existência para os seres que não possuíssem sensibilidade para percebê-la.

ainda volto a esse assunto, em breve. preciso pensar mais a respeito.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Senhor

Não gosto de acordar cedo. Nunca gostei.

Os únicos motivos a que posso atribuir essa aversão são o fato de que gosto de dormir tarde, e uma certa possibilidade de que inconscientemente me revolte contra algo a que fui "obrigado" durante a maior parte de minha vida.

Mas hoje, não consegui dormir como normalmente. às seis da manhã estava de pé, sem querer.

Ainda assim, decidi que não dormiria mais. "Não hoje. Tenho coisas para fazer."

Fui à padaria, então, para comer alguma coisa. Fui mais determinado que de costume, como determinado estava a passar o dia acordado e a resolver o que tinha para resolver, ainda que o sono tentasse atacar a cada distração.

A manhã que raiava parecia me dar um pouco mais de energia. Agora, acordar de manhã, sem nenhuma obrigação a fazer que eu não estivesse determinado a fazer, parecia certo. A manhã parecia fazer sentido. Como se o despertar de um novo dia tivesse algum poder restaurador, que fosse capaz de despertar as minhas próprias energias que o sono tentava turvar. E isso só fazia aumentar minha vontade.

Caminhei no amanhecer frio, chegando a correr em parte do caminho. A padaria, que acabara de abrir, ainda não tinha o que eu procurava; aparentemente
só ficaria pronto mais tarde. Não quis esperar; comprei apenas a primeira coisa que me apareceu com recheio de doce-de-leite.

Quando fui pagar, algo no mínimo curioso aconteceu. A mulher que me atendia me chamou de "Senhor". Ela nunca fazia isso, e afinal, não é algo com o que estou acostumado; sou novo demais para que me chamem de senhor, e as pessoas dessa padaria, que eu freqüentava a tempos, nunca o haviam feito. Por um momento, pensei que podia ter sido um engano, mas depois acabei divagando a respeito.

Por quê ela se enganaria? Eu estava de short e uma camiseta do tipo que tem o símbolo de vários patrocinadores nas costas, e calçava um par de chinelos. Julgando pelas roupas, era mais fácil que ela me chamasse de "moleque" que de senhor. E a confusão não pode ter nascido do nada. Algo fez com que ela se confundisse.

Pensei a respeito, e concluí que havia apenas uma coisa diferente em mim; a determinação que havia em cada ato. Os olhos abertos, e a decisão que
parecia ser óbvia mesmo na mais simples afirmação, entregando a vontade através do tom. Não sei. talvez passe a aparência de uma certa maturidade. talvez (provavelmente)de modo inconsciente, ela percebeu, em minha linguagem corporal algo que indicava que ela devia me chamar de senhor.

Talvez não seja nada disso; mas deve ter um motivo, certo? e não sei o que mais poderia ser.

De qualquer jeito, prefiro pensar assim.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Isso não é um conto.

É Apenas uma reflexão, sobre algumas coisas que passaram na minha cabeça, conforme eu observava a minha estante de livros.
Assisti a um filme, e, como sempre faço no caso dos filmes desse diretor, li os "agradecimentos". Ele costuma a agradecer de um modo engraçado
a algumas pessoas, e no caso desse filme em particular, ele decidiu citar as pessoas cujo trabalho ou obras o influenciaram no fazer deste filme,
que é por ele considerado uma espécie de soma das influências que recebeu. Gostei de notar que tenho várias influências em comum com ele.

Me peguei imaginando como seria me encontrar com ele algum dia. Pensando em nossas conversas acerca dos gostos em comum que temos, que provavelmente
seriam bem interessantes. Nessa hora estava de pé, na frente de minha estante, imaginando que, provavelmente, lhe diria que eu sempre gostei de ver
em meus ídolos gostos parecidos com os meus. Nunca havia pensado a respeito, mas como imaginava uma conversa com ele, na qual lhe explicava isso
acabei inadvertidamente explicando para mim mesmo a causa desse gosto. Acredito que tem a ver com a admiração que sinto por certas obras.

Ver que tenho influências em comum com determinados artistas faz com que eu enxergue similaridades entre nós, e passe a ter ao menos um motivo a mais
para acreditar na possibilidade de que, algum dia, eu seja capaz de fazer uma obra que possa ao menos se aproximar da qualidade das obras
de meus ídolos. Nesse momento, olhei para dentro da estante na qual estava encostado, e observei os livros, ao invés de apenas vê-los. Claro, já
os conhecia, embora não tenha lido a todos. Todos (ou quase todos) conhecidos internacionalmente. Mas ainda assim, alguns autores que pouco
sobreviverão, no que diz respeito à longevidade de suas obras. Outros, já há muito mortos, e que ainda viverão por muito. E me perguntei aonde
vou ficar. Determinado estou; farei algo. Mas quanto vai durar? Sempre achei que deveria fazer o melhor que pudesse, sem me preocupar com esse tipo
de pensamento, mas sem esse padrão de comparação, será que terei ímpeto para chegar tão longe quanto posso? É verdade a velha idéia de que
você pode escolher tudo na vida, menos as coisas mais importantes?

P.S.: Para quem está se perguntando, o diretor é Kevin Smith, o filme é Dogma, e os gostos em comum são principalmente
Alan Moore, Douglas Adams, Tarantino e Neil Gaiman, e os gostos em comum com Neil Gaiman são Douglas Adams, Terry Pratchett e Dresden Dolls, e os gostos
em comum com Dresden Dolls...

quarta-feira, 11 de março de 2009

Natal

*em homenagem ao primeiro visitante de Natal que veio aqui, vou colocar essa, tirada da comunidade no orkut, e uma das coisas mais antigas que tenho


Se houvesse ali uma arma de fogo, ele se suicidaria.

Não era necessária, especificamente, uma arma de fogo. Tudo que queria era uma morte rápida. Cortar os pulsos e ficar parado, ouvindo as gotas de sangue caírem uma a uma, daria tempo para que ele rejeitasse a idéia, mudasse seus pensamentos, e o deixaria assistindo à própria morte depois de não mais desejá-la e não mais ter o poder ou tempo para evitá-la. Se uma arma de fogo estivesse a seu lado, atiraria na própria cabeça imediatamente. Se estivesse em algum lugar com altura suficiente, se jogaria e fecharia os olhos, talvez nu, para sentir o vento em seu corpo pela última vez. Mas não tinha. Não estava. Estava pateticamente trancado em um banheiro, sentado no chão, com lágrimas de frustração nos olhos.

Um dia, há algum tempo atrás, havia dito que jamais se suicidaria. Mas na época, não tinha que enfrentar os pensamentos que agora enfrentava. A consciência de inutilidade, o riso amargurado que sentia vontade de rir quando alguém parecia se pensar superior ou melhor que ele ou ao que realmente era, ao que fosse, como se estas mesmas pessoas não fossem igualmente insignificantes.

Andava nas ruas e percebia. Olhava para cada rosto, e via sorrisos, tristezas, amarguras e alegrias, sem conseguir evitar o pensamento em como aquelas pequenas alegrias eram passageiras e morriam facilmente. O quanto a batalha diária na vida, os sucessos como um "aumento de salário" ou uma "promoção" pareciam satisfazer a alma das pessoas, que os exaltavam como se fossem grandes coisas, acontecimentos, sem perceber que na verdade, estas eram apenas pequenas coisas que impediam que eles percebessem o quão fúteis são suas vidas, e como haviam fracassado na luta por seus sonhos. Pelo menos com a maioria das pessoas era assim.

Andava e percebia...

Ultimamente também havia recebido um aumento. Mas aquilo significava tão pouco. Antes de seu primeiro salário, já sabia que se alegrar muito por uma coisa como aquela não fazia sentido. É claro que possuir dinheiro é bom. Mas ter que possuí-lo para se sentir bem não é. E ele sabe disso. Mas prosseguia andando, com pensamentos obscuros já passando pela mente. Se ao menos as pessoas pudessem ver o quanto são insignificantes, se pudessem entender, poucas restariam no mundo. Os "líderes" mundiais se sentem superiores as pessoas "comuns", mas não sabem do que falam, ou o que podem fazer. O crescimento nunca será suficiente, pois sempre há coisas maiores, e ele sabe disso.

Alguns tentam acreditar que não são insignificantes, ou que são menos insignificantes, mas ele sabe que não é assim. "O bater de asas de uma borboleta pode provocar um furacão no outro lado do mundo"? Ele não duvida. Mas sabe que a destruição de um universo pode provocar muito mais. Mais que qualquer um jamais poderia. Sabe que o poder é limitado, mas que uma parte ínfima do poder existente ultrapassa o limite necessário para que ele e todos de sua raça sejam destruídos.

Pensava...

Ouvia os gritos vindos da casa ao lado agora. A discussão gritada alto o suficiente para ultrapassar as paredes do banheiro, que era a parte mais próxima da outra casa, não importava tanto, embora fizesse a atmosfera de crise se intensificar. Pensava... Pensava no que outras pessoas já haviam dito. Que existem milhões, bilhões de pessoas em condições piores que as dele. Mas as pessoas em sua maioria não conseguem perceber o que isto quer dizer. Ele se sente pior que as outras, porque elas não pensam como ele. Ele não quer dizer que sejam menos inteligentes, mas que pensam de modo diferente. Estas pessoas podem ter fome, doenças ou coisas parecidas. Mas agruras físicas não parecem ser tão importantes quanto as mentais, que o estão quase matando de um modo bem mais eficiente que as outras parecem ser capazes. E as dores mentais, psicológicas, são bem piores quando se é consciente da veracidade de suas razões.

Ele sabe que a depressão não é egoísta. Ao menos não a dele. Ele percebe que vale tão pouco quanto os outros, reconhece a diferença entre as pessoas, apesar de não acreditar que uns mereçam mais que outros. A diferença é tão pequena! É claro que quaisquer benefícios são tão pequenos quanto elas, mas ainda assim...

Agora, ele esperava. Ele esperava que pensamentos mais agradáveis se aproximassem. Tinha, sim, alegrias. Alegrias proporcionadas principalmente, pelas pessoas que amava. Mas estas pessoas são as que mais podem te machucar, e ele sabe disso. A maioria de seus momentos de crise eram provocados por alguém que amava. Mas ele sabe que o amor é incontrolável.

Lembrou-se de um beijo dado a pouco tempo. Acha que está apaixonado. Lembrou-se de como voltou para casa andando através da noite, perguntando-se como alguém podia ser tão triste e tão feliz ao mesmo tempo.

Percebeu que as lágrimas já haviam secado. Os pensamentos que chegavam agora não eram agradáveis, embora dessem força para que sobrevivesse. Sabia que pessoas dependiam dele. Sabia que, ao menos por alguns, era amado, e quase não poderia controlar as lágrimas ao pensar na tristeza do olhar destas pessoas caso seu enterro fosse tão previamente realizado. Apesar disto, sabia que muito poucos o consolariam. Mas devia algo aos poucos que o fariam.

Lavou o rosto. Não foi o suficiente para eliminar as marcas que todas aquelas lágrimas haviam deixado. Os olhos estavam vermelhos o suficiente para denunciar o choro, mas já haviam chamado à porta do banheiro algumas vezes, e ele havia ficado feliz ao ouvir algumas das vozes que o haviam feito. Jogou mais um pouco de água no rosto, e enxugou-se depois. Abriu a porta, e sorriu ao ouvir o primeiro desejo de "feliz natal", e ao abraçar a primeira pessoa que o cumprimentou.

domingo, 1 de março de 2009

Cópia D'eu

Já tinha dito à mãe: Tira daqui essa porra de espelho!, Mas nada. O espelho ficara, e ele não agüentava mais o outro eu-ele encarando. Não podia olhar de lado não, sem que visse o infeliz cópia-dele, em quem ele não podia bater. Tentara uma vez, quando criança, e nunca mais, depois de se machucar do jeito que aconteceu. Cópia-dele o imitava irritantemente, fazendo valer o nome que lhe dera(embora o chamasse “reflexo” pra outros ouvidos). “Cópia-D’eu”, muito mais certo, por ser mais particular , tinha, do outro lado, tudo o que ele tinha daqui, e fazia o mesmo, ao menos quando ele olhava. Cópia-dele só não tinha aprendido as letras, e fazia tudo errado, ao contrário.

Um dia ele escreveu umas coisas e levou ‘pra frente do espelho, e começou a rir das coisas que Cópia-dele tinha escrito. Mas aí uma coisa estranha aconteceu. Cópia-dele começou a rir exatamente na mesma hora que ele. Os dois riram por pouco tempo por quê, bem rápido, ele começou a pensar que talvez Cópia-dele se achava certo. Mas e se fosse?

Pensou que, se cópia dele visse as letras ao contrário quando olhasse pro lado de cá, devia acabar achando que as letras dele, do lado de lá, é que eram as certas.

Mas e se fossem?

Ele e Cópia-dele eram iguaizinhos, mas não tinha em nenhum lugar nenhuma Bíblia que dissesse qual era o de verdade. E se fosse o outro?

E se Cópia-dele fosse o de verdade e ele fosse a cópia?

Percebeu que, do lado de lá, Cópia-dele pensava as mesmas coisas, pois tinha parado de rir também.

Foi aí que combinaram uma coisa.

Não puderam apertar a mão por causa do vidro que existe entre os de lá e os de cá, mas, cada um de seu lado, encostaram a mão aberta no vidro. Daí selaram o trato: nunca iam contar pra ninguém que o mundo de lá e o de cá eram mesmo dois, iam parar de se implicar, um não ia mais chamar o outro de Cópia, e eles nunca mais tocariam no assunto de que um só deles era de verdade.
Na verdade, eles não conversaram.

Mas já que as atitudes de Cópia-dele(que agora seria “O Outro”) eram iguais às dele, imaginou que ele devia pensar igual também. As atitudes do Outro, logo depois, confirmaram isso, e ele ficou feliz de ver o inimigo virar amigo.

Pena que aquele vidro infeliz não deixava um ir ajudar o outro.

Ainda teria um papo sério com aquele vidro.

Ô se ia!

Tudo errado – (coisas que não se precisa dizer) - retirado da comunidade

O lugar estava vazio antes que ele chegasse. Vazio de gente. Uma cadeira, plataforma sustentada por quatro pernas de madeira quasenegra e com um apoio para as costas estava ali, junto a outras três de seu tipo. Cercavam uma mesa, estrutura semelhante a elas, mesma cor, maior plataforma, pernas mais grossas-longas e sem encosto.

O armário, marrom-mais-claro, mais alto, encostado na parede os olhava, sem olhos. Tinha pequenas pernas , que sustentavam três pequenos compartimentos. Sobre eles uma bancada(outra plataforma), sobre ela, dois suportes de madeira que se apoiavam em suas beiras, sobre eles, mais três compartimentos. Os três compartimentos inferiores tinham portas da madeira que fazia o resto do armário, enquanto os três superiores tinham portas que eram vidro emoldurado por madeira. Através do vidro se via, na primeira:copos, na segunda:
pratos, na terceira: tigelas.

A pia era de mármore. Sem pés, com um simples armário abaixo, cujas portas eram de correr. Encarava o outro lado da mesa, também sem olhos. As portas de seu armário eram de um marrom metálico. A própria pia, metálica. A torneira encurvada também. Escorredor branco, ainda vazio.

Tudo limpo e virgem. Os outros objetos, separados, pois havia uma plataforma(balcão) alta para servir bebidas e alimentos, e no caso, dividia a cozinha, local aonde eram feitas as refeições(nos dois sentidos). Dividia errado.

Era perceptível. Estava errado.

O mármore, madeira quasenegra, marromclara, e marrom-metálica. Mesa, pia, balcão(mármore) e armário. Não era tudo. Coisas faltavam. Estava tudo errado! Tudo puro, virgem, recém-feito(refeições), recém-nascido! E estava errado.

A geladeira, espécie de armário para esfriar, e o fogão, espécie de plataforma para esquentar(com fogo). Eles estavam do outro lado! O balcão era mármore puro e virginal, mas deixava os dois do outro lado! Como tudo pôde estar tão errado!?

Bastava fazer o balcão mais distante. A pia do outro lado. Fogão e geladeira deste.

Mas não. Não fizeram.

Fogão(marrom), geladeira(branca), pia, balcão. Estavam errados.

Estava tudo errado.