segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

"Censuras" ou "Bom coração"

Eu andava, à noite, pela minha cidade natal.

Em alguns trechos, próximos à minha casa(que era para onde eu voltava depois de uma festa com amigos), as ruas estavam completamente desertas, e pareciam estar ainda mais, auxiliadas pelo visual desolado que a falta de iluminação e os terrenos baldios davam ao lugar.

Essa falta de iluminação foi uma das coisas que atraiu minha minha atenção. Em luz do dia, eu não teria notado, mas naquela escuridão, a luz de um poste se acendendo a poucos metros de distância, sem nenhum motivo aparente, causa estranheza.

Eu não havia notado aquele poste antes, na verdade, mas estava passando por ali tão distraído que não poderia afirmar com certeza se ele sempre existira. Ao mesmo tempo, por mais que houvesse passado mil vezes naquela rua, definitivamente não saberia dizer aonde ela tinha postes e aonde não tinha. É uma dessas coisas das quais você simplesmente não se lembra.

Mas estou me desviando do assunto: o fato é que a luz do poste realmente se acendeu, me chamando a atenção imediatamente. Olhei naquela direção e me surpreendi ao ver um homem que se recostava no poste.

Seus trajes foram a primeira coisa a me chamar a atenção. Usava um terno vermelho-sangue, sobre uma camisa preta. A calça e a gravata borboleta, que juntamente com o par de sapatos pretos, completavam a imagem, eram também vermelhas. Não sei dizer porquê, mas me aproximei da figura aos poucos, até ser capaz de enxergar claramente seu rosto.

Sorriu.

O sorriso, acompanhado de uma expressão da mais pura malícia, congelou meu sangue imediatamente. Não falo isso como uma metáfora para medo extremo, mas sim, como uma metáfora para estado de choque, ou talvez seja melhor dizer: uma paralisia corporal completa. Como se o meu sangue houvesse realmente se solidificado, me impedindo de realizar qualquer movimento.

O sorriso me revelava dentes pontiagudos, com caninos proeminentes. Eu sabia quem estava ali. Talvez já soubesse antes de me aproximar. Não vou dizer o nome, pois confesso que depois da experiência me tornei mais supersticioso que era antigamente, mas imagino que a figura esteja espalhada pelo imaginário popular com suficiente clareza para que eu não precise chamá-la pelo nome. O fato é que, poucos segundos depois que uma língua bifurcada passou por entre os dentes pontiagudos, deslizando sobre o lábio com uma lentidão que me pareceu quase eternizar o momento, a criatura disse, com uma voz que não sou capaz de descrever:

"Peça."

"Pedir?", pensei, mas não falei. Ainda estava absolutamente paralisado. Minha mente, contudo, se movimentava a uma velocidade que raras vezes tivera. Pedir? Qualquer coisa? Uma vingança leve contra a senhoria da casa que eu alugava, cujo nome por algum motivo não conseguia lembrar, mas que me incomodava a meses? Dinheiro? O que pedir! De algum modo, todas as vezes que tentava me lembrar do nome de alguém contra quem poderia desejar algo, o nome não vinha. Apesar disso, os desejos que eu tinha para melhorar minha vida eram inúmeros, e apareciam com tanta clareza diante dos meus olhos que eu quase podia tocá-los. A casa dos meus sonhos, dinheiro para toda a vida...

Mas estes pensamentos foram interrompidos. A luz das imagens foi apagada.

O que imediatamente veio à minha mente foi uma espécie de medo. Aquela figura encostada, iluminada pela luz âmbar do poste, pouco mais alta que eu, apesar de algumas diferenças anatômicas assustadoras, antes que eu pensasse a respeito, era apenas uma figura.

Agora, ela indicava que tudo aquilo que me fora dito durante anos de infância e adolescência era verdade. Isso fazia com que, assim como as outras pessoas que não levam a sério esse tipo de coisa, eu estivesse destinado a um sofrimento que nunca poderia imaginar.

Pensei na minha capacidade de mudar, nas chances de me arrepender do que havia feito até agora. Pedir era garantir o final infeliz, mas ignorar a oferta provavelmente seria algo não muito inteligente, uma vez que o final feliz estava praticamente perdido, considerando quem eu era e a vida que havia levado até ali.

Eu, juntamente com tantas outras pessoas, estava completamente perdido. Me assustei com o pensamento. Algo em mim relutava. E de repente, percebi que meu sangue era líquido novamente. O medo ainda estava lá, mas agora eu conseguia movimentar meus membros. Então, eu corri.

Corri no momento em que cogitava pedir algo. Mas corri, e não pedi.

E hoje, estou com medo de atravessar a rua, e perceber que, na verdade, não existe nenhum poste lá;

Um comentário:

Thalyta França disse...

nhá!
li o anterior esse ainda aí, ainda não. tô com dor de cabeça, leio depois ;]
lê o meu e me diz.