sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Atenção, você está louco

Por favor, ignore o elefante branco, e saia do seu quarto.

É recomendável fechar os olhos,para que os movimentos ondulatórios da porta não o confundam. E há algo muito importante aqui: não mate sua mãe, como essa voz em sua cabeça parece querer que você faça.

Com os olhos fechados, vá até onde você sabe que fica a porta, e procure o local aonde você sabe que fica a maçaneta. Ignore a textura gosmenta da mesma, e tenha sempre em mente que esse procedimento só deve ser efetuado caso a porta de seu quarto esteja fechada.

Pode abrir os olhos agora, mas esteja preparado para visões fora do comum. Não se preocupe, o quadro que surgiu, aparentemente do nada, bem no meio da parede da sala, não está te acompanhando com o olhar. E não tenha falsas esperanças. A queda da inflação e a finalização das obras do metrô não passsam de produtos de uma mente perturbada.

Continue andando até achar um animalzinho azul, peludo, com um rabo longo, que segura uma banana em sua ponta. É o telefone. Pegue a banana. Ele não resistirá, mas você não deve, em hipótese alguma, acariciá-lo.

Uma voz no telefone dirá "Queijo". Resista à repentina tentação de dizer "Queijo não! Batata." Diga o seguinte:

"Bom dia, eu acho que enlouqueci."

"Coma alcachofras.", é a resposta que você ouvirá. Responda com a frase "Estou tendo alucinações."

"Pode ser no sábado. Estarei no bar, com orelhinhas de mickey para que você me identifique.", responderá uma voz, desta vez, masculina. Responda "Estou vendo coisas, e ouvindo vozes."

"A vaca atravessou a floresta. A águia pousou. Sua mãe. Eu. Cheetos de bacon.", dirá a voz, com um curioso tom anasalado. Você deve responder a isto dizendo seu endereço. Diga também que esperará na porta de sua casa.

"Por fora ou por dentro?", perguntará a voz. Não responda, é uma pegadinha. Prepare-se para atravessar o jardim.

Atravessar o jardim pode ser mais fácil de olhos fechados, também. Afinal, quase ninguém se sente confortável com a presença de insetos gigantes(os quais você pode atravessar sem medo).

Pegue a chave do portão, e a coloque dentro da bolha verde-translúcida. O portão se abrirá. Saia, e sente-se na cabeça do búfalo.

Parabéns! Você conseguiu! Agora é só esperar. Não saia daí e, por favor, não coma este papel. Ele pode ser útil para outras pessoas.

Equilíbrio

Ele acordou a 6 horas da manhã. Pensava em equilíbrio.

Não o equilíbrio referente a conseguir permanecer de pé sobre algo. Mas aquele que diz respeito a quão balanceada está sua vida.

Não existe uma filosofia que fala sobre isso? O quanto a vida deve ser equilibrada, em todos os aspectos? Deve-se dormir bem, se alimentar bem... mas será que o lazer não entra na equação?

Espremendo o travesseiro contra o rosto, ele pensava nisso. Afinal, de acordo com o óbvio, entre acordar de madrugada ( o que já consiste em tortura para quem gosta de aproveitar a noite, seja como for ), trabalhar 8 horas em algo monótono e repetitivo, sair sem ânimo pra nada, chegar em casa, assistir programas completamente imbecis na TV e dormir cedo novamente, não tem absolutamente nada de interessante. Cadê o equilíbrio?

O único problema da teoria era a parte que afirmava que também havia um equilíbrio entre o dinheiro que se ganha e o que se pode gastar.

Então ele se levantou, vestiu o uniforme, e passou a maior parte da tarde imaginando quantas outras pessoas usavam um uniforme parecido com aquele.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Ponto de vista moral

Os delicados movimentos de seu pincel-adaga eram, apesar de suaves, perfeitos. A vontade, dona da mão que os realizava não hesitava ou refletia, seguindo cegamente o instinto, talvez irracional, que inexoravelmente se responsabilizava pela impressão de tais imagens na tela. O pintor, atingido por aquele instinto, pintava sem cessar, como se algum demônio houvesse se apossado de sua mente, delineando os firmes traços que deixavam sua arma para que formassem uma figura grotesca de seu espírito.
"Auto-retrato nu" era o nome no qual pensara, ainda enquanto pintava as cores de sua imoralidade. Criando semi-consciente um abjeto espelho no qual se refletiam as feridas de sua alma. Pobre cujo destino era pintar a si próprio, dando ao corpo físico o aspecto do moral, criando assim uma imagem grotesca, que, naquele momento, não era sequer capaz de observar, embora uma vaga idéia do que estava fazendo resvalasse por sua mente.
Finalmente, exausto, terminou sua obra. Sentou-se no banco mais próximo, encurvado exageradamente, deixando que o suor de seu rosto viesse a descansar no tecido de suas calças."Que tipo de entidade", se perguntou, "se apoderou de mim? E qual será o resultado do trabalho que me vi obrigado a fazer?". Não tinha a menor consciência a respeito da beleza da imagem, ou da falta dela. Não ousava ou saberia imaginar o resultado daquela experiência. Afinal, nunca havia, deliberadamente, desafiado quaisquer dogmas morais que conhecesse, embora admitisse que conhecia poucos e que, em geral, apenas fazia o que lhe agradasse, sem se preocupar muito com conceitos morais. Que imagem vê o inconseqüente ao fitar a própria alma?
Para este, a imagem era terrível demais. Ao levantar os olhos, viu algo com o que jamais saberia lidar. Ante a visão daqueles cabelos ralos, finos, brancos, das feridas que perpassavam o couro cabeludo, seu sangue pareceu congelar. Seu olho esquerdo era invadido por um verme, enquanto o direito era completamente preto, sem um vestígio sequer do azul ou do branco habituais. Os cortes em seu rosto, exibiam os ossos da face, e parte da mandíbula, sendo que os próprios ossos estavam rachados. Seus lábios praticamente não existiam, e em sua boca faltavam inúmeros dentes. A figura o retratava até os ombros, e era possível ver o sangue e os insetos nas feridas abertas em seu pescoço e a putrefação da carne de que consistia seu corpo abaixo dele. A camada de pele sobre o nariz era tão fina que chegava a ser translúcida, e as orelhas, incrivelmente vermelhas, sangravam por vários cortes. E o pintor gritou. Ao amanhecer ainda gritava, e jamais se recuperou do impacto causado por aquela imagem: a imagem formada pelas atitudes que lhe agradavam.

domingo, 5 de outubro de 2008

Metáfora

- Sabe, eu nunca entendi bem. Talvez seja coisa da minha cabeça, já que ela me largou tão repentinamente, e sem nenhum motivo específico... simplesmente me deixou aqui, sozinho. “Várias coisas, ao longo de todo esse tempo”, ela disse. Eu acho que entendo, mas não é tão simples assim. Quer dizer, eu sempre achei que os nossos bons momentos haviam sido o suficiente para superar os ruins. Isso não é suficiente? Eu fui surpreendido, e não consegui reagir direito. Quer dizer, foi tanto tempo, que a vida sem ela, agora, ficou estranha. Não parece a mesma coisa. Olha, eu não estou te chateando?
- Não, não, está tudo bem.
- Viu? Eu jamais faria isso antigamente. Ficar desabafando no ouvido de alguém que eu nem sequer conheço. Mas de qualquer modo é muito desagradável e estranho e eu nem sei direito porquê estou fazendo isso. Ei, obrigado por ouvir. Não é qualquer um que faria isso com tanta tranqüilidade. Qual o seu nome?
- Metáfora.
- Metáfora?
- Sim.
- Bem... diferente, mas já vi piores. Você é muito paciente, viu?
(...)
- E silenciosa.
- Eu preciso dizer alguma coisa?
- Não, não, eu só imaginei que você diria.
- As pessoas fazem isso com freqüência.
- Bem... de qualquer modo, Metáfora, você já passou por essa situação antes? Perder alguém muito importante para você?
- Sabe, falando desse jeito você passa a impressão de que ela morreu.
- Não, credo, nem gosto de pensar nisso. Ela ainda é importante demais para mim.
- Entendo. Bem, não, eu nunca perdi ninguém, de nenhum dos dois jeitos. Mas imagino que seja uma sensação horrível.
- Você nunca amou alguém?
- Não exatamente. Mas acho que algumas pessoas já me amaram, e já vi alguns sofrerem... não é nada bom.
- E olha que você mesma nunca passou por isso.
- Eu não sou de ficar muito tempo parada sabe. Eu passo rápido pelos lugares, e às vezes deixo uma marca. Costumo a ficar mais na memória.
- Nossa.
(...)
- Metáfora, sabe de uma coisa? Eu estava tão distraído que nem prestei atenção em você. Mas olhando agora, você parece interessante mesmo.
- Obrigada...
(...)
- Você é bem na sua, não é?
- Ah, eu prefiro me manter em silêncio, sabe.
- É, eu prefiro falar... pelo menos ultimamente. Estou desabafando, entende.
- Sim.
- Então. Acho que um acontecimento desses mexe com a gente.
- Eu, quando fico muito triste, gosto de sair de casa, espairecer... ter alguns dias que valem a pena.
- Nisso você tem razão viu. Aonde você gosta de ir?
- Ah, gosto muito de livros e filmes... algumas músicas também. Me sinto confortável sabe.
- Imagino... Sabe, Metáfora, você é uma pessoa interessante mesmo, realmente. Meio enigmática, na minha opinião, mas talvez seja isso mesmo que te faz ser chamativa assim. Uma expressão matemática, e o pesquisador que não consegue resolvê-la.
- Já vi que você gostou mesmo de mim.
- Tudo bem pra você?
- Claro, sem problemas.
- Então vamos. Quero te mostrar algumas das minhas idéias.
- Vamos, claro. Adoro idéias.