domingo, 31 de agosto de 2008

O incrível dilema do cachorro que pensava

Estava caído no chão, ainda sentindo a dor do chute que acabara de levar no estômago. Havia quebrado um copo alguns minutos antes, e agora pagava o preço. O chute, e a humilhação de ouvir: "Mau, muito mau".
Já devia ter se levantado, mas a dor acabou servindo de desculpa para refletir um pouco, deitado no chão.
Não agüentava mais aquela opressão, mas resistia, cabisbaixo, pois sabia que seria pior caso se voltasse contra seu opressor. Não enxergava, mas estava sendo derrotado, em parte, pela própria crença em sua incapacidade, crença arraigada em seu espírito desde sua infância, por castigos que, depois de seu crescimento, só serviram para incutir o ódio que ameaçava seu opressor, e o medo que o protegia.
Finalmente se levantou do chão da cozinha, e começou a se arrastar, rumo à sala.
A verdade, pensou enquanto o fazia, é que desejava liberdade. Apenas a possibilidade de viver sem que precisasse obedecer ordens o satisfaria. Mas essa possibilidade não existia, e ele vagava pela vida sob o peso da autoridade que definia o limite de seus passos, e das reprimendas invisíveis a que eram submetidos aqueles que quebravam as regras não escritas da vida em sociedade.
Foi até um outro cômodo e se deitou em algo que oferecesse mais conforto que o frio chão da cozinha, decidido a ficar ali o máximo que pudesse, até que ordens implícitas o obrigassem a se levantar novamente.

2 comentários:

Pricyla Koehler disse...

depois disso, fiquei com medo e compaixão...
do meu próprio cachorro e de mim mesma
=/

obs.: tu tá escrevendo deliciosamente bem =)

Marcus Vinícius disse...

Sorte que animais não pensam assim! Já teria estourado uma revolução a la George Orwell.

Whatever, eu comentei alguns posts anteriores. Não cometei o do "Gire", mas eu achei muito tri.

Abraço!