sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Utopia

Trezentos anos se passaram e, finalmente, seres humanos estabeleceram contato com outra
forma de vida inteligente.

O planeta, a mais de 1,5 milhões de anos luz da Terra, era o segundo de seu sistema solar, e
possuía uma atmosfera semelhante à nossa, de modo que podíamos permanecer lá sem a
necessidade de qualquer equipamento. Os habitantes do planeta pareciam ser inteligentes e, talvez
por haverem evoluído em um planeta parecido com o nosso, eram fisicamente muito semelhantes a
seres humanos.

Sem utilizar símbolos ou sinais que pudessem ser erroneamente interpretados, entregamos
uma mensagem, e por meses agimos de modo quase obediente, enquanto ajudávamos na tradução
da mesma, de modo que ambos os povos começavam a aprender a linguagem um do outro. Eles
também haviam descoberto os princípios das viagens interespaciais, ou melhor, um princípio, uma
vez que suas naves funcionavam de modo diferente das nossas. Nossos físicos, engenheiros e
matemáticos, de olhos cheios, ansiosamente agiram em prol do intercâmbio de tecnologias, e foi
pouco tempo depois que o problema surgiu.

Cerca de 100 anos antes deste episódio, os seres humanos haviam desenvolvido a Teoria
Unificada, uma teoria física que explicava o funcionamento de toda a existência, de quarks a
universos, finalmente se tornando capazes de desenvolver novas tecnologias baseados em uma
espécie de conhecimento concreto e universal. A partir deste ponto, foi possível que a tecnologia
das viagens interespaciais fosse finalmente encontrada. Assim fizeram também os Nils, como são
chamados; ambos os povos, apesar de separados por anos-luz de distância, haviam desenvolvido
leis universais, e tecnologias incríveis a partir das mesmas. Só havia, na verdade, um problema: as
leis eram diferentes.

A física, como é bem sabido, não pode ser completamente explicada por palavras simples;
incontáveis cálculos são necessários para que se encontre a grande solução a que cada um dos povos
chegou. Mas era fácil saber que as soluções eram diferentes pelo simples fato de que cada uma
previa a existência de um número diferente de universos.

Os físicos de ambos os planetas, repentinamente, se tornaram céticos a respeito da
tecnologia dos alienígenas. Mas como alguns sabiamente fizeram questão de ressaltar, os
estrangeiros haviam chegado até ali(na época já haviam naves de Nil na Terra) utilizando de
tecnologia desenvolvida a partir daqueles cálculos. Era improvável que uma destas duas físicas
fosse melhor que a outra em absolutamente todos os aspectos, sendo, então, quase certo que ao se
aprender o método que os estrangeiros utilizavam em seus cálculos, seria possível se obter avanços
em certas áreas.

Alguns físicos, de ambos os planetas, permaneciam céticos, enquanto outros – entre eles
alguns dos melhores – passaram a estudar com afinco os métodos utilizados pelos estrangeiros.
Cerca de vinte anos terrestres se passaram, até que uns pudessem dizer que compreendiam
totalmente a física dos outros. Destes, cerca de cinco anos foram gastos com experiências. Sob o
comando do brilhante físico terrestre Kingson, os humanos assistiam, assustados, ao sucesso da
física extraterrestre em cada teste. Tudo foi tentado. Cada hipótese que parecia capaz de provar que
um erro existia na física daquele planeta era exaustivamente testada. Enquanto isto, o líder dos Nils,
Vallians(numa tradução livre), fazia o mesmo, até que o inesperado por todos aconteceu; a
conclusão de ambos os pesquisadores foi a mesma; não havia um erro sequer em toda a enorme
série de cálculos de qualquer um dos povos.

Os físicos que de início haviam se mostrado céticos, tentavam desesperadamente se
atualizar. Poucos achavam que o time de físicos de ambos os planetas poderia estar completamente
errado, e aqueles que o faziam, necessariamente, precisavam conhecer a fundo a física estrangeira
para que pudessem ter alguma esperança de encontrar o erro até então ignorado, e possivelmente
inexistente. Dentre aqueles que já admitiam a realidade, a procura se voltava para um novo e
intrigante mistério: porquê? Os esforços persistiam em certos centros de pesquisas, envolvendo
pesquisadores de ambos os planetas. Foram efetuadas avaliações de eficiência de aparelhos
terrestres e nils, e apenas os melhores para cada objetivo foram selecionados. Aqueles
pesquisadores formaram um dos grupos mais eficientes da história. A mesma mente aberta que lhes
permitira acreditar na possível qualidade da física estrangeira, permitiu também que pudessem
enxergar as tecnologias que poderiam ser desenvolvidas a partir de suas pesquisas. Os
conhecimentos humanos e Nil se somaram, e a mistura de ambos resultou na criação de uma
espécie de cálculo mais avançado, gerando descobertas e tecnologias jamais antes imaginadas. Com
elas, os físicos conseguiram encontrar novos planetas habitáveis, porém desertos e, com a infindável
quantidade de mundos no universo, humanos e Nils não precisaram guerrear entre si por recursos,
não tendo assim nenhum motivo maior para lutas. A conclusão era simples: se todos pudessem
realizar viajens interestelares com facilidade, não faltaria espaço ou alimento jamais, lutas se
tornariam desnecessárias, e as pessoas poderiam se dedicar àquilo que as interessasse, de modo que
aqueles que se interessavam pelas descobertas da física poderiam se juntar aos pesquisadores, o
mesmo valendo para qualquer outra profissão ou hobby.

Não muito tempo depois, um artigo foi publicado; havia sido escrito por um filósofo, com
palavras simples, mas apesar de algumas inconsistências, muitos o consideraram como o mais
próximo à resposta pelos físicos procurada.

“Tudo é uma questão de perspectiva.” dizia o texto. “Cada povo cresceu e evoluiu em um
planeta diferente, de modo diferente, desenvolvendo assim, cálculos diferentes, uma vez que são
remotíssimas as chances de um desenvolvimento igual, ordenado como o nosso, surgindo em um
lugar abissalmente distante e extremamente diferente, na mais incrível coincidência. Cada física
estudada saiu de um ponto diferente, de modo diferente, e observou o universo de uma perspectiva
diferente. Um resultado diferente era de se esperar.”

O texto continuava por várias páginas, a partir desta idéia principal, impressionando os
líderes do centro de pesquisas interplanetárias, Kingson e Vallians. Em conjunto, prepararam um
texto a ser lido por Vallians na Terra, e por Kingson, em Nil, não sem antes conversar com os outros
membros da equipe de pesquisas, que concordaram, em sua maioria.

“Concordamos”, dizia um trecho do discurso, “com o fato de que, apesar de diferenças de
perspectiva, o resultado final deveria ser equivalente. Mas ao mesmo tempo, enxergamos a
evolução tecnológica que o intercâmbio de informações nos trouxe, acreditando assim, que o
intercâmbio de tecnologias poderia ser bem sucedido com seres de um terceiro, quarto, ou quinto
planeta que seja abrigo de vida inteligente, provocando, cada vez mais, a integração de diferentes
perspectivas, e o conseqüente desenvolvimento de novas tecnologias.”

“Nossos cálculos, como esta situação nos mostrou, funcionam apenas em seu próprio
contexto, o contexto que desenvolvemos para eles e a partir deles. Vamos, pois, integrá-los a novos
cálculos! Formaremos novas maneiras de pensar a partir da junção daquelas que conhecemos,
criando uma física melhor, mais avançada, e, talvez um dia, perfeita.”

domingo, 29 de novembro de 2009

"Eu lírico" ou "Contexto"

- Imagine um enfeite de natal.

- Sim.

- Bonito, só esperando o momento em que alguém vai acendê-lo. Pronto pra brilhar com uma beleza muito maior que a que tem agora.

- Sei, o que tem?

- Esse enfeite passa o ano todo esperando um enfeite específico. Aquele momento em que a casa estará cheia de alegria, amor, e essas coisas que vivem dizendo sobre o natal.

- Sei.

- E ele sabe que, por mais que sejam piegas, cafonas ou o que for as descrições, aquilo vai despertar algo novo nele. Tudo será lindo, como nos livros baratos e finais felizes de filme. Ele está esperando por esse momento. É isso o que ele mais anseia.

- Ahã.

- Mas então, uma coisa dá errado.

[...]

- uma coisa dá errado.

- O quê?

- No meio do ano(talvez um pouco antes, em maio), alguém tenta acender o enfeite, pra ver se ligado ele fica tão bonito quanto dizem.

[...]

- E sabe o que acontece?

- O quê?

- Nada. Ele não acende. Outras pessoas tentam, mas não dá em nada. O enfeite continua apagado. Ele se pergunta se a culpa é dele. Se há alguma peça queimada, algo essencial errado nele. "Por quê?", ele pergunta, e não sabe responder. Queria tanto que alguém fizesse com que as luzes acendessem, mas ninguém parece ser capaz.
Então ele espera. Afinal, é só um enfeite, não pode fazer nada. Ironicamente, passa as noites em claro, sentindo-se completamente impotente.

- Coitado.

- É. Mas ele ainda espera. Tem esperança, entende? Mas enquanto espera, e o tempo que tem pra esperar vai acabando, ele vê crescendo o seu maior medo.

- O quê?

- Que um dia, não haja mais ninguém para tentar e, esquecido, ele seja jogado numa caixa de velharias, em um porão, maleiro, ou armário velho qualquer.

- Nossa...

- Pois é.
Triste, não?

- Muito. E falando nisso, você também parece triste. Aconteceu alguma coisa?

- Ah, não é nada. Acho que eu só queria alguém com quem pudesse ter essa conversa.

Flores cinzentas

Haviam potes de vidro estampados com flores amarelas empilhados em um canto da loja, e uma velha senhora, sentada atrás de um balcão, esperava que alguém entrasse.

Ela não entendia porquê estava vendendo tão pouco. As pequenas peças de decoração, os bonitos quadros(a maioria de natureza morta), as vasilhas e os vasos. Quase tudo permanecia lá. Provavelmente, não conseguiria sequer pagar o aluguel daquele cômodo, e sabia disso, emboaa preferisse tentar não pensar.

Como tudo seria mais fácil se seu filho ainda estivesse com ela! Nunca entendeu como ele pôde deixá-la daquele modo. Ela era sua mãe; cuidara dele por toda a vida, e agora ele a abandonava, como se ela houvesse se tornado um fardo que ele não se dispõe a carregar, mesmo que ela o tenha carregado por tanto tempo. Tudo havia ficado muito mais complicado. Desde que o marido morrera então…

Não! Melhor não pensar nisso. Melhor enxugar as lágrimas antes que algum cliente entre, e veja. Mas nenhum cliente entrava. Ela tinha que se esforçar, tinha que vender os produtos da loja na qual investira toda a herança deixada por seu marido; tinha que fazer render suas únicas posses. Tinha que multiplicar seu pouco dinheiro.

Mas ninguém entrava.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

aqui deveria ter uma outra crônica

Juro. mas esqueci completamente o que ia escrever.

se eu me lembrar eu coloco aqui...

Crônica

Hoje, andando para meu trabalho, ouvindo música e pensando em coisas das quais mal me lembro, vi um cachorro, poucos metros adiante. Ele cheirava os canteiros de flores da porta de uma casa, e parecia procurar comida; imaginei que fosse algum cachorro perdido, ou abandonado por seus donos.

Acho que uma das coisas que me chamou atenção nele foi que uma parte de seus pelos brancos estava suja de algo que parecia sangue; talvez fosse apenas terra avermelhada, mas parecia sangue, e ainda acredito que era.

Imaginei o que teria acontecido. Aquele cachorrinho pequeno e branco entrara em uma briga com algum cahorro maior, ou acontecera alguma outra coisa? E o que era aquilo, que eu de repente vi, que parecia estar pendurado em seu pescoço?

Conforme me aproximei, percebi: era uma gravatinha. Uma pequena gravata na qual imaginei perceber um tom de azul, mas que estava tão puída e descolorida pelo tempo e intempéries, que não me deixava ter certeza de que aquilo era, realmente, azul.

Aquilo confirmava minhas suspeitas: o cachorrinho tivera um dono. Se este dono o abandonara, ele fugira, ou algum mal entendido acontecera, não sei; mas certamente ele já tivera um dono, que provavelmente gostava dele, para vesti-lo com aquela gravatinha.

Continuei pensando no cachorrinho por mais um tempo, mas a conclusão a que cheguei depois de refletir a respeito acabou me perturbando um pouco:

acho que, de início, pensei que o cachorro não era de rua, e já tivera um dono, só porque ele era um poodle.

terça-feira, 21 de julho de 2009

(coisa antiga da comunidade. preguiça de procurar outras coisas lá... )

A chuva bate na janela, ás vezes suavemente, ás vezes com força, enquanto eu escrevo.

Ou tento escrever.

Consigo apenas formular pensamentos malfeitos e idéias tortuosas a respeito de você.

Você não está comigo. Minha música não está soando, ouço sons mas eles só me dizem que eu não tenho a mínima chance.

Quanto tempo levei para perceber toda sua beleza? Você esteve a meu lado por tanto tempo, e justo quando eu estou quase indo embora, eu percebo você, te quero, e você não pensa em mim, ou não sei.

Coisas que ainda ontem me fizeram rir, hoje parecem apenas amargas. Sons sem sentido, palavras sem significado, lembretes da sua existência, superior a cada um dos problemas, palavras, sons, poemas e músicas.

A maneira como seus cabelos que mal toquei e talvez nunca volte a tocar caem, seu jeito de sorrir quando está envergonhada, meu jeito envergonhado quando você sorri de algo que digo, minha mente que perde todo o sentido quando sente você se aproximando, você que sente, o quê?, quando me vê.

Eu não conheço você como gostaria e acho que nunca vou conhecer, sinto falta dos momentos que nunca passamos juntos, e tenho medo de que eles nunca venham a existir.

Minha imaginação vaga e eu a obrigo a voltar, tenho medo de estar em pouco tempo, onde o arrependimento e frustração colidem, arrependido por não tentar, frustrado por não ter conseguido nem isso.

Espero nunca ter que passar por este momento; esperaria por você, mas não ouso esperar tanto.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Ninguém

- Cara, você não acredita.
- O que foi?
- Ela terminou comigo.
- Terminou?
- Sim.
- Ah.
- Obrigado pela solidariedade.
- Ha. Olha, eu não devo solidariedade alguma, tá bom? Você nunca foi solidário comigo.
- Você já precisou?
- É lógico.
- Não percebi.
- Eu sei.
(silêncio, por alguns segundos)
- Aconteceu alguma coisa?
- Não.
- Então o quê...
- Esse é o problema.
- O quê?
- Nada acontece. Eu estou sozinho.
- Como assim?
- Em todos os sentidos.
(o amigo parecia desconcertado agora. tinha praticamente esquecido a história que pretendia contar)
- Fala comigo, cara.
(o primeiro suspirou)
- Sabe como a maioria das pessoas que você conhece já sofreu, ou desejou ardentemente alguém?
- Sim, o que tem?
- A maioria já namorou, e já se apaixonou?
- Sei, sei, e daí?
- Eu não.
- Você não?
- Não. Nunca me interessei por ninguém. Nunca me apaixonei... e você não tem idéia de como isso é triste.
- Mas se é assim... você nunca sofreu por alguém.
- Ha! Bem falado. Sofri por não ter ninguém. Por ver todos ao meu redor apaixonados... por ver que simplesmente não há ninguém no mundo que me entenda... que possa ser minha outra metade.
(um pouco mais de silêncio. o amigo olhava, um pouco assustado para o que era uma faceta inteiramente nova de uma pessoa que ele conhecia a tanto tempo)
- Mas não se preocupe cara.
(colocou o braço em volta do amigo)
- Ela está aí em algum lugar.

O primeiro sorriu. era um sorriso meio triste, mas era alguma coisa.

Mais tarde, chegaram alguns amigos. Mas ele ainda estava sozinho.

sábado, 27 de junho de 2009

Coelho

Hoje aconteceu algo estranho.

Saí de casa, depois de almoçar, para buscar o pote de sorvete que tinha prometido aos meus filhos, e esquecido.

Não precisava de carro porquê a padaria ficava no mesmo quarteirão de minha casa, mas no outro lado. Era só virar para direita duas vezes, que estava lá. Mas quando eu abri a porta de casa, fiquei surpreso ao ver que, parado bem em frente à porta do meu carro, havia um coelho.

O coelho olhava bem na minha direção, com seus olhos vermelhos. Mais que isso, ele olhava bem em meus olhos, quase como se estivesse me encarando, comportamento que eu não pude deixar de achar estranho vindo de um coelho.

"Anda logo, pai!" foi a frase que me fez perceber que eu estava parado, olhando para o coelho sem continuar fazendo o que devia estar fazendo. Fechei a porta, a tranquei, e comecei a caminhar para a direita.

Olhei para trás, logo depois dos primeiros passos. O coelho me acompanhava com o olhar. E de repente, andou um pouco.

Bem devagar, o coelho começou a se aproximar. E por algum motivo isso me inspirou um medo crescente. Comecei a andar cada vez mais rápido. Estava quase correndo quando virei a esquina, quase trombando com o carteiro, que passava.

Isso me tranqüilizou um pouco. O coelho não estava mais à vista. Comecei a andar um pouco mais devagar. Quando havia caminhado metade do caminho até a outra esquina, porém, avistei, alguns metros à frente, o coelho.

O mesmo pelo branquinho, e olhos vermelhos que me encaravam, alguns metros à frente. "Mas isso é impossível!", pensei. "Não tem como ele ter dado a volta tão rápido!". Mas o coelho estava inegavelmente ali. Repentinamente, tomado por alguma espécie de instinto, olhei para trás. Ali estava a explicação: o coelho à minha frente era outro coelho, idêntico ao primeiro.

Os dois me encaravam incessantemente, e se aproximavam aos poucos. Um "passo" de cada vez, naquele andar peculiar dos coelhos, que parece um pequeno salto. Um passo, paravam. Um passo, paravam. E lentamente, se aproximavam cada vez mais de mim.

Agora eu não sabia o que fazer. Acho que entrei em pânico. Os dois coelhos se aproximavam e eu estava assustado com tudo aquilo. Que comportamento estranho para coelhos! Não resisti à pressão, e atravessei a rua.

Ali, os coelhos não tinham coragem de me seguir. Mas conforme eu seguia pelo outro quarteirão, os coelhos andavam, sempre, na mesma direção que eu. Se mantinham, do outro lado da rua, na mesma altura do quarteirão em que eu estava, e mesmo daquela distância, continuavam me olhando.

Eu já estava planejando atravessar a rua correndo, vencendo os coelhos pela velocidade, quando, do pet shop que havia ao lado da padaria onde eu iria comprar o sorvete, saiu uma mulher, com uma gaiola.

"Ah, aí estão vocês!", disse, e pegou os coelhos, colocando-os um de cada vez na gaiola. Enquanto eu estava ao alcance, os coelhos ainda me olhavam; mas agora não podiam mais me seguir.

Aliviado, comprei o sorvete, e voltei para casa. Minha mulher e filhos repararam meu estranho silêncio, mas eu simplesmente não conseguia me concentrar na conversa.

Naquele dia, à noite, joguei fora o pé de coelho que guardava desde a infância. Nunca se sabe.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

A Vida nas Cruzadas

Ele se sentou, segurando na mão esquerda a página do jornal aonde estavam as cruzadinhas e na mão direita uma caneta, uma xícara de café. Ajeitou-se na cadeira, esticou o braço que segurava a caneta como se fizesse um alongamento, e a segurou, pensativamente, do modo como as pessoas fazem quando querem que os passantes que as vejam pensem que são mais inteligentes do que realmente são. Tecnicamente, se ele estivesse em casa, estaria todo largado. Estava em uma mesa em uma livraria, com o café esfumaçante sobre a mesa. Ele não imaginava que aquilo seria tão mais interessante que o normal para um joguinho de palavras.

Resolveu começar no número treze, vertical. "Nome de solteiro de sua mãe". Ele respondeu. Pensava, também, no filme que havia assistido mais cedo. Bebeu um pouco do café, e resolveu tentar fazer alguma das palavras que se cruzavam com esta. "Nome do time cujo uniforme há uma pessoa vestindo à sua frente". Havia ali um jovem, com uma camisa do flamengo. Ele se voltou para as palavras. Estava na letra N (que era aonde as duas palavras se cruzavam) quando, repentinamente, parou. Um observador imparcial que naquele momento se concentrasse nele - como um narrador que contasse sua história - teria visto sua cabeça se levantar, com um olhar interrogativo, que passava a impressão de que aquela situação simplesmente não se encaixava. Leu novamente as perguntas, e completou a palavra "flamengo", se certificando assim de que ela realmente se encaixava ali. Um pouco de café depois, e ele havia elaborado uma teoria para explicar o que estava acontecendo. Aquela edição do jornal havia tentado pregar uma peça em seus leitores e a mais pura coincidência havia colocado a camisa do flamengo ali, e a palavra cruzando com o nome de sua mãe no lugar certo. Era extremamente improvável, é verdade, mas entre improvável e
impossível, o improvável ganhava com folga. Ainda assim, de fato era um improvável tão difícil de acontecer que fazia com que ele se sentisse tentado a provar o impossível. Decidiu preencher, ao menos, mais duas palavras que se cruzassem com as quais já havia preenchido. Uma que se cruzasse com flamengo, e uma que se cruzasse com o nome de sua mãe.

Onze vertical: "nome do livro à extrema esquerda na estante atrás de você."

Ele se virou. Uma funcionária da livraria estava retirando exatamente este livro da estante. Aparentemente alguém o colocara ali erradamente. Ela estava saindo. Ele a alcançou. Nem precisou pedir seja o que for, pois haviam chegado ao mesmo tempo à estante aonde o livro deveria estar. Se ela estivesse na rua, provavelmente acharia que alguém que se aproximava daquele forma queria assaltá-la, mas ali, estava tranqüila, fazendo o que todos que trabalham em atividades mecânicas fazem: pensando em outra coisa.

Ele, como era de se esperar, não notou nada a este respeito. Apenas viu o livro que procurava. Era "Assim falou Zaratustra", e imediantamente preencheu a cruzadinha com a nova informação. O M da palavra "assim" se cruzava com o M de flamengo, e o título do livro se encaixava perfeitamente ali. Voltou à estante aonde o livro estava no início, e verificou se o livro da extrema esquerda não se encaixava na cruzadinha. O nome era completamente diferente, e o fato só fez com que ele pensasse que, pelo que podia perceber, a palavra a ser colocada na cruzadinha era a que respondia à pergunta no exato momento em que ele a lia. Assim que percebesse que precisava fazer algo, deveria fazer, ou acabaria chegando a uma conclusão errada. Foi quando interrompeu essa cadeia de pensamentos, por pensar que ela era, realmente, imbecil. Não tinha como a resposta de uma cruzadinha mudar com o tempo. É claro que ao mesmo tempo, não era possível que a cruzadinha se baseasse em respostas pessoais, ou efêmeras. Tinha que ser algo de conhecimento geral, e que não mudasse a cada quinze minutos. Já estava sentado na cadeira novamente, e fez sinal para que o garçom trouxesse mais um café. Aquele já havia esfriado.

O garçom veio, e trocou aquela xícara por uma nova. Parou ao ouvir o estranho homem ali sentado chamá-lo, com uma certa urgência na voz. O garçom com certeza estranhou o fato de que o homem perguntou seu nome, sem nenhum motivo aparente. O homem, depois de ver a expressão no rosto dele, pensou a este respeito, e percebeu que, não pela primeira vez, estava agindo de modo estranho, algo que a grande maioria das pessoas tende a chamar de "fazendo papel de palhaço" ou de outras frases para as quais em geral não há um equivalente formal que se encaixaria no estilo desta narração e, ao mesmo tempo, transmitiria a idéia com a contundência necessária. Mas agora o homem já não se importava com isso. O primeiro nome do garçom se encaixava perfeitamente na cruzadinha, na horizontal, cruzando com o nome de sua mãe. Aquela cruzadinha, de algum modo, funcionava, apesar de toda a improbabilidade. Ele decidiu que, se fosse realmente completá-la, teria que aceitar sua estranheza, e começar a ignorar a impressão que poderia causar ao tentar resolver algumas das perguntas.

Dezenove, vertical: "Primeiro nome da mulher à sua frente"

Determinado, completara os primeiros dezoito, respondendo a perguntas que, por vezes, exigiam certa manutenção. E agora, dezenove: encontrava uma mulher incrível. Do tipo que não passa o nome para o primeiro idiota que perguntar. Viu uma prancheta sobre uma estante de livros, e a pegou. Uma funcionária desperdiçou cerca de quinze minutos de seu tempo a procurando mais tarde, mas isto é irrelevante para esta história. Ele resolveu que, se quisesse descobrir o nome daquela mulher não seria tão simples quanto chegar perguntando. E com certeza não seria pior que a velhinha do 15 horizontal, que, quando questionada sobre que livro estava lendo, achou que havia algum interesse a mais por parte dele. Não seria tão difícil convencer a loira.

Não foi mesmo. Ela disse o nome quando ele perguntou, e também o telefone, informações que ele anotou com o auxílio da prancheta. Quando ela viu, alguns metros a diante, que ele havia deixado a prancheta sobre uma estante, percebeu que o que havia nela era um jornal e o viu sair andando calmamente, precisou pensar um pouco na situação, mas não fez nada no momento.


Ele estava realmente realizado. Um tipo de realização que você não sente ao terminar uma cruzadinha comum. A livraria ficava no interior de um shopping e, felizmente, nenhuma das questões o fez sair de dentro dele, embora tenha assustado algumas crianças no cinema e, pela primeira vez na vida, roubado uma revista de alguém (experiência que ele admitiu ser levemente emocionante). Esta, de acordo com o que pensaria depois, havia sido a coisa mais ousada que fez. Talvez, nesse quesito, equivalesse a perguntar o nome da mulher do dezenove vertical, com um boné de funcionário da livraria, segurando uma prancheta e agindo como se estivesse fazendo uma pesquisa sobre os clientes do lugar. Quando pensou nisso, teria rido em voz alta, se a mesma mulher que freqüentava este pensamento e a livraria aonde agora estava não o houvesse cutucado, de leve, nas costas, quase provocando um ataque cardíaco no rapaz.

Ela não sabia muito bem por onde começar. Havia começado a andar em direção a ele, querendo saber o que aquele estranho queria com o nome e o telefone dela, quando o viu se sentar ao lado de um senhor, já idoso, e espiar algo na revista que este mesmo senhor estava lendo, para anotar depois em seu jornal. Ficou curiosa com aquilo, e sem perceber, passou a segui-lo. Testemunhou um comportamento absolutamente incomum por parte dele, e ao ver que ele parecia ter parado de fazer coisas estranhas e anotar algo em seu jornal em seguida, criou coragem para ir até lá e lhe perguntar que diabos ele estava fazendo.

Ele riu, e disse que explicaria, mas estava morrendo de fome. Ela poderia ouvir enquanto ele tomava um café. Assentindo, ela o acompanhou, e com certa relutância, começou a resolver a cruzadinha que ele lhe empurrara. Até que ela parou e olhou para ele, que a vigiava com um sorriso no rosto.

- Coragem! - disse ele – Eu sei que parece estranho, mas com um pouco de esforço você consegue.

E então, os dois passaram a resolver a segunda cruzadinha juntos.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Paixão

Duas mães conversavam, em uma pracinha.

Já que ambas haviam se tornado mães recentemente, decidiram que fariam esse passeio juntas. Colocavam as crianças em seus carrinhos, e as empurravam por ali, conversando.

Mas nesse dia, porém, a conversa não era tanta. Uma das crianças chorava incessantemente.

As mães tentavam entender, mas ele ainda era tão pequeno que não conseguia se levantar nem um pouco no carrinho e ficava tentando de todo modo alcançar o balão vermelho que podia ver dali.

Ninguém percebia que ele tentava esticar os bracinhos, em um movimento não muito efetivo nem perceptível, na direção do balão.

As duas mães o cercaram, tentando entender o motivo da tristeza, e não perceberam que ele simplesmente queria o balão que não podia ter. O balão estava perto, pois estava amarrado no outro carrinho. Mas ele o queria ali, em sua mão. E não conseguia. Tudo porquê o balão estava amarrado no outro carrinho, que agora se distanciava.

Quando voltou pra casa ainda estava chorando.

domingo, 14 de junho de 2009

carta de suicídio

Sentado, Emerson Siqueira escrevia um conto que deveria estar em seu próximo livro.

Era o terceiro livro que publicaria. Não havia vendido muito os primeiros, mas gostava do que fazia, e continuava.

O conto, porém, oferecia grande dificuldade. O final era esquivo, e ele não conseguia ficar satisfeito com o início. O meio teria de se adaptar a essas duas coisas, e ele estava cansado.

Foi nesse momento que ligou o som, e começou a ouvir uma música na rádio.

A música era antiga, mas muito bonita. A letra, melhor que qualquer conto ou poesia que ele jamais escrevera. e ele parou.

Naquele momento chegara a uma terrível conclusão.

Olhou para sua estante, preenchida com os livros dos grandes mestres literários de seu tempo e de tempos antigos, e percebeu que jamais estaria à altura deles.

Para se tornar um grande, ele sabia, não bastava esforço. Era necessário gênio, talento natural. e o que possuía, definitivamente não bastava para superar aqueles escritores.

Levantou-se então, em estado de choque.

Que significado poderiam ter suas obras, pensava, quando não eram as melhores? Sua única função seria engrossar a massa de trabalhos razoáveis que fazem a glória dos superiores. Seria apenas "mais um". O trabalho de sua vida, pensou enquanto retirava a arma da caixa de sapatos onde a escondia, não era nada. Era insignificante. E ele não podia fazer nada.

A diarista encontrou seu corpo pela manhã.

quebra-cabeças(alpha)

Ás vezes a gente simplesmente se sente estranho, e é como se não soubéssemos o que dizer, as coisas estivessem fora do lugar e as pessoas simplesmente não se encaixem.

Você procura seu lugar naquele pedaço de mundo, que é o mesmo que foi ontem, e no dia anterior, mas hoje não parece estar lá. Como se o panorama que representa um perfeito céu azul tenha, bem no meio, um espaço vazio, onde você deveria se encaixar; mas você e aquele espaço não tem o mesmo formato. Sendo assim, você é obrigado a olhar à distância, e como o panorama é agora incompleto, não parece mais tão bonito quanto foi nos dias em que você estava lá.

Mas algumas vezes você percebe, no meio das outras peças que parecem se encaixar tão bem, uma que faz você querer se encaixar também.

É uma situação complicada, abandonar o conforto da solidão, e você fica confuso, fala coisas erradas. Comete os erros que por vezes acontecem quando se tenta, meio sem saber, meio sem pensar, mas não se quer deixar de tentar.

E de repente você quer ficar perto daquele pequeno e lindo trecho de paisagem; aí você se enfia de qualquer jeito no espaço vazio e decide que vai tentar se juntar.

Mas tem que ser bem ali do lado.

P.S.: Não dá pra ficar bom com interrupções toda hora! mas eu queria postar algo aqui... depois dou uma melhorada no texto.

domingo, 31 de maio de 2009

Não sei o que escrever.

Ouvindo as músicas de Tori Amos, que de algum modo parecem se encaixar perfeitamente com o modo como me sinto, que é algo que eu não saberia explicar.

Ouço as músicas num volume um pouco baixo, para que eu também possa ouvir o barulho da chuva contra o chão de fora do meu quarto.

E sei que quero escrever algo. Qualquer coisa.

Mas não sei o quê.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Feliz dia da toalha!

Não, eu não morri.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Estamos brigados.

Estamos brigados.

Por um motivo banal, e um tipo específico de coisa que me chateia muito.

Foi nosso aniversário de namoro, semana passada. Um ano de namoro, e tudo,
embora não estivesse perfeito, parecia bem. Eu, que tenho o hábito de escrever textos que ela diz serem lindos, escrevi algo para ela, como presente. Quase vinte páginas de dedicação, uma vez que sempre fui mais dado a obedecer à súbitas inspirações que escrever sobre alguém ou algum assunto escolhido antecipadamente. Ela sabe disso.

Mas quando viu o texto, ficou chateada.

Levei um tempo para compreender exatamente qual era o problema.

Depois percebi, ainda que tenha levado um tempo para aceitar a idéia, que ela havia se decepcionado pelo fato de que, para presenteá-la com aquele conto, eu não precisei gastar dinheiro.

Triste, notei que ela não estava nem um pouco satisfeita, embora tentasse fingir. Ainda que o relógio que ela me dera agora parecesse pesar no meu pulso com uma espécie de vergonha que eu sabia que não precisava ou deveria ter, o que mais me doía era o fato de que ela, antes mesmo de ler se decepcionou, ainda que soubesse que aquele era o meu único texto dedicado a alguém, e um dos maiores contos que já havia escrito, além do único fruto de uma inspiração apaixonada entre minhas obras.

Decepcionados um com o outro, terminamos a noite de modo mais frio que qualquer de nós esperava. Eu esperava que ela, pelo menos, começasse a ler o que eu havia escrito. Torcia para que, conforme seus olhos andassem de palavra em palavra, fossem aos poucos adquirindo o brilho que tinham quando ela estava alegre, ou emocionada. Mas isso não aconteceu. A deixei em casa, chateado, e ela, chateada, provavelmente nem sequer chegou a ler.

No dia seguinte, decidimos dar um tempo. Eu era o mais triste, mas não sei se ela percebeu. Nossa relação não era perfeita, mas eu não imaginava que fosse tão imperfeita, a ponto de cair desse modo, como se o acidente fosse ocasionado por uma falha fatal na fundação, que estava ali desde o início. Não sei o que se passava na cabeça dela, mas eu não gostava de pensar que ela havia se decepcionado tanto com o fato de que, ao invés de gastar dinheiro para presenteá-la, gastei dedicação e um longo tempo, durante o qual pensava nela incessantemente, e tentava deixar naquelas folhas a combinação de palavras e frases mais bela que eu podia conceber. Meus dias de esforço seriam superados por alguém que, ao observar um par de sapatos em uma vitrine, se lembrasse dela por alguns segundos, e deixasse que a vendedora escolhesse a embalagem que achasse mais bonita, para que ele não precisasse se dar ao trabalho de fazê-lo.

Me pergunto se ela leu o que escrevi. Penso em como ela reagirá, ao ler. Será que vai perceber o quanto me dediquei, enxergar a beleza naquela história, que eu talvez veja apenas por ser seu autor, e entender a paixão que me levou a escrevê-la? Será que decidiria voltar?

Me pergunto também se eu a aceitaria de volta. Não apenas decepção, um desapontamento com o tipo de pessoa que ela mostrou ser, e eu não sabia que era, mesmo depois de um ano.

Acho que não teremos futuro.

segunda-feira, 30 de março de 2009

sensações

As musas são conhecidas por trazer inspiração, como responsáveis pelas grandes obras da humanidade. ou ao menos foram conhecidas um dia.

mas por que, eu pergunto sem usar letras maiúsculas ou acento já que o teclado deste computador não presta, por que as obras foram atribuídas a influencias externas de seres intangíveis? com certeza, por serem intangíveis, nunca foram percebidos. e o que levava a crer que existissem? o fato de que aquelas histórias existiam. mas o que levava as pessoas a sentirem o toque das musas?

talvez se acreditasse que o sentimento provocado pelas palavras de uma obra literária, ou pelo som de uma música, quando muito intenso ou tocante, teria que ser obra de uma musa que, intangível, usava aquele meio para deixar clara sua existência para os seres que não possuíssem sensibilidade para percebê-la.

ainda volto a esse assunto, em breve. preciso pensar mais a respeito.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Senhor

Não gosto de acordar cedo. Nunca gostei.

Os únicos motivos a que posso atribuir essa aversão são o fato de que gosto de dormir tarde, e uma certa possibilidade de que inconscientemente me revolte contra algo a que fui "obrigado" durante a maior parte de minha vida.

Mas hoje, não consegui dormir como normalmente. às seis da manhã estava de pé, sem querer.

Ainda assim, decidi que não dormiria mais. "Não hoje. Tenho coisas para fazer."

Fui à padaria, então, para comer alguma coisa. Fui mais determinado que de costume, como determinado estava a passar o dia acordado e a resolver o que tinha para resolver, ainda que o sono tentasse atacar a cada distração.

A manhã que raiava parecia me dar um pouco mais de energia. Agora, acordar de manhã, sem nenhuma obrigação a fazer que eu não estivesse determinado a fazer, parecia certo. A manhã parecia fazer sentido. Como se o despertar de um novo dia tivesse algum poder restaurador, que fosse capaz de despertar as minhas próprias energias que o sono tentava turvar. E isso só fazia aumentar minha vontade.

Caminhei no amanhecer frio, chegando a correr em parte do caminho. A padaria, que acabara de abrir, ainda não tinha o que eu procurava; aparentemente
só ficaria pronto mais tarde. Não quis esperar; comprei apenas a primeira coisa que me apareceu com recheio de doce-de-leite.

Quando fui pagar, algo no mínimo curioso aconteceu. A mulher que me atendia me chamou de "Senhor". Ela nunca fazia isso, e afinal, não é algo com o que estou acostumado; sou novo demais para que me chamem de senhor, e as pessoas dessa padaria, que eu freqüentava a tempos, nunca o haviam feito. Por um momento, pensei que podia ter sido um engano, mas depois acabei divagando a respeito.

Por quê ela se enganaria? Eu estava de short e uma camiseta do tipo que tem o símbolo de vários patrocinadores nas costas, e calçava um par de chinelos. Julgando pelas roupas, era mais fácil que ela me chamasse de "moleque" que de senhor. E a confusão não pode ter nascido do nada. Algo fez com que ela se confundisse.

Pensei a respeito, e concluí que havia apenas uma coisa diferente em mim; a determinação que havia em cada ato. Os olhos abertos, e a decisão que
parecia ser óbvia mesmo na mais simples afirmação, entregando a vontade através do tom. Não sei. talvez passe a aparência de uma certa maturidade. talvez (provavelmente)de modo inconsciente, ela percebeu, em minha linguagem corporal algo que indicava que ela devia me chamar de senhor.

Talvez não seja nada disso; mas deve ter um motivo, certo? e não sei o que mais poderia ser.

De qualquer jeito, prefiro pensar assim.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Isso não é um conto.

É Apenas uma reflexão, sobre algumas coisas que passaram na minha cabeça, conforme eu observava a minha estante de livros.
Assisti a um filme, e, como sempre faço no caso dos filmes desse diretor, li os "agradecimentos". Ele costuma a agradecer de um modo engraçado
a algumas pessoas, e no caso desse filme em particular, ele decidiu citar as pessoas cujo trabalho ou obras o influenciaram no fazer deste filme,
que é por ele considerado uma espécie de soma das influências que recebeu. Gostei de notar que tenho várias influências em comum com ele.

Me peguei imaginando como seria me encontrar com ele algum dia. Pensando em nossas conversas acerca dos gostos em comum que temos, que provavelmente
seriam bem interessantes. Nessa hora estava de pé, na frente de minha estante, imaginando que, provavelmente, lhe diria que eu sempre gostei de ver
em meus ídolos gostos parecidos com os meus. Nunca havia pensado a respeito, mas como imaginava uma conversa com ele, na qual lhe explicava isso
acabei inadvertidamente explicando para mim mesmo a causa desse gosto. Acredito que tem a ver com a admiração que sinto por certas obras.

Ver que tenho influências em comum com determinados artistas faz com que eu enxergue similaridades entre nós, e passe a ter ao menos um motivo a mais
para acreditar na possibilidade de que, algum dia, eu seja capaz de fazer uma obra que possa ao menos se aproximar da qualidade das obras
de meus ídolos. Nesse momento, olhei para dentro da estante na qual estava encostado, e observei os livros, ao invés de apenas vê-los. Claro, já
os conhecia, embora não tenha lido a todos. Todos (ou quase todos) conhecidos internacionalmente. Mas ainda assim, alguns autores que pouco
sobreviverão, no que diz respeito à longevidade de suas obras. Outros, já há muito mortos, e que ainda viverão por muito. E me perguntei aonde
vou ficar. Determinado estou; farei algo. Mas quanto vai durar? Sempre achei que deveria fazer o melhor que pudesse, sem me preocupar com esse tipo
de pensamento, mas sem esse padrão de comparação, será que terei ímpeto para chegar tão longe quanto posso? É verdade a velha idéia de que
você pode escolher tudo na vida, menos as coisas mais importantes?

P.S.: Para quem está se perguntando, o diretor é Kevin Smith, o filme é Dogma, e os gostos em comum são principalmente
Alan Moore, Douglas Adams, Tarantino e Neil Gaiman, e os gostos em comum com Neil Gaiman são Douglas Adams, Terry Pratchett e Dresden Dolls, e os gostos
em comum com Dresden Dolls...

quarta-feira, 11 de março de 2009

Natal

*em homenagem ao primeiro visitante de Natal que veio aqui, vou colocar essa, tirada da comunidade no orkut, e uma das coisas mais antigas que tenho


Se houvesse ali uma arma de fogo, ele se suicidaria.

Não era necessária, especificamente, uma arma de fogo. Tudo que queria era uma morte rápida. Cortar os pulsos e ficar parado, ouvindo as gotas de sangue caírem uma a uma, daria tempo para que ele rejeitasse a idéia, mudasse seus pensamentos, e o deixaria assistindo à própria morte depois de não mais desejá-la e não mais ter o poder ou tempo para evitá-la. Se uma arma de fogo estivesse a seu lado, atiraria na própria cabeça imediatamente. Se estivesse em algum lugar com altura suficiente, se jogaria e fecharia os olhos, talvez nu, para sentir o vento em seu corpo pela última vez. Mas não tinha. Não estava. Estava pateticamente trancado em um banheiro, sentado no chão, com lágrimas de frustração nos olhos.

Um dia, há algum tempo atrás, havia dito que jamais se suicidaria. Mas na época, não tinha que enfrentar os pensamentos que agora enfrentava. A consciência de inutilidade, o riso amargurado que sentia vontade de rir quando alguém parecia se pensar superior ou melhor que ele ou ao que realmente era, ao que fosse, como se estas mesmas pessoas não fossem igualmente insignificantes.

Andava nas ruas e percebia. Olhava para cada rosto, e via sorrisos, tristezas, amarguras e alegrias, sem conseguir evitar o pensamento em como aquelas pequenas alegrias eram passageiras e morriam facilmente. O quanto a batalha diária na vida, os sucessos como um "aumento de salário" ou uma "promoção" pareciam satisfazer a alma das pessoas, que os exaltavam como se fossem grandes coisas, acontecimentos, sem perceber que na verdade, estas eram apenas pequenas coisas que impediam que eles percebessem o quão fúteis são suas vidas, e como haviam fracassado na luta por seus sonhos. Pelo menos com a maioria das pessoas era assim.

Andava e percebia...

Ultimamente também havia recebido um aumento. Mas aquilo significava tão pouco. Antes de seu primeiro salário, já sabia que se alegrar muito por uma coisa como aquela não fazia sentido. É claro que possuir dinheiro é bom. Mas ter que possuí-lo para se sentir bem não é. E ele sabe disso. Mas prosseguia andando, com pensamentos obscuros já passando pela mente. Se ao menos as pessoas pudessem ver o quanto são insignificantes, se pudessem entender, poucas restariam no mundo. Os "líderes" mundiais se sentem superiores as pessoas "comuns", mas não sabem do que falam, ou o que podem fazer. O crescimento nunca será suficiente, pois sempre há coisas maiores, e ele sabe disso.

Alguns tentam acreditar que não são insignificantes, ou que são menos insignificantes, mas ele sabe que não é assim. "O bater de asas de uma borboleta pode provocar um furacão no outro lado do mundo"? Ele não duvida. Mas sabe que a destruição de um universo pode provocar muito mais. Mais que qualquer um jamais poderia. Sabe que o poder é limitado, mas que uma parte ínfima do poder existente ultrapassa o limite necessário para que ele e todos de sua raça sejam destruídos.

Pensava...

Ouvia os gritos vindos da casa ao lado agora. A discussão gritada alto o suficiente para ultrapassar as paredes do banheiro, que era a parte mais próxima da outra casa, não importava tanto, embora fizesse a atmosfera de crise se intensificar. Pensava... Pensava no que outras pessoas já haviam dito. Que existem milhões, bilhões de pessoas em condições piores que as dele. Mas as pessoas em sua maioria não conseguem perceber o que isto quer dizer. Ele se sente pior que as outras, porque elas não pensam como ele. Ele não quer dizer que sejam menos inteligentes, mas que pensam de modo diferente. Estas pessoas podem ter fome, doenças ou coisas parecidas. Mas agruras físicas não parecem ser tão importantes quanto as mentais, que o estão quase matando de um modo bem mais eficiente que as outras parecem ser capazes. E as dores mentais, psicológicas, são bem piores quando se é consciente da veracidade de suas razões.

Ele sabe que a depressão não é egoísta. Ao menos não a dele. Ele percebe que vale tão pouco quanto os outros, reconhece a diferença entre as pessoas, apesar de não acreditar que uns mereçam mais que outros. A diferença é tão pequena! É claro que quaisquer benefícios são tão pequenos quanto elas, mas ainda assim...

Agora, ele esperava. Ele esperava que pensamentos mais agradáveis se aproximassem. Tinha, sim, alegrias. Alegrias proporcionadas principalmente, pelas pessoas que amava. Mas estas pessoas são as que mais podem te machucar, e ele sabe disso. A maioria de seus momentos de crise eram provocados por alguém que amava. Mas ele sabe que o amor é incontrolável.

Lembrou-se de um beijo dado a pouco tempo. Acha que está apaixonado. Lembrou-se de como voltou para casa andando através da noite, perguntando-se como alguém podia ser tão triste e tão feliz ao mesmo tempo.

Percebeu que as lágrimas já haviam secado. Os pensamentos que chegavam agora não eram agradáveis, embora dessem força para que sobrevivesse. Sabia que pessoas dependiam dele. Sabia que, ao menos por alguns, era amado, e quase não poderia controlar as lágrimas ao pensar na tristeza do olhar destas pessoas caso seu enterro fosse tão previamente realizado. Apesar disto, sabia que muito poucos o consolariam. Mas devia algo aos poucos que o fariam.

Lavou o rosto. Não foi o suficiente para eliminar as marcas que todas aquelas lágrimas haviam deixado. Os olhos estavam vermelhos o suficiente para denunciar o choro, mas já haviam chamado à porta do banheiro algumas vezes, e ele havia ficado feliz ao ouvir algumas das vozes que o haviam feito. Jogou mais um pouco de água no rosto, e enxugou-se depois. Abriu a porta, e sorriu ao ouvir o primeiro desejo de "feliz natal", e ao abraçar a primeira pessoa que o cumprimentou.

domingo, 1 de março de 2009

Cópia D'eu

Já tinha dito à mãe: Tira daqui essa porra de espelho!, Mas nada. O espelho ficara, e ele não agüentava mais o outro eu-ele encarando. Não podia olhar de lado não, sem que visse o infeliz cópia-dele, em quem ele não podia bater. Tentara uma vez, quando criança, e nunca mais, depois de se machucar do jeito que aconteceu. Cópia-dele o imitava irritantemente, fazendo valer o nome que lhe dera(embora o chamasse “reflexo” pra outros ouvidos). “Cópia-D’eu”, muito mais certo, por ser mais particular , tinha, do outro lado, tudo o que ele tinha daqui, e fazia o mesmo, ao menos quando ele olhava. Cópia-dele só não tinha aprendido as letras, e fazia tudo errado, ao contrário.

Um dia ele escreveu umas coisas e levou ‘pra frente do espelho, e começou a rir das coisas que Cópia-dele tinha escrito. Mas aí uma coisa estranha aconteceu. Cópia-dele começou a rir exatamente na mesma hora que ele. Os dois riram por pouco tempo por quê, bem rápido, ele começou a pensar que talvez Cópia-dele se achava certo. Mas e se fosse?

Pensou que, se cópia dele visse as letras ao contrário quando olhasse pro lado de cá, devia acabar achando que as letras dele, do lado de lá, é que eram as certas.

Mas e se fossem?

Ele e Cópia-dele eram iguaizinhos, mas não tinha em nenhum lugar nenhuma Bíblia que dissesse qual era o de verdade. E se fosse o outro?

E se Cópia-dele fosse o de verdade e ele fosse a cópia?

Percebeu que, do lado de lá, Cópia-dele pensava as mesmas coisas, pois tinha parado de rir também.

Foi aí que combinaram uma coisa.

Não puderam apertar a mão por causa do vidro que existe entre os de lá e os de cá, mas, cada um de seu lado, encostaram a mão aberta no vidro. Daí selaram o trato: nunca iam contar pra ninguém que o mundo de lá e o de cá eram mesmo dois, iam parar de se implicar, um não ia mais chamar o outro de Cópia, e eles nunca mais tocariam no assunto de que um só deles era de verdade.
Na verdade, eles não conversaram.

Mas já que as atitudes de Cópia-dele(que agora seria “O Outro”) eram iguais às dele, imaginou que ele devia pensar igual também. As atitudes do Outro, logo depois, confirmaram isso, e ele ficou feliz de ver o inimigo virar amigo.

Pena que aquele vidro infeliz não deixava um ir ajudar o outro.

Ainda teria um papo sério com aquele vidro.

Ô se ia!

Tudo errado – (coisas que não se precisa dizer) - retirado da comunidade

O lugar estava vazio antes que ele chegasse. Vazio de gente. Uma cadeira, plataforma sustentada por quatro pernas de madeira quasenegra e com um apoio para as costas estava ali, junto a outras três de seu tipo. Cercavam uma mesa, estrutura semelhante a elas, mesma cor, maior plataforma, pernas mais grossas-longas e sem encosto.

O armário, marrom-mais-claro, mais alto, encostado na parede os olhava, sem olhos. Tinha pequenas pernas , que sustentavam três pequenos compartimentos. Sobre eles uma bancada(outra plataforma), sobre ela, dois suportes de madeira que se apoiavam em suas beiras, sobre eles, mais três compartimentos. Os três compartimentos inferiores tinham portas da madeira que fazia o resto do armário, enquanto os três superiores tinham portas que eram vidro emoldurado por madeira. Através do vidro se via, na primeira:copos, na segunda:
pratos, na terceira: tigelas.

A pia era de mármore. Sem pés, com um simples armário abaixo, cujas portas eram de correr. Encarava o outro lado da mesa, também sem olhos. As portas de seu armário eram de um marrom metálico. A própria pia, metálica. A torneira encurvada também. Escorredor branco, ainda vazio.

Tudo limpo e virgem. Os outros objetos, separados, pois havia uma plataforma(balcão) alta para servir bebidas e alimentos, e no caso, dividia a cozinha, local aonde eram feitas as refeições(nos dois sentidos). Dividia errado.

Era perceptível. Estava errado.

O mármore, madeira quasenegra, marromclara, e marrom-metálica. Mesa, pia, balcão(mármore) e armário. Não era tudo. Coisas faltavam. Estava tudo errado! Tudo puro, virgem, recém-feito(refeições), recém-nascido! E estava errado.

A geladeira, espécie de armário para esfriar, e o fogão, espécie de plataforma para esquentar(com fogo). Eles estavam do outro lado! O balcão era mármore puro e virginal, mas deixava os dois do outro lado! Como tudo pôde estar tão errado!?

Bastava fazer o balcão mais distante. A pia do outro lado. Fogão e geladeira deste.

Mas não. Não fizeram.

Fogão(marrom), geladeira(branca), pia, balcão. Estavam errados.

Estava tudo errado.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Efeito borboleta

Eu sei que tenho minhas pequenas diferenças.

Você quer que eu admita? Sem problemas. Você é, sim, mas inteligente que eu, e embora alguns discordem, sempre te achei mais bonita também.

Não me entenda mal: você não foi uma namorada ruim. Eu adorava, realmente, passar a noite com você, transando, conversando, abraçado até que a manhã nos surpreendesse... era como se vivêssemos através de clichês românticos, e você sabe o quanto eu gostava daqueles momentos. O problema são as pequenas diferenças.

Te disse, eu sei que também tenho algumas, como aquela mania de estalar os dedos que você sempre achou irritante, ou as vezes em que eu falo muito, sem perceber. Mas do mesmo jeito que admiti os meus pequenos defeitos, você deveria admitir os seus.

Você sabe como eu detesto ser interrompido (e até admito que às vezes exagero um pouco na minha reação), mas ainda assim, vive cortando minhas frases no meio, me atrapalhando numa conversa, ao ler um livro, ou assistir a um filme... eu te pedi tanto, não foi?

E as roupas que você usava? Se eu posso ficar bravo com os homens que tentam alguma coisa com você, porquê todas as micro-saias que aumentam muito mais a chance de que isso aconteça devem ser ignoradas? Tudo bem, eu entendo que você goste de se sentir apreciada, mas não pode me pedir para gostar. E nos meus dias ruins, a última coisa que eu preciso é um retardado musculoso dando em cima da minha namorada. Algumas vezes eu até preferia ficar em casa, pois sabia que podia acabar entrando em uma briga com alguém.

Não, claro que não estou colocando a culpa em você. Estou dividindo ela com você. Não sei dizer se você mudou. Não sei sequer dizer se eu mudei; na verdade, acho que o maior problema foi o fato de que as pequenas diferenças cresceram. Você sabe (acho que todo mundo sabe), que quanto mais próximos estamos de algo, maior aquela coisa nos parece. Nosso cérebro já se acostumou, e costuma a não confundir mais as coisas. Ele sabe, e nos conta, que na verdade, o tamanho das coisas não muda com a proximidade. O que muda é a percepção que temos a respeito delas. Olhando de perto, estou vendo suas pequenas diferenças como se fossem monstros de seriado japonês. E as que estavam escondidas então? Saíram de trás da moita tão rápido que me deixou com medo, e agora, sem querer, olho com desconfiança para todas as moitas e árvores da paisagem.

Não, não é isso. Claro que fiquei abalado quando você me traiu. Que pergunta. Mas isso faz tempo, e eu superei. Quando o sentimento era forte, mesmo algo assim eu consegui superar. Agora, com o tempo, o sentimento está menor. Enquanto eu contornava as grandes pedras no caminho, pisava em outras, pequenas e pontudas, que aos poucos foram deixando meus pés em carne viva, e agora decidi parar de caminhar, pois as feridas em meus pés fazem com que as pedrinhas pontudas me incomodem muito mais que antes.

Por favor, não chore! Você sabe que eu detesto ver você chorando. Vem cá, me dê um abraço. Isso... eu também vou sentir saudades, mas ao menos isso significa que nós deixamos a relação antes que alguém se machucasse feio, ou guardasse rancor. Ei! Você vai ver: é melhor assim. Foi maravilhoso e quero continuar vendo você e sendo seu amigo. Vem, eu te levo até a porta. Me dê mais um abraço. Isso. Fica bem, tá? Qualquer coisa me liga. Tchau. Até outro dia.

sábado, 17 de janeiro de 2009

História perfeita

Ele procurava a história perfeita.

Olhava em volta, via quadros e imagens e pessoas e coisas, mas nada parecia querer ser história.

Então ele resolveu dormir.

Cortando as unhas

Usando o alicate, cortou a unha do dedo indicador.

Como, por motivo que não saberia explicar, nunca havia feito antes, observou as rugosidades que havia na parte da pele que ficava mais próxima das articulações dos dedos. Verificou que existia nos dois lados do dedo, em todos os dedos das mãos. Abriu e fechou as mãos (não totalmente, mas como se tentasse fingir garras), e observou o efeito que isso tinha. A pele parecia mais lisa quando se fazia isso. Abriu a mão novamente, verificando que, com a mão aberta, ali se juntava uma certa quantidade de pele, o que provocava as rugas e fazia com que fosse possível pegá-la com facilidade. A parte interior dos dedos era o contrário: com as mãos fechadas é que se enrugava e pele se acumulava ali.

Ao pensar a respeito, lembrou-se dos joelhos e cotovelos, além, é claro, dos dedos do pé. Ainda havia cortado apenas a unha já mencionada, perdido nos pensamentos sobre os dedos, os mesmos dedos que tivera desde a infância. Pensava que para que eles funcionassem, seria preciso a quantidade certa de pele nos lugares certos, de modo que partes enrugadas se tornassem mais lisas dependendo do movimento que o corpo tomasse. Todas as formas que ele pudesse tomar naturalmente, não seriam demais para o invólucro que o continha.

Pegou-se pensando nos pêlos, mais naqueles de outros animais que nos dele próprio. Pelos e penas e asas e bicos e... muitas outras coisas. Como a natureza fazia tudo com perfeição, um ciclo que se expandia, incluindo inúmeras formas de vida diferentes, com características complexas e únicas, unindo tudo aquilo em um sistema no qual todos os seres se integravam e interagiam, afetando uns aos outros e transformando aquele ecossistema de um modo que chegava a ser incompreensível.

Ao mesmo tempo, cada um daqueles animais e coisas era formado por partículas mínimas, elas mesmas formadas por coisas ainda menores, invisíveis e desconhecidas, em um mundo completamente novo e infinitesimal, o infinito dentro do minúsculo, enquanto o mundo aonde aquelas criaturas recheadas de infinito viviam não passava de um minúsculo ponto invisível dentro daquele que talvez seja apenas um de vários universos.

Estava com o coração acelerado e os olhos arregalados, respirando profundamente. Tivera um breve vislumbre do infinito, ou ao menos, chegou tão perto disso quanto uma mente humana é capaz.

Abanou a cabeça, sem se lembrar exatamente como tudo aquilo acontecera.

Então olhou para sua mão novamente, e cortou a unha do dedo médio.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

"Censuras" ou "Bom coração"

Eu andava, à noite, pela minha cidade natal.

Em alguns trechos, próximos à minha casa(que era para onde eu voltava depois de uma festa com amigos), as ruas estavam completamente desertas, e pareciam estar ainda mais, auxiliadas pelo visual desolado que a falta de iluminação e os terrenos baldios davam ao lugar.

Essa falta de iluminação foi uma das coisas que atraiu minha minha atenção. Em luz do dia, eu não teria notado, mas naquela escuridão, a luz de um poste se acendendo a poucos metros de distância, sem nenhum motivo aparente, causa estranheza.

Eu não havia notado aquele poste antes, na verdade, mas estava passando por ali tão distraído que não poderia afirmar com certeza se ele sempre existira. Ao mesmo tempo, por mais que houvesse passado mil vezes naquela rua, definitivamente não saberia dizer aonde ela tinha postes e aonde não tinha. É uma dessas coisas das quais você simplesmente não se lembra.

Mas estou me desviando do assunto: o fato é que a luz do poste realmente se acendeu, me chamando a atenção imediatamente. Olhei naquela direção e me surpreendi ao ver um homem que se recostava no poste.

Seus trajes foram a primeira coisa a me chamar a atenção. Usava um terno vermelho-sangue, sobre uma camisa preta. A calça e a gravata borboleta, que juntamente com o par de sapatos pretos, completavam a imagem, eram também vermelhas. Não sei dizer porquê, mas me aproximei da figura aos poucos, até ser capaz de enxergar claramente seu rosto.

Sorriu.

O sorriso, acompanhado de uma expressão da mais pura malícia, congelou meu sangue imediatamente. Não falo isso como uma metáfora para medo extremo, mas sim, como uma metáfora para estado de choque, ou talvez seja melhor dizer: uma paralisia corporal completa. Como se o meu sangue houvesse realmente se solidificado, me impedindo de realizar qualquer movimento.

O sorriso me revelava dentes pontiagudos, com caninos proeminentes. Eu sabia quem estava ali. Talvez já soubesse antes de me aproximar. Não vou dizer o nome, pois confesso que depois da experiência me tornei mais supersticioso que era antigamente, mas imagino que a figura esteja espalhada pelo imaginário popular com suficiente clareza para que eu não precise chamá-la pelo nome. O fato é que, poucos segundos depois que uma língua bifurcada passou por entre os dentes pontiagudos, deslizando sobre o lábio com uma lentidão que me pareceu quase eternizar o momento, a criatura disse, com uma voz que não sou capaz de descrever:

"Peça."

"Pedir?", pensei, mas não falei. Ainda estava absolutamente paralisado. Minha mente, contudo, se movimentava a uma velocidade que raras vezes tivera. Pedir? Qualquer coisa? Uma vingança leve contra a senhoria da casa que eu alugava, cujo nome por algum motivo não conseguia lembrar, mas que me incomodava a meses? Dinheiro? O que pedir! De algum modo, todas as vezes que tentava me lembrar do nome de alguém contra quem poderia desejar algo, o nome não vinha. Apesar disso, os desejos que eu tinha para melhorar minha vida eram inúmeros, e apareciam com tanta clareza diante dos meus olhos que eu quase podia tocá-los. A casa dos meus sonhos, dinheiro para toda a vida...

Mas estes pensamentos foram interrompidos. A luz das imagens foi apagada.

O que imediatamente veio à minha mente foi uma espécie de medo. Aquela figura encostada, iluminada pela luz âmbar do poste, pouco mais alta que eu, apesar de algumas diferenças anatômicas assustadoras, antes que eu pensasse a respeito, era apenas uma figura.

Agora, ela indicava que tudo aquilo que me fora dito durante anos de infância e adolescência era verdade. Isso fazia com que, assim como as outras pessoas que não levam a sério esse tipo de coisa, eu estivesse destinado a um sofrimento que nunca poderia imaginar.

Pensei na minha capacidade de mudar, nas chances de me arrepender do que havia feito até agora. Pedir era garantir o final infeliz, mas ignorar a oferta provavelmente seria algo não muito inteligente, uma vez que o final feliz estava praticamente perdido, considerando quem eu era e a vida que havia levado até ali.

Eu, juntamente com tantas outras pessoas, estava completamente perdido. Me assustei com o pensamento. Algo em mim relutava. E de repente, percebi que meu sangue era líquido novamente. O medo ainda estava lá, mas agora eu conseguia movimentar meus membros. Então, eu corri.

Corri no momento em que cogitava pedir algo. Mas corri, e não pedi.

E hoje, estou com medo de atravessar a rua, e perceber que, na verdade, não existe nenhum poste lá;

domingo, 11 de janeiro de 2009

Notícias como exemplo de um comportamento

Quantos de vocês assistem aos jornais?

Sendo pessoas esclarecidas, acredito que todos estejam sempre bem informados, cientes das últimas mudanças na situação econômica, da guerra no iraque, os últimos assassinatos, entre várias outras informações úteis, não é mesmo?

E porquê?

Porquê assistir ou ler a notícias é considerado algo "intelectual", se na maioria dos casos, nem mesmo se pensa em porquê deve-se ler aquelas mesmas notícias?

É importante ficar indignado com a violência? Só se você fizer alguma coisa para diminuí-la. De outro modo, sua indignação é completamente desprovida de significado. Ela se resume a um papo cuja única utilidade foi preencher um vazio que surgiu em alguma conversa.

Se você disser que gosta de ler as notícias, e por isso as lê, eu entendo. Se disser que é um ativista de alguma organização, e precisa saber de certas notícias em dia, eu entendo. Se você disser que produz algum tipo de arte e gosta de ler notícias como inspiração, se você for um cronista, ou até mesmo se gostar de ler as notícias apenas para preencher o espaço vazio em algumas conversas, eu entendo.

Mas eis o detalhe: você provavelmente acompanha as notícias por algum destes motivos.

Posso ter me esquecido de mencionar alguma coisa, mas os motivos se resumem bem aos que eu citei. A coisa é que a maioria das pessoas não admite que simplesmente gosta de ver catástrofes na televisão. Não tem nada pra fazer, a cabeça é vazia, e gosta de ver os acidentes mundo afora(em geral bem parecidos com os acidentes do mês passado, mas surpreendem novamente!). Além, é claro, de reclamar das políticas do governo que você não entende, mas das quais se falou mal no jornal. Sentir dó das criancinhas que aparecem no jornal, sem se lembrar das outras crianças mundo afora. Pressionar o governo na resolução de um assassinato ignorando crianças e adultos vivos e necessitados espalhados por todo o país, inclusive na sua esquina, mas que você só vai enxergar quando ele morrer de fome e for divulgado no jornal.

O caso da garota defenestrada é um gigantesco exemplo disso. Enquanto algumas garotinhas são estupradas pelos próprios pais, outras passam fome, outras... são submetidas a todos os tipos de humilhação e crueldade, dedicamos todas as nossas forças a castigar o assassino de uma garotinha já morta. Não que ele não deva ser castigado(afinal, esta é a nossa sociedade, mas essa é outra discussão), mas será que devemos nos dedicar a castigar os culpados mas esquecer aqueles que estão sofrendo na casa ao nosso lado?

A maioria das pessoas não assiste às notícias, mas tem suas decisões assistidas por elas. Mas a mídia é um assistente traiçoeiro, que direciona sua mente para os caminhos que a interessa.

E, na minha opinião, a maior entusiasta da alienação.






P.S: Conhecendo os leitores desse blog(ou ao menos os que comentam), imagino que isto aqui não se aplica a alguns de vocês ou, nos casos em que se apliqua, ainda assim irão entender. Estou escrevendo isso um pouco na pressa, não tenho tempo de revisar agora, mas vou publicar assim mesmo, e qualquer coisa eu altero depois. Podem reclamar, se quiserem.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Vagas

Dois mais dois são quatro.

exatas são meuforte. humanas,não.

Quanto é caridosa + vingativa?
E bonita + metida?
Qual é a soma de inteligente + falante demais?

Não, características assim são realmente difíceis de se somar.

além do quê, como saber quais características alguém realmente têm, e quantas age como
se tivesse, por realmente querer ser diferente?

olho para a foto.

Olhos verdes, lindos, dos quais ela não gosta. Boca não tão bonita, que ela
adora.

Gosto, mas ela irrita tanto, às vezes.

Não sei se consigo ser claro.

talvez não esteja tentando.

Mãozinhas lindas.

pés.

Joguei a foto longe. Quero pensar sob a pele.

O resultado é positivo? me importo? tento descobrir?

Bem.

devo sim, não?

Melhor não correr o risco de fazer nada.