sábado, 20 de dezembro de 2008

Perfeição - (terror, antiga, e testemunhos dizem que assuta... rsrs)

Ela era como uma caixa de objetos afiados. E pontas. E manhãs ensolaradas misturadas com beijos profundos e cicatrizes. Ela era tudo isso, e parecia ainda mais enquanto andava apressada pela rua e pegava um ônibus, ou chamava um táxi.

Ela já havia me chamado antes. Eu a peguei e levei até em sua casa. Olhei-a com uma expressão de reconhecimento, e perguntei seu nome. Não era como aquelas mal-educadas que nem o nome dizem. Pareceu um pouco desconfiada, mas respondeu: “Débora”. O nome me atravessou e me deixou sorrindo enquanto eu dizia que ela se parecia com uma outra garota com quem eu havia estudado há algum tempo. Ela sorriu sem graça. Ambos ficamos calados até o fim do trajeto.

Ela pagou o valor marcado no taxímetro e desceu do carro. Eu me afastei bem vagarosamente, e a observei pelo retrovisor, até que ela entrou dentro de sua casa, desaparecendo de meu campo de visão.

Ela, depois disso, passou a ocupar quase que integralmente os meus pensamentos. Isso já havia acontecido antes, mas Débora não. Débora parecia especial. Débora era diferente das outras.

Ela parecia alheia a mim. Ao fato de que eu sempre a seguia em meu táxi, por vezes ignorando chamados de outros pedestre apenas para seguir o ônibus aonde ela havia entrado. Só não seguia táxis nos quais ela entrava pois sabia que alguns taxistas notariam. Mas a tentação era grande.

Ela era tudo em que eu pensava, assim como é praticamente tudo sobre o que consigo escrever agora. Sobre como seus cabelos, naturalmente ruivos e encaracolados se moviam quando ela andava, e como seus dentes perfeitamente brancos refletiam o sol... Mesmo o movimento de seus seios quando corria em direção a um ônibus, ou o gesto que fazia com a mão para chamar um táxi me enlouqueciam... até que, um dia, não pude mais resistir. Comecei a preparar minha casa para ela. O local aonde iria recebê-la, todos os lugares aonde ela poderia ir dali, embora provavelmente ficássemos em apenas um dos aposentos. Deixei tudo perfeito, como a ocasião merecia. Tudo preparado para o dia em que finalmente nos
conheceríamos pessoal e intimamente.

Ela estava linda. Usava uma blusa de lã roxa, e uma calça marrom. Estava chovendo naquele dia, e ela se protegia com um guarda-chuva, enquanto fazia sinal para algum táxi. Desta vez foi o meu táxi que se aproximou, e ela entrou. Simplesmente perfeita. Era minha Vênus.

Ela tentou abrir a porta traseira, que eu havia trancado e, obviamente, não conseguiu. Fiz sinal para que ela entrasse pela porta da frente, e ela o fez, sentando-se no banco do passageiro. “Me desculpe.”, eu disse. “a porta de trás está estragada.”. “Tudo bem”, respondeu ela. “Desde que me deixe em casa, está tudo bem.” Infelizmente eu teria que desapontá-la, pois naquele momento, não iríamos para a casa dela. Ao menos não por enquanto.
Ela não conversou durante nosso breve percurso. Parecia pensativa, o que facilitou um pouco as coisas para mim. Assim que paramos em um local vazio o suficiente para que não pudéssemos ser vistos através da chuva, eu abri o recipiente que se encaixava na lateral esquerda de meu banco, recipiente que eu mesmo instalara ali. Pressionei sua tampa e ela se abriu silenciosamente. Retirei de lá o lenço coberto com anestésico e cobri o rosto dela com ele. Ela olhava para a chuva através da janela, e eu pude ver seu rosto assustado ao ver o reflexo de meu braço contornando o seu corpo, de minha mão segurando o lenço... mas era tarde demais. Segundos depois, ela estava desmaiada. A luz verde do semáforo se acendeu, e
eu continuei dirigindo. Na próxima parada, apliquei-lhe um anestésico mais forte usando uma seringa. Nunca confiei nestes anestésicos inaláveis.

Ela era incrivelmente leve. Chegamos em minha casa, aonde a garagem é fechada, e a retirei do carro, carregando-a em meus braços até o quarto que havia preparado. Mesmo com todas as precauções tomadas, eu continuava pensando que talvez o tempo não fosse suficiente, e retirei suas roupas o mais rápida e cuidadosamente que pude. Algemei-a à cama, por medo que ela tentasse escapar ao acordar, uma vez que ela certamente não compreenderia o que estava acontecendo. O quarto era a prova de som, para impedir qualquer problema, caso ela gritasse. Agora só esperava o despertar da garota. Nada complicado, na verdade. Ela provavelmente gritaria quando acontecesse, e ele estaria ali para ouvir.

“Ela ficará famosa depois do que farei com ela.”, pensou. “Pelo menos em certos meios.” Já que passava em muitos dos lugares por onde Débora passava, provavelmente era uma questão de dias até que avistasse o primeiro cartaz de “Desaparecida”. Talvez até uma menção ao caso em um tablóide, ou em algum lugar do tipo. Deve ser triste perder alguém assim. “Desaparecido.”. Que modo horrível não? Pelo menos haveria esperança, embora ela nunca pudesse ser concretizada.

Ela se mexeu um pouco, e murmurou algumas palavras ininteligíveis. Dali a pouco estaria suficientemente desperta. Seu rosto era lindo. Muito branco, emoldurado pelos belos cabelos ruivos que já mencionei. Cabelos que cobriam apenas parte de seus seios, belos, fartos e naturais. Um corpo cujos defeitos eram insignificantes perto de suas qualidades. Pena que aquela beleza seria desfeita. Tentei imaginar como ficaria uma foto de seu rosto no cartaz de “Desaparecida”. Foi desagradável de certa forma, já que não consigo deixar de imaginar uma certa semelhança entre os cartazes de “desaparecido” e “procurado”, e eu com certeza apareceria, injustamente, no segundo. Imagino que se eu continuar agindo com o cuidado necessário, não há o que temer, mas este tipo de pensamento me dá calafrios. Ser condenado pela sociedade, ter de me esconder mesmo das mulheres que merecerem minha atenção... não. Isso não pode acontecer. Jamais. Por isso eu tomo todo o cuidado possível. Demorei muito para conseguir construir aquela casa, e me sustentava como taxista. Se eu me tornasse procurado, qualquer mulher se tornaria quase inalcançável para mim.

Ela não gritou. Engraçado. Acordou, e ficou calada, me olhando com os olhos
cheios de medo. Ela é uma mulher forte pelo visto. Mesmo depois de me ver não gritou. Nem um som saiu de sua linda boca. Isso nunca tinha acontecido antes. Eu sabia que ela era diferente das outras... ela era especial... ao menos para mim.

Ela, é claro, não poderia resistir ao medo para sempre. Tinha muitas semelhanças com as outras mulheres no que diz respeito às sensações. Balançava a cabeça e gritava freneticamente, ante a visão da faca em minhas mãos. Eu estava extasiado. A visão de seu corpo se agitando diante de mim me fazia mergulhar em uma sensação de poder que eu tinha certeza, só seria superada pelo momento em que ela se tornaria parte de mim.

Ela tentou o quanto podia se libertar das amarras que a prendiam, mas eu tinha experiência demais com aquelas cordas e nós para deixar que isto acontecesse. Ela não conseguiria se soltar. Ela era minha agora, e seria parte de mim em breve.

Ela gritava tão alto que achei que meus tímpanos estavam prestes a estourar. Mas eu gostava. Fazia parte do jogo. Quanto mais forte ela se mostrasse na luta pela vida, mais justificaria minha escolha. Mostraria que ela era mesmo a garota certa. De que vale uma vida pela qual não se luta? Sem isso, tudo seria incompleto. Deixei-a gritar à vontade. Afinal, fôra para isso que havia mandado construir aquele quarto. Porquê eu construiria uma ótima casa num lugar daqueles, para quê viveria numa rua escura e perigosa e fétida e solitária, senão para passar despercebido? Eu fazia tudo por elas. Era justo que elas fizessem tudo por mim. Elas não atendiam à meus desejos voluntariamente, mas eu não me importava. Elas não entendiam o que estava acontecendo ali.

Ela parou de gritar. Mergulhei tanto em meus pensamentos que acabei ficando parado, apenas olhando-a e segurando o facão, por um “longo” tempo. Pobre criança. Com apenas aqueles poucos segundos, ela conseguiu criar a ilusão de que sairia intacta dali. Como todas, se apegando à mais improvável esperança de se livrar do desespero. Mas não aconteceria assim.

Ela começou a gemer e chorar quando aproximei a faca de seu corpo. Apesar de seu tamanho, a faca tinha a lâmina dentada, para facilitar meu trabalho. Comecei a retirar o braço esquerdo de Débora.

Ela soltou seus primeiros gritos imediatamente. A dor provavelmente era excruciante, mas ela precisava sentir o sofrimento para que algo maior fosse alcançado. Eu estava tão excitado que achei que fosse explodir. Me sentia como uma criança enquanto retirava seus outros três membros. O sangue espirrava em mim e em minha camisa, formando manchas nas quais eu pensava ver imagens de Débora gritando, que aumentavam ainda mais o meu prazer conforme o suor do esforço cobria meu corpo. Em minha excitação, arranquei parte de seus seios com os dentes e as cuspi depois, para me concentrar depois no que fazia anteriormente. O cansaço que eu sentia era ao mesmo tempo extremo e insignificante. Débora desmaiara. Se
foi a dor ou a perda de sangue eu não sei, mas tinha certeza de que ela não voltaria a acordar.

Ela foi tão maravilhosa que me excito apenas com a lembrança. Seu corpo lindo agora me pertencia. Eu o usei. Eu a usei. Não queria ter o trabalho de serrar os ossos de seu tórax. Primeiro, abri seu abdome, e de lá retirei os órgãos de mais fácil acesso. Estômago, bexiga, fígado, intestinos... tudo muito sujo para mim. Retirei depois seus pulmões, e em seguida o coração, cortando todas as veias que ainda o ligavam ao corpo dela. Eu já não enxergava mais nada. Deixei que minha cabeça caísse, e ficasse parcialmente mergulhada no sangue da ferida aberta em suas entranhas, e comecei a comer o coração. A quantidade de sangue que entrava em minha boca era deliciosa. Eu sabia que agora tudo estava bem. Sabia que a garota iria para o paraíso, e que viveria eternamente do meu lado. Tive um orgasmo ao engolir a última parte do coração, e acabei adormecendo ali mesmo, em meio a todo aquele sangue. Por pouco meu rosto não ficou totalmente encoberto, afogado nas entranhas daquela mulher. Ela era mesmo perfeita.

Ela não gritava mais. Depois de e tornar parte de mim, nenhuma delas o fazia. Eu me pergunto se elas finalmente compreendiam.

Ela já não é mais Ela. Ela é parte de mim, e eu estou feliz por estarmos mais completos, pois ainda temos muito o que fazer. Agora vem a pior parte: a limpeza. Devo limpar tudo, colocar os restos em recipientes, e selá-los, para que o cheiro não denuncie sua presença. O que fazer com o que sobrou do corpo dela? Há um velho poço, que era usado antigamente e hoje foi deixado apenas como decoração em uma praça próxima. Talvez eu ache um momento para deixá-lo lá, caso a praça não seja muito movimentada. Seria engraçado ver as pessoas passando todos os dias diante do poço, sem a menor idéia dos segredos que ele guarda. E depois, sair em meu táxi.

Ela se foi, e eu procuro novamente. Só preciso de mais chances para me tornar perfeito.

2 comentários:

Thalyta França disse...

me livre senhor.
rsrs..
ficaria otimo em video. =)

Bruno disse...

Será? Tem um amigo meu que já comentou que seria legal fazer um curta de algum conto meu, mas eu não sabia direito qual deles seria bom passar pra vídeo...
Vou mostrar esse pra ele =D