sábado, 17 de janeiro de 2009

Cortando as unhas

Usando o alicate, cortou a unha do dedo indicador.

Como, por motivo que não saberia explicar, nunca havia feito antes, observou as rugosidades que havia na parte da pele que ficava mais próxima das articulações dos dedos. Verificou que existia nos dois lados do dedo, em todos os dedos das mãos. Abriu e fechou as mãos (não totalmente, mas como se tentasse fingir garras), e observou o efeito que isso tinha. A pele parecia mais lisa quando se fazia isso. Abriu a mão novamente, verificando que, com a mão aberta, ali se juntava uma certa quantidade de pele, o que provocava as rugas e fazia com que fosse possível pegá-la com facilidade. A parte interior dos dedos era o contrário: com as mãos fechadas é que se enrugava e pele se acumulava ali.

Ao pensar a respeito, lembrou-se dos joelhos e cotovelos, além, é claro, dos dedos do pé. Ainda havia cortado apenas a unha já mencionada, perdido nos pensamentos sobre os dedos, os mesmos dedos que tivera desde a infância. Pensava que para que eles funcionassem, seria preciso a quantidade certa de pele nos lugares certos, de modo que partes enrugadas se tornassem mais lisas dependendo do movimento que o corpo tomasse. Todas as formas que ele pudesse tomar naturalmente, não seriam demais para o invólucro que o continha.

Pegou-se pensando nos pêlos, mais naqueles de outros animais que nos dele próprio. Pelos e penas e asas e bicos e... muitas outras coisas. Como a natureza fazia tudo com perfeição, um ciclo que se expandia, incluindo inúmeras formas de vida diferentes, com características complexas e únicas, unindo tudo aquilo em um sistema no qual todos os seres se integravam e interagiam, afetando uns aos outros e transformando aquele ecossistema de um modo que chegava a ser incompreensível.

Ao mesmo tempo, cada um daqueles animais e coisas era formado por partículas mínimas, elas mesmas formadas por coisas ainda menores, invisíveis e desconhecidas, em um mundo completamente novo e infinitesimal, o infinito dentro do minúsculo, enquanto o mundo aonde aquelas criaturas recheadas de infinito viviam não passava de um minúsculo ponto invisível dentro daquele que talvez seja apenas um de vários universos.

Estava com o coração acelerado e os olhos arregalados, respirando profundamente. Tivera um breve vislumbre do infinito, ou ao menos, chegou tão perto disso quanto uma mente humana é capaz.

Abanou a cabeça, sem se lembrar exatamente como tudo aquilo acontecera.

Então olhou para sua mão novamente, e cortou a unha do dedo médio.

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