domingo, 31 de agosto de 2008

O incrível dilema do cachorro que pensava

Estava caído no chão, ainda sentindo a dor do chute que acabara de levar no estômago. Havia quebrado um copo alguns minutos antes, e agora pagava o preço. O chute, e a humilhação de ouvir: "Mau, muito mau".
Já devia ter se levantado, mas a dor acabou servindo de desculpa para refletir um pouco, deitado no chão.
Não agüentava mais aquela opressão, mas resistia, cabisbaixo, pois sabia que seria pior caso se voltasse contra seu opressor. Não enxergava, mas estava sendo derrotado, em parte, pela própria crença em sua incapacidade, crença arraigada em seu espírito desde sua infância, por castigos que, depois de seu crescimento, só serviram para incutir o ódio que ameaçava seu opressor, e o medo que o protegia.
Finalmente se levantou do chão da cozinha, e começou a se arrastar, rumo à sala.
A verdade, pensou enquanto o fazia, é que desejava liberdade. Apenas a possibilidade de viver sem que precisasse obedecer ordens o satisfaria. Mas essa possibilidade não existia, e ele vagava pela vida sob o peso da autoridade que definia o limite de seus passos, e das reprimendas invisíveis a que eram submetidos aqueles que quebravam as regras não escritas da vida em sociedade.
Foi até um outro cômodo e se deitou em algo que oferecesse mais conforto que o frio chão da cozinha, decidido a ficar ali o máximo que pudesse, até que ordens implícitas o obrigassem a se levantar novamente.

domingo, 17 de agosto de 2008

Alienação:

"perturbação mental, na qual se registra uma anulação da personalidade individual."

Tudo bem, a palavra tem um bando de definições. Mas essa é aquela em que nos focaremos agora.

Tudo bem que o termo "perturbação mental", usado pelo cara que escreveu a definição na wikipédia, foi um pouco exagerado, mas o resto está em ordem. Se registra uma anulação da personalidade individual.

Ou seja: o alienado deixa de ser um cara, e passa a ser um povo. Ele não tem vontades individuais, ele têm a vontade que todo mundo têm. Ele compra da marca que todo mundo compra, escuta a música que todo mundo ouve, e gosta do que todo mundo gosta. É uma ovelha, em outras palavras.

Isso faz com que eu me pergunte: a ovelha negra realmente é ruim? É a ovelha que mais pensa no meio do grupo. As ovelhas normais reagem todas do mesmo jeito, às mesmas coisas, o que indica falta de criatividade e individualidade. Já as ovelhas negras pensam. É preciso ser um pouco diferente para se destacar do grupo. E ao contrário do que os racistas pensam, a ovelha negra não se destaca do grupo pela cor. Se ela fosse vermelha, e agisse do mesmo modo como o resto do grupo, ela seria só uma outra ovelha. Talvez as outras ovelhas estranhassem, mas isso não é hora pra esse assunto. O fato é que para que a ovelha se destaque do grupo, ela precisa pensar diferente. Talvez eu tenha levado a boa e velha metáfora das ovelhas longe demais, mas isso não vêm ao caso. Todos estão entendendo, não é?

Bem, mas acontece o seguinte: as ovelhas, por mais parecidas que sejam, não são iguais. Cada uma é uma ovelha diferente, com desejos diferentes, apesar de todas as semelhanças que a alienação faz que existam nas ovelhas.

Sim, cada ovelha têm suas idiossincrasias, suas peculiaridades, mas há um fator em comum que talvez não seja culpa da alienação, mas inerente ao ser humano. As pessoas querem ser diferentes.

Quantas vezes você já viu alguém perfeitamente normal, que se acha completamente diferente da média? Alguém que se acha completamente original, mas vai no McDonalds tomar uma coca todo dia, com seu tênis da nike? Bem, é claro que cada um têm suas diferenças, como eu já escrevi duas vezes ali em cima, mas alguns são menos alienados que outros.

O engraçado é que, quando a pessoa é mais pobre, burra, ou qualquer outro fator que denucie que ela é diferente para o lado desagradável, ela tende a querer se igualar. Nietzsche acreditava que um dos maiores motivos que a religião atraía pessoas era porquê elas gostavam de entrar em um ambiente aonde todos eram considerados iguais. Elas não eram piores do que os outros ali, embora o fossem fora dali. Pode ser que alguém mais esperto tomasse o emprego daquela ovelha, mas ali dentro, os dois valiam o mesmo. Acreditar que todos são iguais é reconfortante. Falso, mas gostoso.

Em outras palavras: pessoas gostam de se achar melhores. Se achar pior que os outros é péssimo. O ego de ninguém cresce assim, e as pessoas tendem mais a ficar deprimidas com a "injustiça” do mundo que a fazer qualquer coisa a respeito, pois a sensação de inferioridade muitas vezes vêm acompanhada da sensação de impotência. Seres humanos gostam de negar o fato de que alguns são melhores que os outros, pois podem ser acusados do terrível crime de não possuir modéstia, que, citando mais uma vez Nietzsche, é o pedido de desculpas do humilde por ser melhor que o outro.

Independente de quem ler esse texto, provavelmente há alguém que conheça que, na sua opinião, é mais inteligente que você, e você não gosta de admitir isso, nem para você mesmo. Do mesmo modo, provavelmente você conhece alguém mais burro que você, mas embora isso não seja algo que te entristeça, você dificilmente diria isso para esta pessoa. Não por ela, mas porquê os outros veriam você como alguém que se acha melhor que os outros, independente de você ter razão ou não. As pessoas se sentem intimidadas por qualquer um melhor que elas, e não gostam que qualquer um diga “eu sou melhor que você”, ainda que seja verdade. É claro que há alguns diferentes quanto à isso, o que é bom, mas esse é o padrão.

Isso provavelmente é algo da espécie. No fundo, todo ser humano sabe que tem mais chances de procriar ( leia-se: transar )se for o melhor da turma. O mesmo vale para todos as outras coisas que as pessoas fazem, embora alguns acreditem que no fundo, o motivo que leva o ser humano a tudo é o sexo, mas isso não vêm ao caso também, ao menos não agora.

Eu, pessoalmente, acredito que as ovelhas brancas não sejam exatamente estúpidas. Afinal, ovelhas brancas têm algumas filhas de lã negra, e vice-versa. Os genes têm que vir de algum lugar, e é bem provável que a alienação (ou falta dela) seja algo que surge durante a vida. Com a criação, gosto pelas coisas certas e etc. Não acredito que o cérebro de alguém venha muito mais preparado que o de outra pessoa (acredito que possa acontecer, mas que não seja freqüente o suficiente para ser causa de um comportamento tão comum). O que faz a diferença são algumas escolhas. Todos sabem que ser diferente dá trabalho. Alguns estão dispostos, outros não, outros sequer pensam no assunto.

Não sei exatamente aonde queria chegar com este texto, mas acho que estou ao menos perto de lá, e posso confortavelmente parar por aqui. Afinal, não deve ser tão surpreendente um final um pouco diferente para um texto como esse.

bonsai

sábado, 16 de agosto de 2008

Gire

- Cara.

- !!!.

- Ei, calma, eu só quero fazer uma pergunta...

- O quê? (totalmente na defensiva)

- O que você está fazendo?

- Porquê?

- Olha, eu sei que parece uma intromissão, e talvez seja mesmo, mas você tem que admitir que um cara sentado no chão com as pernas entrelaçadas, no meio da praça, fazendo um movimento circular com o tronco, chama um pouco de atenção. Você podia inclusive parar de fazer isso enquanto a gente conversa.

- Porquê? Te incomoda?

- Bem, um pouco.

- Mas me agrada. Porquê o que te incomoda é mais importante que o que me agrada?

- Não é exatamente isso. O fato é que, se você parar, me agrada, e não te incomoda. E um agradado e nenhum incomodado, é melhor que um agradado e um incomodado.

- Como você sabe que não me incomoda?

- Ah, vai dizer que você se sente incomodado sempre que não está sentado no chão, girando? Sua vida deve ser uma bosta!

- Ah. Você venceu.

- Obrigado. Mas, olha, não pude deixar de notar que você continua girando.

- É que eu tive uma idéia melhor.

- Pois não?

- Senta ao meu lado e gira também. É agradável, e se você se movimentar junto comigo, em relação ao seu movimento, eu vou parecer parado. Além disso eu nunca tive uma companhia para girar...

- Ah, cara, nem parece agradável.

- Ah, quê isso! É muito bom. Você nunca tentou e não tem como saber. Aposto que está só com medo do que as pessoas vão pensar se te virem girando no chão da praça.

- Não sei... você sabe, o que te agrada pode não me agradar. Eu posso achar toda essa giração terrível.

- Ou pode achar ótima! Tenta, ué! O que custa? Se você não gostar, você pára. Afinal de contas, você não precisa continuar fazendo só porquê eu gosto. Ignore esse povo olhando! Se você veio falar comigo, é porquê você já é um pouco diferente deles... aproveita a chance.

- ... Tudo bem! Vamos lá. Pronto. As pernas são assim né?

- Exato.

- Beleza.

- Girar o tronco é meio cansativo no início, mas você pega o jeito.

- De onde foi que você tirou isso?

- Ah, foi meio instintivo. Um dia eu me sentei com as pernas desse jeito, e acabei girando o resto do corpo por instinto. Depois de um tempo, descobri que essa praça era o lugar mais gostoso para se fazer isso.

- Bacana... é até legal mesmo.

- Eu não disse? Imagina se você não tivesse tentado...

- Pois é... sabe de uma coisa? Eu acho que isso é até mais amplo.

- Como assim?

- Essa conversa.

- Mais ampla?

- É.

- Tipo o quê?

- Ah... não sei explicar... outro dia a gente fala sobre isso.

- Ok... mas continua girando!

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Reflexos

Blogs são criaturas flexíveis.

Apesar de este blog ser bem antigo, eu nunca mantive o hábito de escrever nele com muita freqüência. Isto exige certas coisas.

Para começar: o blog deve mostrar ou dizer algo. Pode mostrar os contos, poemas, notícias, ou até mesmo a vida pessoal do criador, ou dizer as opiniões do autor sobre essas mesmas coisas que foram publicadas em outros lugares.

Eu não tenho o hábito de assistir TV, não acompanho notícias, não costumo a fazer fofocas, e se fizesse, obviamente não o faria aqui. Coloco meus contos numa comunidade do orkut e estou fazendo um site pra isso, além de deixálos mais bem colocados nos google docs e estar pensando em voltar a usar o google groups que eu criei e está parado. Mas o groups tem o sério problema de que muitos têm preguiça de usá-lo.

Fora isso, eu acho que usar um blog só pra dizer como é minha vida, é narcisismo, carência, ou algum outro problema.

Não sobra muito, não é?

O fato é que quem escreve em um blog também pode apenas refletir sobre algo. Escrever seus pensamentos sobre certos acontecimentos, numa espécie de jornal subjetivo, o qual o autor quer compartilhar com outros. Para isso, podem existir vários motivos.

Saco cheio, viver com pessoas que não entendem muito bem, liberdade de expressão, pode-se fazer sozinho, ninguém vai interromper o fluir do pensamento... várias. Mas tudo inclui querer mostrar aos outros algo. Seja por curiosidade a respeito da reação, seja para divulgar algo ou para chamar a atenção, o objetivo é se mostrar.

É o que eu estava pensando, agora que resolvi me perguntar do porquê eu estou escrevendo um blog, e que diabos eu vou colocar nele.

O que veio à cabeça mais imediatamente foi: ajuda a articular as idéias. Escrever ajuda a aprender em um processo semelhante ao que leva quem ensina a aprender um pouco mais. Você acaba pensando mais sobre o assunto. E não é difícil se sentir curioso a respeito das opiniões de outros sobre algo que você fez.

Mas ampliando um pouco a discussão: você, que está lendo isso, acredita que todas as suas ações têm alguma justificativa? E eu estou falando de justificativas mais elaboradas, nada de "Porquê eu gosto.". Eu duvido disso. E acredito também que boa parte dos comportamentos estranhos que, por vezes, nos parecem incompreensíveis, nascem nesse "gostar" incomum. Todo mundo gosta de alguma coisa da qual, na verdade, não têm tanta certeza se deveria gostar.

Ah, eu tinha esquecido do meu outro problema. Quando eu desembesto a escrever, eu acabo me perdendo no assunto, e fazendo um texto ficar longo demais. Este aqui ainda têm taaantas "innerlines" que acho que vou deixar pra falar delas depois. Eu tô com sono também.

Não reclamem. Através desse texto eu duvido que vocês ficaram sabendo as motivações por trás desse blog, de qualquer modo.

Bonsai.