domingo, 28 de dezembro de 2008

diálogo sem nome

- Deprimido?

- Sim

- Porquê?

- Não sei muito bem... preocupações demais, acredito. A cabeça sempre cheia de ansiedades, medos e nervosismo. Não estou conseguindo controlar as coisas direito.

- Nossa. Nunca pensei que seria tão complicado administrar uma empresa como a sua.

- Não era, no início. Mas depois que crescemos, entramos no mercado de ações e passamos a ter que lidar com investimentos milionários... bem, os erros que se comete não são facilmente toleráveis quando você atinge esse nível. Mesmo como presidente da empresa, eu corro o risco de ser demitido. A preocupação é constante.

- Nossa... sinto muito mesmo. Se eu puder fazer alguma coisa...

- Não, não, obrigado. O que qualquer um poderia fazer? Eu acabaria ficando com a minha opinião no final. É perigoso aceitar conselhos nesse tipo de coisa. Mas falando em trabalho, como vai a padaria.

- Ah, como sempre, estou levando. Mês passado foi um pouco apertado, mas estou conseguindo alguma coisa. E não sei se você ficou sabendo, mas eu cheguei a publicar um livro.

- Minha nossa! Sério? Não tinha ouvido falar...

- Verdade... uma tiragem pequena, claro. É uma coisa nova, e não tão boa quanto eu gostaria, mas eu sempre sonhei em fazer isso. Não me importo em vender milhões sabe.
Eu ainda tenho algumas cópias na minha casa. Depois trago uma pra você.

- Muito bom mesmo hein... mas quando você escreveu?

- Eu costumo a ficar no caixa da padaria, lembra? Ali eu podia escrever sempre que não havia nenhum cliente, e ocasionalmente isso acontece. Costumava a gravar dentro de um pen drive e levar pra casa. então eu revisava, mudava, coisas assim. mas não tanto, é claro, pra poder sair com alguém, ou assistir a um filme.

- Nossa, nem fale. A quanto tempo eu não faço essas coisas...

- Ah, a vida sem elas não é a mesma coisa. Eu trabalho até as sete e meia, e depois aproveito o tempo livre pra essas coisas. Eu já deixo todos de sobre-aviso, caso eu me atrase, algum dos meus funcionários fica no caixa. Mas acho que só deixei isso acontecer uma vez, quando cheguei muito tarde em casa, depois de uma festa... eu adoro trabalhar lá, muitas vezes vou mesmo quando estou cansado...

- Bem que eu gostaria de dizer o mesmo viu. a minha nova banheira de hidromassagem, e as massagistas que eu contrato de vez em quando realmente me ajudam a relaxar... mas parece que o corpo não consegue se relaxar completamente quando a mente está muito irritada...

- Eu, há muito tempo ( e graças a deus) não sinto isso. qualquer dia desses, se você quiser, a gente se reúne, pra se distrair um pouco, talvez assistir um filme, ou coisa assim. eu conheci algumas garotas bem interessantes há pouco tempo.

- há muito tempo não ouço nada tão tentador viu... faz o seguinte... anota meu número, e me telefona quando tiver alguma coisa em mente.

- Tá ótimo.

Um mês depois, o padeiro já havia telefonado três vezes para seu amigo, mas ele não pôde ir em nenhuma delas. ele acabou desistindo, enquanto o empresário às vezes se pegava olhando para o telefone e pensando: se ele ligar agora, eu juro que vou!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Agenda

De tempos em tempos, eu organizo o meu computador.

Não que seja algo calculado, pois não é. às vezes me dá na cabeça de fazer, e faço. coloco um fone com uma música que agrade, e perco
alguns adoráveis minutos nesta atividade. a área de trabalho, e a pasta que chamei de "downloads" são sempre muito alteradas. por vezes, quando sinto falta
de alguma pasta que possa me ajudar na organização, a crio, e já a recheio. mudo o papel de parede, se o antigo já não me agradar mais, recorto e colo certas
coisas.

Sendo esta atividade assim, tão irregular, me lembra de comentar uma idéia que tive. não sei dizer se já a contei para algúem, e se já, que faça o
favor de pular o parágrafo.

A idéia pode soar estranha, mas a mim parece fazer todo sentido: na minha cabeça, organização é questão de sorte, e genética. Do mesmo modo como
pessoas desorganizadas têm sérias dificuldades em manter tudo em seu devido lugar, aqueles que nascem com uma disposição maior nesse sentido não entendem
como seus opostos conseguem viver de modo tão desorganizado. baseio esta teoria em experiência pessoal. especialmente na genuína expressão de surpresa de
minha mãe quando, em minha juventude, observava o quanto meu quarto era desorganizado e em uma parenta, ainda criança, que mantém tudo mais organizado que a
maioria dos adultos, de modo que seus pais até mesmo tentam desencorajar este excesso de zelo. acrescento a isso, ainda, a dificuldade que um tipo de pessoa
tem para se adaptar aos modos da outra, a esse respeito. para ilustrar isto, admito que comecei a refletir sobre o assunto por ser absolutamente incapaz de
utilizar uma agenda. por mais que quisesse manter nota de meus compromissos e apontamentos, simplesmente nunca consegui me habituar a essa útil ferramenta.

É claro, não penso em usar isso como desculpa para faltar a compromissos,
mas acho que é algo que influi diretamente na organização de minha vida.
O que se fazer, então?

Não se nasce com incapacidades, apenas com incompatibilidades. É claro que não se é capaz de voar, mas vocês me entendem.

E quanto à agenda?

Bem, ainda estou tentando.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Perfeição - (terror, antiga, e testemunhos dizem que assuta... rsrs)

Ela era como uma caixa de objetos afiados. E pontas. E manhãs ensolaradas misturadas com beijos profundos e cicatrizes. Ela era tudo isso, e parecia ainda mais enquanto andava apressada pela rua e pegava um ônibus, ou chamava um táxi.

Ela já havia me chamado antes. Eu a peguei e levei até em sua casa. Olhei-a com uma expressão de reconhecimento, e perguntei seu nome. Não era como aquelas mal-educadas que nem o nome dizem. Pareceu um pouco desconfiada, mas respondeu: “Débora”. O nome me atravessou e me deixou sorrindo enquanto eu dizia que ela se parecia com uma outra garota com quem eu havia estudado há algum tempo. Ela sorriu sem graça. Ambos ficamos calados até o fim do trajeto.

Ela pagou o valor marcado no taxímetro e desceu do carro. Eu me afastei bem vagarosamente, e a observei pelo retrovisor, até que ela entrou dentro de sua casa, desaparecendo de meu campo de visão.

Ela, depois disso, passou a ocupar quase que integralmente os meus pensamentos. Isso já havia acontecido antes, mas Débora não. Débora parecia especial. Débora era diferente das outras.

Ela parecia alheia a mim. Ao fato de que eu sempre a seguia em meu táxi, por vezes ignorando chamados de outros pedestre apenas para seguir o ônibus aonde ela havia entrado. Só não seguia táxis nos quais ela entrava pois sabia que alguns taxistas notariam. Mas a tentação era grande.

Ela era tudo em que eu pensava, assim como é praticamente tudo sobre o que consigo escrever agora. Sobre como seus cabelos, naturalmente ruivos e encaracolados se moviam quando ela andava, e como seus dentes perfeitamente brancos refletiam o sol... Mesmo o movimento de seus seios quando corria em direção a um ônibus, ou o gesto que fazia com a mão para chamar um táxi me enlouqueciam... até que, um dia, não pude mais resistir. Comecei a preparar minha casa para ela. O local aonde iria recebê-la, todos os lugares aonde ela poderia ir dali, embora provavelmente ficássemos em apenas um dos aposentos. Deixei tudo perfeito, como a ocasião merecia. Tudo preparado para o dia em que finalmente nos
conheceríamos pessoal e intimamente.

Ela estava linda. Usava uma blusa de lã roxa, e uma calça marrom. Estava chovendo naquele dia, e ela se protegia com um guarda-chuva, enquanto fazia sinal para algum táxi. Desta vez foi o meu táxi que se aproximou, e ela entrou. Simplesmente perfeita. Era minha Vênus.

Ela tentou abrir a porta traseira, que eu havia trancado e, obviamente, não conseguiu. Fiz sinal para que ela entrasse pela porta da frente, e ela o fez, sentando-se no banco do passageiro. “Me desculpe.”, eu disse. “a porta de trás está estragada.”. “Tudo bem”, respondeu ela. “Desde que me deixe em casa, está tudo bem.” Infelizmente eu teria que desapontá-la, pois naquele momento, não iríamos para a casa dela. Ao menos não por enquanto.
Ela não conversou durante nosso breve percurso. Parecia pensativa, o que facilitou um pouco as coisas para mim. Assim que paramos em um local vazio o suficiente para que não pudéssemos ser vistos através da chuva, eu abri o recipiente que se encaixava na lateral esquerda de meu banco, recipiente que eu mesmo instalara ali. Pressionei sua tampa e ela se abriu silenciosamente. Retirei de lá o lenço coberto com anestésico e cobri o rosto dela com ele. Ela olhava para a chuva através da janela, e eu pude ver seu rosto assustado ao ver o reflexo de meu braço contornando o seu corpo, de minha mão segurando o lenço... mas era tarde demais. Segundos depois, ela estava desmaiada. A luz verde do semáforo se acendeu, e
eu continuei dirigindo. Na próxima parada, apliquei-lhe um anestésico mais forte usando uma seringa. Nunca confiei nestes anestésicos inaláveis.

Ela era incrivelmente leve. Chegamos em minha casa, aonde a garagem é fechada, e a retirei do carro, carregando-a em meus braços até o quarto que havia preparado. Mesmo com todas as precauções tomadas, eu continuava pensando que talvez o tempo não fosse suficiente, e retirei suas roupas o mais rápida e cuidadosamente que pude. Algemei-a à cama, por medo que ela tentasse escapar ao acordar, uma vez que ela certamente não compreenderia o que estava acontecendo. O quarto era a prova de som, para impedir qualquer problema, caso ela gritasse. Agora só esperava o despertar da garota. Nada complicado, na verdade. Ela provavelmente gritaria quando acontecesse, e ele estaria ali para ouvir.

“Ela ficará famosa depois do que farei com ela.”, pensou. “Pelo menos em certos meios.” Já que passava em muitos dos lugares por onde Débora passava, provavelmente era uma questão de dias até que avistasse o primeiro cartaz de “Desaparecida”. Talvez até uma menção ao caso em um tablóide, ou em algum lugar do tipo. Deve ser triste perder alguém assim. “Desaparecido.”. Que modo horrível não? Pelo menos haveria esperança, embora ela nunca pudesse ser concretizada.

Ela se mexeu um pouco, e murmurou algumas palavras ininteligíveis. Dali a pouco estaria suficientemente desperta. Seu rosto era lindo. Muito branco, emoldurado pelos belos cabelos ruivos que já mencionei. Cabelos que cobriam apenas parte de seus seios, belos, fartos e naturais. Um corpo cujos defeitos eram insignificantes perto de suas qualidades. Pena que aquela beleza seria desfeita. Tentei imaginar como ficaria uma foto de seu rosto no cartaz de “Desaparecida”. Foi desagradável de certa forma, já que não consigo deixar de imaginar uma certa semelhança entre os cartazes de “desaparecido” e “procurado”, e eu com certeza apareceria, injustamente, no segundo. Imagino que se eu continuar agindo com o cuidado necessário, não há o que temer, mas este tipo de pensamento me dá calafrios. Ser condenado pela sociedade, ter de me esconder mesmo das mulheres que merecerem minha atenção... não. Isso não pode acontecer. Jamais. Por isso eu tomo todo o cuidado possível. Demorei muito para conseguir construir aquela casa, e me sustentava como taxista. Se eu me tornasse procurado, qualquer mulher se tornaria quase inalcançável para mim.

Ela não gritou. Engraçado. Acordou, e ficou calada, me olhando com os olhos
cheios de medo. Ela é uma mulher forte pelo visto. Mesmo depois de me ver não gritou. Nem um som saiu de sua linda boca. Isso nunca tinha acontecido antes. Eu sabia que ela era diferente das outras... ela era especial... ao menos para mim.

Ela, é claro, não poderia resistir ao medo para sempre. Tinha muitas semelhanças com as outras mulheres no que diz respeito às sensações. Balançava a cabeça e gritava freneticamente, ante a visão da faca em minhas mãos. Eu estava extasiado. A visão de seu corpo se agitando diante de mim me fazia mergulhar em uma sensação de poder que eu tinha certeza, só seria superada pelo momento em que ela se tornaria parte de mim.

Ela tentou o quanto podia se libertar das amarras que a prendiam, mas eu tinha experiência demais com aquelas cordas e nós para deixar que isto acontecesse. Ela não conseguiria se soltar. Ela era minha agora, e seria parte de mim em breve.

Ela gritava tão alto que achei que meus tímpanos estavam prestes a estourar. Mas eu gostava. Fazia parte do jogo. Quanto mais forte ela se mostrasse na luta pela vida, mais justificaria minha escolha. Mostraria que ela era mesmo a garota certa. De que vale uma vida pela qual não se luta? Sem isso, tudo seria incompleto. Deixei-a gritar à vontade. Afinal, fôra para isso que havia mandado construir aquele quarto. Porquê eu construiria uma ótima casa num lugar daqueles, para quê viveria numa rua escura e perigosa e fétida e solitária, senão para passar despercebido? Eu fazia tudo por elas. Era justo que elas fizessem tudo por mim. Elas não atendiam à meus desejos voluntariamente, mas eu não me importava. Elas não entendiam o que estava acontecendo ali.

Ela parou de gritar. Mergulhei tanto em meus pensamentos que acabei ficando parado, apenas olhando-a e segurando o facão, por um “longo” tempo. Pobre criança. Com apenas aqueles poucos segundos, ela conseguiu criar a ilusão de que sairia intacta dali. Como todas, se apegando à mais improvável esperança de se livrar do desespero. Mas não aconteceria assim.

Ela começou a gemer e chorar quando aproximei a faca de seu corpo. Apesar de seu tamanho, a faca tinha a lâmina dentada, para facilitar meu trabalho. Comecei a retirar o braço esquerdo de Débora.

Ela soltou seus primeiros gritos imediatamente. A dor provavelmente era excruciante, mas ela precisava sentir o sofrimento para que algo maior fosse alcançado. Eu estava tão excitado que achei que fosse explodir. Me sentia como uma criança enquanto retirava seus outros três membros. O sangue espirrava em mim e em minha camisa, formando manchas nas quais eu pensava ver imagens de Débora gritando, que aumentavam ainda mais o meu prazer conforme o suor do esforço cobria meu corpo. Em minha excitação, arranquei parte de seus seios com os dentes e as cuspi depois, para me concentrar depois no que fazia anteriormente. O cansaço que eu sentia era ao mesmo tempo extremo e insignificante. Débora desmaiara. Se
foi a dor ou a perda de sangue eu não sei, mas tinha certeza de que ela não voltaria a acordar.

Ela foi tão maravilhosa que me excito apenas com a lembrança. Seu corpo lindo agora me pertencia. Eu o usei. Eu a usei. Não queria ter o trabalho de serrar os ossos de seu tórax. Primeiro, abri seu abdome, e de lá retirei os órgãos de mais fácil acesso. Estômago, bexiga, fígado, intestinos... tudo muito sujo para mim. Retirei depois seus pulmões, e em seguida o coração, cortando todas as veias que ainda o ligavam ao corpo dela. Eu já não enxergava mais nada. Deixei que minha cabeça caísse, e ficasse parcialmente mergulhada no sangue da ferida aberta em suas entranhas, e comecei a comer o coração. A quantidade de sangue que entrava em minha boca era deliciosa. Eu sabia que agora tudo estava bem. Sabia que a garota iria para o paraíso, e que viveria eternamente do meu lado. Tive um orgasmo ao engolir a última parte do coração, e acabei adormecendo ali mesmo, em meio a todo aquele sangue. Por pouco meu rosto não ficou totalmente encoberto, afogado nas entranhas daquela mulher. Ela era mesmo perfeita.

Ela não gritava mais. Depois de e tornar parte de mim, nenhuma delas o fazia. Eu me pergunto se elas finalmente compreendiam.

Ela já não é mais Ela. Ela é parte de mim, e eu estou feliz por estarmos mais completos, pois ainda temos muito o que fazer. Agora vem a pior parte: a limpeza. Devo limpar tudo, colocar os restos em recipientes, e selá-los, para que o cheiro não denuncie sua presença. O que fazer com o que sobrou do corpo dela? Há um velho poço, que era usado antigamente e hoje foi deixado apenas como decoração em uma praça próxima. Talvez eu ache um momento para deixá-lo lá, caso a praça não seja muito movimentada. Seria engraçado ver as pessoas passando todos os dias diante do poço, sem a menor idéia dos segredos que ele guarda. E depois, sair em meu táxi.

Ela se foi, e eu procuro novamente. Só preciso de mais chances para me tornar perfeito.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Demônios

Ela me beijou novamente.

Olhava-me com ternura. Todos os demônios em minha mente pareciam desaparecer em momentos como aquele.

Se não soubesse, diria até mesmo que me amava.

Ás vezes me permitia esta dúvida. Mas pouco depois percebia que estava sendo infantil, e tentava controlar meus sentimentos.

Mas é muito mais difícil quando ela me olha daquele jeito. Quando ela me olha nos olhos por alguns segundos antes de me dar um beijo profundo, quando fecha os olhos para me dar um beijo leve... eu me perco. É um vício. Uma coisa diferente de tudo, melhor e pior, perfeita e falsa. Assim como o que eu sinto.

Meu Deus. O que essa garota faz comigo? Certas noites não consigo tirar seus olhos azuis de minha mente, e quase digo seu nome. Ela é uma terapia, uma chuva leve, o vento nos cabelos, um sonho. Ela é a personificação da beleza e tem a bondade de andar por entre os homens.
Eu preciso me livrar dela, mas não posso.

Hoje, ao deixá-la em casa, pensei no que penso todas as noites: esta é a última vez. Mas não é. Nunca é. Eu preciso disso. Quando entrego o dinheiro a ela me sinto digno de pena, e quase me esqueço disto quando ela me dá um último e profundo beijo. Eu sempre soube que se podia pagar por sexo. Mas aquilo? Preferia jamais ter descoberto.

Demônios. Todas as concepções da palavra são algo ruim, e isto descreve perfeitamente o que penso. Não tenho coragem para enfrentar as conseqüências de nada do que devo fazer. Sou um dependente dela e sou um dependente do acaso. Sei que minha atitude é errada, e vejo mais claro quando estou na cama com minha esposa. Ao lado dela me sinto incapaz de dormir e me pego pensando na outra. Vou vê-la novamente, eu sei. Em certo nível, não o quero. Em todos os níveis sei que é um erro. Mas vou voltar a vê-la.

O mais rápido possível.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A música como motivo

Houve uma espécie de silêncio.Talvez parecesse diferente por preceder o som que sairia dos auto-falantes do computador quase que instantaneamente.
O homem que movia o mouse, ao som da primeira nota, fez com o braço um movimento involuntário, que o impediu de clicar aonde queria.
Se viu, então, de pé. Ainda nos primeiros segundos da música, seu corpo se movia pela sala. Dançava.
Tentou desesperadamente parar. Não tinha sequer controle para se segurar em algo. As mãos se levantavam e as pernas se moviam. Até que se viu levado a pegar o casaco que havia deixado sobre a cadeira, abrir a porta, e sair.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Coisa complicada em uma história moderna

- Vem aqui cara. Eu preciso te perguntar uma coisa meio complicada.

- Odeio essas coisas. Mas vai lá, fala.

- É o seguinte: você sabe aquela garota com quem você ficou por um tempo? A Luana?

- Sei, claro.

- Ela, pelo que tudo indica, quer ficar comigo agora.

- Amh.

- E eu queria saber se está tudo bem.

- É claro, tá tudo bem.

- Tem certeza?

- Tenho.

- Olha lá...

- É sério, tá tranqüilo.

- Sabe, seres humanos tem uma grande tendência a não admitir para os outros coisas que eles não admitiriam para eles mesmos.

- O quê!?

- Seres humanos...

- Não, eu ouvi, mas o que isso tem a ver?

- Acontece cara, que você não tem uma noção muito boa do quanto gosta daquela garota.

- E você acha que sabe mais disso que eu?

- Eu acho que quase todo mundo que te conhece sabe mais disso que você, na verdade. Mas isso é comum. às vezes as pessoas querem ser poupadas de certos constrangimentos, e fingem ser o que não são. daí você convence a si mesmo que na verdade não importou nada, e fala para os outros que não importou, mas inconscientemente você toma atitudes que indicam que você se importou.

- eu não tenho certeza se entendi tudo isso.

- Entendeu. Não precisa pensar tanto, você já sabe disso em algum lugar nessa sua cabeça.

- Mnh.

- Olha, é o seguinte: pensa sobre ela. Pensa sobre como ela te fez sentir, sobre o tempo que vocês ficaram juntos, mesmo que não tenham namorado mesmo, porquê os dois diziam que não queriam. eu mesmo lembro um dia em que a gente foi pra um bar, e no final da noite encontramos vocês dois se beijando em cima do capô de um carro... parecia que tinha sido romântico, embora ninguém tenha dito isso com medo de parecer feminino.

- Aquele dia foi bom mesmo...

- E é a minha lembrança. Agora imagine as suas, o que você passou com ela. Lembre-se de tudo, e me fala,(honestamente, pelamordedeus): você realmente não se importaria, não sentiria nada de ruim se eu ficasse com ela?

- ...

- Tá bom. Eu sentiria.

- Há. Eu sabia. Eu te avisei que era uma coisa complicada...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

coisa romântica e antiga

as mãos se apertavam, mas era como carícia.

sentados, sentindo como se o infinito se resumisse ao visível e a eternidade se resumisse àquele momento.

e ainda assim, presos à inescapável consciência de que o tempo se acabará. de que aquele momento não durará para sempre. de que até mesmo aquele sentimento provavelmente se transformará em algo diferente. de que talvez isso aconteça em pouco tempo.

mas porquê não aproveitar os momentos simples e valiosos? o prazer que se sente quando o sol, recém-nascido do horizonte, toca a pele do rosto em uma manhã fria.

o simplesmente se deitar, ao lado de alguém de quem se gosta, sentindo o calor e o toque de seu corpo, deixando que ele fale ao invés de exigir palavras?

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Atenção, você está louco

Por favor, ignore o elefante branco, e saia do seu quarto.

É recomendável fechar os olhos,para que os movimentos ondulatórios da porta não o confundam. E há algo muito importante aqui: não mate sua mãe, como essa voz em sua cabeça parece querer que você faça.

Com os olhos fechados, vá até onde você sabe que fica a porta, e procure o local aonde você sabe que fica a maçaneta. Ignore a textura gosmenta da mesma, e tenha sempre em mente que esse procedimento só deve ser efetuado caso a porta de seu quarto esteja fechada.

Pode abrir os olhos agora, mas esteja preparado para visões fora do comum. Não se preocupe, o quadro que surgiu, aparentemente do nada, bem no meio da parede da sala, não está te acompanhando com o olhar. E não tenha falsas esperanças. A queda da inflação e a finalização das obras do metrô não passsam de produtos de uma mente perturbada.

Continue andando até achar um animalzinho azul, peludo, com um rabo longo, que segura uma banana em sua ponta. É o telefone. Pegue a banana. Ele não resistirá, mas você não deve, em hipótese alguma, acariciá-lo.

Uma voz no telefone dirá "Queijo". Resista à repentina tentação de dizer "Queijo não! Batata." Diga o seguinte:

"Bom dia, eu acho que enlouqueci."

"Coma alcachofras.", é a resposta que você ouvirá. Responda com a frase "Estou tendo alucinações."

"Pode ser no sábado. Estarei no bar, com orelhinhas de mickey para que você me identifique.", responderá uma voz, desta vez, masculina. Responda "Estou vendo coisas, e ouvindo vozes."

"A vaca atravessou a floresta. A águia pousou. Sua mãe. Eu. Cheetos de bacon.", dirá a voz, com um curioso tom anasalado. Você deve responder a isto dizendo seu endereço. Diga também que esperará na porta de sua casa.

"Por fora ou por dentro?", perguntará a voz. Não responda, é uma pegadinha. Prepare-se para atravessar o jardim.

Atravessar o jardim pode ser mais fácil de olhos fechados, também. Afinal, quase ninguém se sente confortável com a presença de insetos gigantes(os quais você pode atravessar sem medo).

Pegue a chave do portão, e a coloque dentro da bolha verde-translúcida. O portão se abrirá. Saia, e sente-se na cabeça do búfalo.

Parabéns! Você conseguiu! Agora é só esperar. Não saia daí e, por favor, não coma este papel. Ele pode ser útil para outras pessoas.

Equilíbrio

Ele acordou a 6 horas da manhã. Pensava em equilíbrio.

Não o equilíbrio referente a conseguir permanecer de pé sobre algo. Mas aquele que diz respeito a quão balanceada está sua vida.

Não existe uma filosofia que fala sobre isso? O quanto a vida deve ser equilibrada, em todos os aspectos? Deve-se dormir bem, se alimentar bem... mas será que o lazer não entra na equação?

Espremendo o travesseiro contra o rosto, ele pensava nisso. Afinal, de acordo com o óbvio, entre acordar de madrugada ( o que já consiste em tortura para quem gosta de aproveitar a noite, seja como for ), trabalhar 8 horas em algo monótono e repetitivo, sair sem ânimo pra nada, chegar em casa, assistir programas completamente imbecis na TV e dormir cedo novamente, não tem absolutamente nada de interessante. Cadê o equilíbrio?

O único problema da teoria era a parte que afirmava que também havia um equilíbrio entre o dinheiro que se ganha e o que se pode gastar.

Então ele se levantou, vestiu o uniforme, e passou a maior parte da tarde imaginando quantas outras pessoas usavam um uniforme parecido com aquele.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Ponto de vista moral

Os delicados movimentos de seu pincel-adaga eram, apesar de suaves, perfeitos. A vontade, dona da mão que os realizava não hesitava ou refletia, seguindo cegamente o instinto, talvez irracional, que inexoravelmente se responsabilizava pela impressão de tais imagens na tela. O pintor, atingido por aquele instinto, pintava sem cessar, como se algum demônio houvesse se apossado de sua mente, delineando os firmes traços que deixavam sua arma para que formassem uma figura grotesca de seu espírito.
"Auto-retrato nu" era o nome no qual pensara, ainda enquanto pintava as cores de sua imoralidade. Criando semi-consciente um abjeto espelho no qual se refletiam as feridas de sua alma. Pobre cujo destino era pintar a si próprio, dando ao corpo físico o aspecto do moral, criando assim uma imagem grotesca, que, naquele momento, não era sequer capaz de observar, embora uma vaga idéia do que estava fazendo resvalasse por sua mente.
Finalmente, exausto, terminou sua obra. Sentou-se no banco mais próximo, encurvado exageradamente, deixando que o suor de seu rosto viesse a descansar no tecido de suas calças."Que tipo de entidade", se perguntou, "se apoderou de mim? E qual será o resultado do trabalho que me vi obrigado a fazer?". Não tinha a menor consciência a respeito da beleza da imagem, ou da falta dela. Não ousava ou saberia imaginar o resultado daquela experiência. Afinal, nunca havia, deliberadamente, desafiado quaisquer dogmas morais que conhecesse, embora admitisse que conhecia poucos e que, em geral, apenas fazia o que lhe agradasse, sem se preocupar muito com conceitos morais. Que imagem vê o inconseqüente ao fitar a própria alma?
Para este, a imagem era terrível demais. Ao levantar os olhos, viu algo com o que jamais saberia lidar. Ante a visão daqueles cabelos ralos, finos, brancos, das feridas que perpassavam o couro cabeludo, seu sangue pareceu congelar. Seu olho esquerdo era invadido por um verme, enquanto o direito era completamente preto, sem um vestígio sequer do azul ou do branco habituais. Os cortes em seu rosto, exibiam os ossos da face, e parte da mandíbula, sendo que os próprios ossos estavam rachados. Seus lábios praticamente não existiam, e em sua boca faltavam inúmeros dentes. A figura o retratava até os ombros, e era possível ver o sangue e os insetos nas feridas abertas em seu pescoço e a putrefação da carne de que consistia seu corpo abaixo dele. A camada de pele sobre o nariz era tão fina que chegava a ser translúcida, e as orelhas, incrivelmente vermelhas, sangravam por vários cortes. E o pintor gritou. Ao amanhecer ainda gritava, e jamais se recuperou do impacto causado por aquela imagem: a imagem formada pelas atitudes que lhe agradavam.

domingo, 5 de outubro de 2008

Metáfora

- Sabe, eu nunca entendi bem. Talvez seja coisa da minha cabeça, já que ela me largou tão repentinamente, e sem nenhum motivo específico... simplesmente me deixou aqui, sozinho. “Várias coisas, ao longo de todo esse tempo”, ela disse. Eu acho que entendo, mas não é tão simples assim. Quer dizer, eu sempre achei que os nossos bons momentos haviam sido o suficiente para superar os ruins. Isso não é suficiente? Eu fui surpreendido, e não consegui reagir direito. Quer dizer, foi tanto tempo, que a vida sem ela, agora, ficou estranha. Não parece a mesma coisa. Olha, eu não estou te chateando?
- Não, não, está tudo bem.
- Viu? Eu jamais faria isso antigamente. Ficar desabafando no ouvido de alguém que eu nem sequer conheço. Mas de qualquer modo é muito desagradável e estranho e eu nem sei direito porquê estou fazendo isso. Ei, obrigado por ouvir. Não é qualquer um que faria isso com tanta tranqüilidade. Qual o seu nome?
- Metáfora.
- Metáfora?
- Sim.
- Bem... diferente, mas já vi piores. Você é muito paciente, viu?
(...)
- E silenciosa.
- Eu preciso dizer alguma coisa?
- Não, não, eu só imaginei que você diria.
- As pessoas fazem isso com freqüência.
- Bem... de qualquer modo, Metáfora, você já passou por essa situação antes? Perder alguém muito importante para você?
- Sabe, falando desse jeito você passa a impressão de que ela morreu.
- Não, credo, nem gosto de pensar nisso. Ela ainda é importante demais para mim.
- Entendo. Bem, não, eu nunca perdi ninguém, de nenhum dos dois jeitos. Mas imagino que seja uma sensação horrível.
- Você nunca amou alguém?
- Não exatamente. Mas acho que algumas pessoas já me amaram, e já vi alguns sofrerem... não é nada bom.
- E olha que você mesma nunca passou por isso.
- Eu não sou de ficar muito tempo parada sabe. Eu passo rápido pelos lugares, e às vezes deixo uma marca. Costumo a ficar mais na memória.
- Nossa.
(...)
- Metáfora, sabe de uma coisa? Eu estava tão distraído que nem prestei atenção em você. Mas olhando agora, você parece interessante mesmo.
- Obrigada...
(...)
- Você é bem na sua, não é?
- Ah, eu prefiro me manter em silêncio, sabe.
- É, eu prefiro falar... pelo menos ultimamente. Estou desabafando, entende.
- Sim.
- Então. Acho que um acontecimento desses mexe com a gente.
- Eu, quando fico muito triste, gosto de sair de casa, espairecer... ter alguns dias que valem a pena.
- Nisso você tem razão viu. Aonde você gosta de ir?
- Ah, gosto muito de livros e filmes... algumas músicas também. Me sinto confortável sabe.
- Imagino... Sabe, Metáfora, você é uma pessoa interessante mesmo, realmente. Meio enigmática, na minha opinião, mas talvez seja isso mesmo que te faz ser chamativa assim. Uma expressão matemática, e o pesquisador que não consegue resolvê-la.
- Já vi que você gostou mesmo de mim.
- Tudo bem pra você?
- Claro, sem problemas.
- Então vamos. Quero te mostrar algumas das minhas idéias.
- Vamos, claro. Adoro idéias.

domingo, 31 de agosto de 2008

O incrível dilema do cachorro que pensava

Estava caído no chão, ainda sentindo a dor do chute que acabara de levar no estômago. Havia quebrado um copo alguns minutos antes, e agora pagava o preço. O chute, e a humilhação de ouvir: "Mau, muito mau".
Já devia ter se levantado, mas a dor acabou servindo de desculpa para refletir um pouco, deitado no chão.
Não agüentava mais aquela opressão, mas resistia, cabisbaixo, pois sabia que seria pior caso se voltasse contra seu opressor. Não enxergava, mas estava sendo derrotado, em parte, pela própria crença em sua incapacidade, crença arraigada em seu espírito desde sua infância, por castigos que, depois de seu crescimento, só serviram para incutir o ódio que ameaçava seu opressor, e o medo que o protegia.
Finalmente se levantou do chão da cozinha, e começou a se arrastar, rumo à sala.
A verdade, pensou enquanto o fazia, é que desejava liberdade. Apenas a possibilidade de viver sem que precisasse obedecer ordens o satisfaria. Mas essa possibilidade não existia, e ele vagava pela vida sob o peso da autoridade que definia o limite de seus passos, e das reprimendas invisíveis a que eram submetidos aqueles que quebravam as regras não escritas da vida em sociedade.
Foi até um outro cômodo e se deitou em algo que oferecesse mais conforto que o frio chão da cozinha, decidido a ficar ali o máximo que pudesse, até que ordens implícitas o obrigassem a se levantar novamente.

domingo, 17 de agosto de 2008

Alienação:

"perturbação mental, na qual se registra uma anulação da personalidade individual."

Tudo bem, a palavra tem um bando de definições. Mas essa é aquela em que nos focaremos agora.

Tudo bem que o termo "perturbação mental", usado pelo cara que escreveu a definição na wikipédia, foi um pouco exagerado, mas o resto está em ordem. Se registra uma anulação da personalidade individual.

Ou seja: o alienado deixa de ser um cara, e passa a ser um povo. Ele não tem vontades individuais, ele têm a vontade que todo mundo têm. Ele compra da marca que todo mundo compra, escuta a música que todo mundo ouve, e gosta do que todo mundo gosta. É uma ovelha, em outras palavras.

Isso faz com que eu me pergunte: a ovelha negra realmente é ruim? É a ovelha que mais pensa no meio do grupo. As ovelhas normais reagem todas do mesmo jeito, às mesmas coisas, o que indica falta de criatividade e individualidade. Já as ovelhas negras pensam. É preciso ser um pouco diferente para se destacar do grupo. E ao contrário do que os racistas pensam, a ovelha negra não se destaca do grupo pela cor. Se ela fosse vermelha, e agisse do mesmo modo como o resto do grupo, ela seria só uma outra ovelha. Talvez as outras ovelhas estranhassem, mas isso não é hora pra esse assunto. O fato é que para que a ovelha se destaque do grupo, ela precisa pensar diferente. Talvez eu tenha levado a boa e velha metáfora das ovelhas longe demais, mas isso não vêm ao caso. Todos estão entendendo, não é?

Bem, mas acontece o seguinte: as ovelhas, por mais parecidas que sejam, não são iguais. Cada uma é uma ovelha diferente, com desejos diferentes, apesar de todas as semelhanças que a alienação faz que existam nas ovelhas.

Sim, cada ovelha têm suas idiossincrasias, suas peculiaridades, mas há um fator em comum que talvez não seja culpa da alienação, mas inerente ao ser humano. As pessoas querem ser diferentes.

Quantas vezes você já viu alguém perfeitamente normal, que se acha completamente diferente da média? Alguém que se acha completamente original, mas vai no McDonalds tomar uma coca todo dia, com seu tênis da nike? Bem, é claro que cada um têm suas diferenças, como eu já escrevi duas vezes ali em cima, mas alguns são menos alienados que outros.

O engraçado é que, quando a pessoa é mais pobre, burra, ou qualquer outro fator que denucie que ela é diferente para o lado desagradável, ela tende a querer se igualar. Nietzsche acreditava que um dos maiores motivos que a religião atraía pessoas era porquê elas gostavam de entrar em um ambiente aonde todos eram considerados iguais. Elas não eram piores do que os outros ali, embora o fossem fora dali. Pode ser que alguém mais esperto tomasse o emprego daquela ovelha, mas ali dentro, os dois valiam o mesmo. Acreditar que todos são iguais é reconfortante. Falso, mas gostoso.

Em outras palavras: pessoas gostam de se achar melhores. Se achar pior que os outros é péssimo. O ego de ninguém cresce assim, e as pessoas tendem mais a ficar deprimidas com a "injustiça” do mundo que a fazer qualquer coisa a respeito, pois a sensação de inferioridade muitas vezes vêm acompanhada da sensação de impotência. Seres humanos gostam de negar o fato de que alguns são melhores que os outros, pois podem ser acusados do terrível crime de não possuir modéstia, que, citando mais uma vez Nietzsche, é o pedido de desculpas do humilde por ser melhor que o outro.

Independente de quem ler esse texto, provavelmente há alguém que conheça que, na sua opinião, é mais inteligente que você, e você não gosta de admitir isso, nem para você mesmo. Do mesmo modo, provavelmente você conhece alguém mais burro que você, mas embora isso não seja algo que te entristeça, você dificilmente diria isso para esta pessoa. Não por ela, mas porquê os outros veriam você como alguém que se acha melhor que os outros, independente de você ter razão ou não. As pessoas se sentem intimidadas por qualquer um melhor que elas, e não gostam que qualquer um diga “eu sou melhor que você”, ainda que seja verdade. É claro que há alguns diferentes quanto à isso, o que é bom, mas esse é o padrão.

Isso provavelmente é algo da espécie. No fundo, todo ser humano sabe que tem mais chances de procriar ( leia-se: transar )se for o melhor da turma. O mesmo vale para todos as outras coisas que as pessoas fazem, embora alguns acreditem que no fundo, o motivo que leva o ser humano a tudo é o sexo, mas isso não vêm ao caso também, ao menos não agora.

Eu, pessoalmente, acredito que as ovelhas brancas não sejam exatamente estúpidas. Afinal, ovelhas brancas têm algumas filhas de lã negra, e vice-versa. Os genes têm que vir de algum lugar, e é bem provável que a alienação (ou falta dela) seja algo que surge durante a vida. Com a criação, gosto pelas coisas certas e etc. Não acredito que o cérebro de alguém venha muito mais preparado que o de outra pessoa (acredito que possa acontecer, mas que não seja freqüente o suficiente para ser causa de um comportamento tão comum). O que faz a diferença são algumas escolhas. Todos sabem que ser diferente dá trabalho. Alguns estão dispostos, outros não, outros sequer pensam no assunto.

Não sei exatamente aonde queria chegar com este texto, mas acho que estou ao menos perto de lá, e posso confortavelmente parar por aqui. Afinal, não deve ser tão surpreendente um final um pouco diferente para um texto como esse.

bonsai

sábado, 16 de agosto de 2008

Gire

- Cara.

- !!!.

- Ei, calma, eu só quero fazer uma pergunta...

- O quê? (totalmente na defensiva)

- O que você está fazendo?

- Porquê?

- Olha, eu sei que parece uma intromissão, e talvez seja mesmo, mas você tem que admitir que um cara sentado no chão com as pernas entrelaçadas, no meio da praça, fazendo um movimento circular com o tronco, chama um pouco de atenção. Você podia inclusive parar de fazer isso enquanto a gente conversa.

- Porquê? Te incomoda?

- Bem, um pouco.

- Mas me agrada. Porquê o que te incomoda é mais importante que o que me agrada?

- Não é exatamente isso. O fato é que, se você parar, me agrada, e não te incomoda. E um agradado e nenhum incomodado, é melhor que um agradado e um incomodado.

- Como você sabe que não me incomoda?

- Ah, vai dizer que você se sente incomodado sempre que não está sentado no chão, girando? Sua vida deve ser uma bosta!

- Ah. Você venceu.

- Obrigado. Mas, olha, não pude deixar de notar que você continua girando.

- É que eu tive uma idéia melhor.

- Pois não?

- Senta ao meu lado e gira também. É agradável, e se você se movimentar junto comigo, em relação ao seu movimento, eu vou parecer parado. Além disso eu nunca tive uma companhia para girar...

- Ah, cara, nem parece agradável.

- Ah, quê isso! É muito bom. Você nunca tentou e não tem como saber. Aposto que está só com medo do que as pessoas vão pensar se te virem girando no chão da praça.

- Não sei... você sabe, o que te agrada pode não me agradar. Eu posso achar toda essa giração terrível.

- Ou pode achar ótima! Tenta, ué! O que custa? Se você não gostar, você pára. Afinal de contas, você não precisa continuar fazendo só porquê eu gosto. Ignore esse povo olhando! Se você veio falar comigo, é porquê você já é um pouco diferente deles... aproveita a chance.

- ... Tudo bem! Vamos lá. Pronto. As pernas são assim né?

- Exato.

- Beleza.

- Girar o tronco é meio cansativo no início, mas você pega o jeito.

- De onde foi que você tirou isso?

- Ah, foi meio instintivo. Um dia eu me sentei com as pernas desse jeito, e acabei girando o resto do corpo por instinto. Depois de um tempo, descobri que essa praça era o lugar mais gostoso para se fazer isso.

- Bacana... é até legal mesmo.

- Eu não disse? Imagina se você não tivesse tentado...

- Pois é... sabe de uma coisa? Eu acho que isso é até mais amplo.

- Como assim?

- Essa conversa.

- Mais ampla?

- É.

- Tipo o quê?

- Ah... não sei explicar... outro dia a gente fala sobre isso.

- Ok... mas continua girando!

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Reflexos

Blogs são criaturas flexíveis.

Apesar de este blog ser bem antigo, eu nunca mantive o hábito de escrever nele com muita freqüência. Isto exige certas coisas.

Para começar: o blog deve mostrar ou dizer algo. Pode mostrar os contos, poemas, notícias, ou até mesmo a vida pessoal do criador, ou dizer as opiniões do autor sobre essas mesmas coisas que foram publicadas em outros lugares.

Eu não tenho o hábito de assistir TV, não acompanho notícias, não costumo a fazer fofocas, e se fizesse, obviamente não o faria aqui. Coloco meus contos numa comunidade do orkut e estou fazendo um site pra isso, além de deixálos mais bem colocados nos google docs e estar pensando em voltar a usar o google groups que eu criei e está parado. Mas o groups tem o sério problema de que muitos têm preguiça de usá-lo.

Fora isso, eu acho que usar um blog só pra dizer como é minha vida, é narcisismo, carência, ou algum outro problema.

Não sobra muito, não é?

O fato é que quem escreve em um blog também pode apenas refletir sobre algo. Escrever seus pensamentos sobre certos acontecimentos, numa espécie de jornal subjetivo, o qual o autor quer compartilhar com outros. Para isso, podem existir vários motivos.

Saco cheio, viver com pessoas que não entendem muito bem, liberdade de expressão, pode-se fazer sozinho, ninguém vai interromper o fluir do pensamento... várias. Mas tudo inclui querer mostrar aos outros algo. Seja por curiosidade a respeito da reação, seja para divulgar algo ou para chamar a atenção, o objetivo é se mostrar.

É o que eu estava pensando, agora que resolvi me perguntar do porquê eu estou escrevendo um blog, e que diabos eu vou colocar nele.

O que veio à cabeça mais imediatamente foi: ajuda a articular as idéias. Escrever ajuda a aprender em um processo semelhante ao que leva quem ensina a aprender um pouco mais. Você acaba pensando mais sobre o assunto. E não é difícil se sentir curioso a respeito das opiniões de outros sobre algo que você fez.

Mas ampliando um pouco a discussão: você, que está lendo isso, acredita que todas as suas ações têm alguma justificativa? E eu estou falando de justificativas mais elaboradas, nada de "Porquê eu gosto.". Eu duvido disso. E acredito também que boa parte dos comportamentos estranhos que, por vezes, nos parecem incompreensíveis, nascem nesse "gostar" incomum. Todo mundo gosta de alguma coisa da qual, na verdade, não têm tanta certeza se deveria gostar.

Ah, eu tinha esquecido do meu outro problema. Quando eu desembesto a escrever, eu acabo me perdendo no assunto, e fazendo um texto ficar longo demais. Este aqui ainda têm taaantas "innerlines" que acho que vou deixar pra falar delas depois. Eu tô com sono também.

Não reclamem. Através desse texto eu duvido que vocês ficaram sabendo as motivações por trás desse blog, de qualquer modo.

Bonsai.