quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Ponto de vista moral

Os delicados movimentos de seu pincel-adaga eram, apesar de suaves, perfeitos. A vontade, dona da mão que os realizava não hesitava ou refletia, seguindo cegamente o instinto, talvez irracional, que inexoravelmente se responsabilizava pela impressão de tais imagens na tela. O pintor, atingido por aquele instinto, pintava sem cessar, como se algum demônio houvesse se apossado de sua mente, delineando os firmes traços que deixavam sua arma para que formassem uma figura grotesca de seu espírito.
"Auto-retrato nu" era o nome no qual pensara, ainda enquanto pintava as cores de sua imoralidade. Criando semi-consciente um abjeto espelho no qual se refletiam as feridas de sua alma. Pobre cujo destino era pintar a si próprio, dando ao corpo físico o aspecto do moral, criando assim uma imagem grotesca, que, naquele momento, não era sequer capaz de observar, embora uma vaga idéia do que estava fazendo resvalasse por sua mente.
Finalmente, exausto, terminou sua obra. Sentou-se no banco mais próximo, encurvado exageradamente, deixando que o suor de seu rosto viesse a descansar no tecido de suas calças."Que tipo de entidade", se perguntou, "se apoderou de mim? E qual será o resultado do trabalho que me vi obrigado a fazer?". Não tinha a menor consciência a respeito da beleza da imagem, ou da falta dela. Não ousava ou saberia imaginar o resultado daquela experiência. Afinal, nunca havia, deliberadamente, desafiado quaisquer dogmas morais que conhecesse, embora admitisse que conhecia poucos e que, em geral, apenas fazia o que lhe agradasse, sem se preocupar muito com conceitos morais. Que imagem vê o inconseqüente ao fitar a própria alma?
Para este, a imagem era terrível demais. Ao levantar os olhos, viu algo com o que jamais saberia lidar. Ante a visão daqueles cabelos ralos, finos, brancos, das feridas que perpassavam o couro cabeludo, seu sangue pareceu congelar. Seu olho esquerdo era invadido por um verme, enquanto o direito era completamente preto, sem um vestígio sequer do azul ou do branco habituais. Os cortes em seu rosto, exibiam os ossos da face, e parte da mandíbula, sendo que os próprios ossos estavam rachados. Seus lábios praticamente não existiam, e em sua boca faltavam inúmeros dentes. A figura o retratava até os ombros, e era possível ver o sangue e os insetos nas feridas abertas em seu pescoço e a putrefação da carne de que consistia seu corpo abaixo dele. A camada de pele sobre o nariz era tão fina que chegava a ser translúcida, e as orelhas, incrivelmente vermelhas, sangravam por vários cortes. E o pintor gritou. Ao amanhecer ainda gritava, e jamais se recuperou do impacto causado por aquela imagem: a imagem formada pelas atitudes que lhe agradavam.

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