segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Criptonita
Esse conto abaixo não é meu. é do Victor Stéfano, amigo meu que tem o blog http://blogdesetecabecas.blogspot.com/ que é um dos blogs na lista aí do lado da pág. Leiam! o blog dele é bem legal. Segue um conto que ele escreveu, pra vocês terem uma idéia.
Criptonita
Sarah Miller tem o poder de chegar aos pontos de ônibus precisamente 30 segundos depois do Linha 461. O próximo ônibus que pára na porta da sua casa só passa daqui a uma hora, e todas as lojas acabaram de fechar. Procura na bolsa algo que prometeu ao médico nunca mais por na boca.
Tinha esse problema com os médicos mais simpáticos: eles a faziam prometer se cuidar.
Devia voltar pra casa correndo agora, tentar perder um pouco de peso, pensa, olhando a horda de velhos tomar a ciclovia, correndo com seus shorts reluzentes pra não serem atropelados naquele horário em que já não se vê mais sol, mas também não há postes acesos.
Olha com gratidão pros últimos cigarros encontrados na bolsa. Os cigarros têm o poder de passar o tempo.
No apartamento decorado apenas com os próprios quadros, Fred Novaes perdeu outra batalha contra o seu metabolismo. Do confronto, sobrou uma única cartela de comprimidos a ser derrotada pela resistência que vai se adquirindo depois da quarta tentativa de suicídio
Numa dimensão paralela, o telefone toca, e, pelo horário, Leon já deve estar bêbado e precisando urgentemente saber se esteve dando pra outros caras enquanto ele tirava férias com a família da namorada de fachada. "Tenho 38 anos e trabalho numa concessionária. Não é que nem pintar quadros. Nesse meio não é legal gostar de homem."
Fred procura, misturando os tons de verde, a cor dos seus comprimidos preferidos. A garota que lhe passara os chamava de "criptonita". Eles conseguiam deixá-lo mole como um defunto por quase dois dias.
Cansada de viagem Racquel Puonto sentou-se no fundo e esperou que alguém viesse lhe perguntar o que estava fazendo. Se o tivessem feito, teria respondido que estava simplesmente farta do modo como o marido vinha menosprezando sua identidade secreta, expondo-a cheio de deboche quando quer que lhe fosse dada a chance, nos encontros da firma ou até nos churrascos daquela família esnobe dele. "Outra que fez admnistração à toa, essa aí. Desistiu no meio do curso e foi fazer odonto... desistiu também e virou professora, nunca termina o que começa. Quando conheci tava escrevendo um livro. Até hoje não li uma página desse livro."
Pensara na possibilidade centenas de vezes, escrevera sobre aquilo até. Ir para uma cidade onde não fosse ninguém, e ainda não houvesse aquele olhar de cobrança lhe perseguindo onde quer que fosse, e um dia, de repente, todos ficariam maravilhados em saber que tinham uma escritora na vizinhança. Sempre travava na hora de comprar a passagem. Agora lá estava ela, a caminho do hotel do anúncio que guardara da última vez que visitara a cidade. Mas ninguém veio lhe perguntar coisa alguma.
Esperou que o próximo quebra-molas acordasse o trocador, e foi até lá, começar uma conversa a qualquer custo e deixar claro de uma vez por todas por que estava ali.
Foi quando um louco cheio de tinta verde pela cara entrou na frente do ônibus.
Fred já está voando quando o Linha 461 consegue finalmente frear, e Sarah Miller corre pela primeira vez como os outros aposentados, desobstruindo seus pulmões, para alcançar seu ônibus. Do lado de dentro, o trocador acorda com dedos ansiosos de mulher tamborilando sobre o caixa. Nossos heróis avançam, certos de que hoje o universo vai ter o que merece.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Momentos
Mas pra isso é necessária a criação de padrões que vão ser a base de nossas descobertas; premissas da vida.
Primerira:
Quanto mais durar, melhor.
Segunda:
Dura mais se é feita de mais momentos.
E daí partimos. Definimos.
Momento: Situação ou condição temporária. oportunidade. ocasião propícia; intervalo de tempo.
O momento é então um espaço de tempo no qual há atitudes a serem tomadas.
Então continuemos. Diferenciemos.
Você se senta e assiste à TV por duas horas.
Outro dia.
Você se senta e assiste à TV por duas horas.
Outro dia.
Você se senta e assiste à TV por duas horas.
Tem mesmo certeza que são três momentos? Parecem o mesmo.
O que há igual nos momentos não é novo. É um mesmo momento, condição, ocasião, intervalo de tempo igual.
No qual se fez algo que já se fez algo que já se fez. É ler frase simples duas vezes.
Momentos iguais não são mais de um momento; contam uma vez só, uma vez que um evento só aconteceu.
E daí concluímos.
Já vimos pessoas que aos vinte viveram tantos momentos que os velhos parecem crianças. Pessoas que tendo cinqüenta nem mesmo chegaram à vida que alguns com
metade da idade alcançam. Viveram os mesmos momentos os mesmos momentos por tanto tempo que viram o tempo passar tão rápido que não perceberam. Se contam
a vida concluem que nada fizeram em longos anos iguais que passaram como se nada tivesse acontecido.
Faltaram momentos.
Os momentos que fazem uma vida longa.
Batalhar, crescer, viajar, entrar num eclipse e sair do outro lado, como se a vida se resumisse ao momento, mesmo que seja uma série.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Utopia
forma de vida inteligente.
O planeta, a mais de 1,5 milhões de anos luz da Terra, era o segundo de seu sistema solar, e
possuía uma atmosfera semelhante à nossa, de modo que podíamos permanecer lá sem a
necessidade de qualquer equipamento. Os habitantes do planeta pareciam ser inteligentes e, talvez
por haverem evoluído em um planeta parecido com o nosso, eram fisicamente muito semelhantes a
seres humanos.
Sem utilizar símbolos ou sinais que pudessem ser erroneamente interpretados, entregamos
uma mensagem, e por meses agimos de modo quase obediente, enquanto ajudávamos na tradução
da mesma, de modo que ambos os povos começavam a aprender a linguagem um do outro. Eles
também haviam descoberto os princípios das viagens interespaciais, ou melhor, um princípio, uma
vez que suas naves funcionavam de modo diferente das nossas. Nossos físicos, engenheiros e
matemáticos, de olhos cheios, ansiosamente agiram em prol do intercâmbio de tecnologias, e foi
pouco tempo depois que o problema surgiu.
Cerca de 100 anos antes deste episódio, os seres humanos haviam desenvolvido a Teoria
Unificada, uma teoria física que explicava o funcionamento de toda a existência, de quarks a
universos, finalmente se tornando capazes de desenvolver novas tecnologias baseados em uma
espécie de conhecimento concreto e universal. A partir deste ponto, foi possível que a tecnologia
das viagens interespaciais fosse finalmente encontrada. Assim fizeram também os Nils, como são
chamados; ambos os povos, apesar de separados por anos-luz de distância, haviam desenvolvido
leis universais, e tecnologias incríveis a partir das mesmas. Só havia, na verdade, um problema: as
leis eram diferentes.
A física, como é bem sabido, não pode ser completamente explicada por palavras simples;
incontáveis cálculos são necessários para que se encontre a grande solução a que cada um dos povos
chegou. Mas era fácil saber que as soluções eram diferentes pelo simples fato de que cada uma
previa a existência de um número diferente de universos.
Os físicos de ambos os planetas, repentinamente, se tornaram céticos a respeito da
tecnologia dos alienígenas. Mas como alguns sabiamente fizeram questão de ressaltar, os
estrangeiros haviam chegado até ali(na época já haviam naves de Nil na Terra) utilizando de
tecnologia desenvolvida a partir daqueles cálculos. Era improvável que uma destas duas físicas
fosse melhor que a outra em absolutamente todos os aspectos, sendo, então, quase certo que ao se
aprender o método que os estrangeiros utilizavam em seus cálculos, seria possível se obter avanços
em certas áreas.
Alguns físicos, de ambos os planetas, permaneciam céticos, enquanto outros – entre eles
alguns dos melhores – passaram a estudar com afinco os métodos utilizados pelos estrangeiros.
Cerca de vinte anos terrestres se passaram, até que uns pudessem dizer que compreendiam
totalmente a física dos outros. Destes, cerca de cinco anos foram gastos com experiências. Sob o
comando do brilhante físico terrestre Kingson, os humanos assistiam, assustados, ao sucesso da
física extraterrestre em cada teste. Tudo foi tentado. Cada hipótese que parecia capaz de provar que
um erro existia na física daquele planeta era exaustivamente testada. Enquanto isto, o líder dos Nils,
Vallians(numa tradução livre), fazia o mesmo, até que o inesperado por todos aconteceu; a
conclusão de ambos os pesquisadores foi a mesma; não havia um erro sequer em toda a enorme
série de cálculos de qualquer um dos povos.
Os físicos que de início haviam se mostrado céticos, tentavam desesperadamente se
atualizar. Poucos achavam que o time de físicos de ambos os planetas poderia estar completamente
errado, e aqueles que o faziam, necessariamente, precisavam conhecer a fundo a física estrangeira
para que pudessem ter alguma esperança de encontrar o erro até então ignorado, e possivelmente
inexistente. Dentre aqueles que já admitiam a realidade, a procura se voltava para um novo e
intrigante mistério: porquê? Os esforços persistiam em certos centros de pesquisas, envolvendo
pesquisadores de ambos os planetas. Foram efetuadas avaliações de eficiência de aparelhos
terrestres e nils, e apenas os melhores para cada objetivo foram selecionados. Aqueles
pesquisadores formaram um dos grupos mais eficientes da história. A mesma mente aberta que lhes
permitira acreditar na possível qualidade da física estrangeira, permitiu também que pudessem
enxergar as tecnologias que poderiam ser desenvolvidas a partir de suas pesquisas. Os
conhecimentos humanos e Nil se somaram, e a mistura de ambos resultou na criação de uma
espécie de cálculo mais avançado, gerando descobertas e tecnologias jamais antes imaginadas. Com
elas, os físicos conseguiram encontrar novos planetas habitáveis, porém desertos e, com a infindável
quantidade de mundos no universo, humanos e Nils não precisaram guerrear entre si por recursos,
não tendo assim nenhum motivo maior para lutas. A conclusão era simples: se todos pudessem
realizar viajens interestelares com facilidade, não faltaria espaço ou alimento jamais, lutas se
tornariam desnecessárias, e as pessoas poderiam se dedicar àquilo que as interessasse, de modo que
aqueles que se interessavam pelas descobertas da física poderiam se juntar aos pesquisadores, o
mesmo valendo para qualquer outra profissão ou hobby.
Não muito tempo depois, um artigo foi publicado; havia sido escrito por um filósofo, com
palavras simples, mas apesar de algumas inconsistências, muitos o consideraram como o mais
próximo à resposta pelos físicos procurada.
“Tudo é uma questão de perspectiva.” dizia o texto. “Cada povo cresceu e evoluiu em um
planeta diferente, de modo diferente, desenvolvendo assim, cálculos diferentes, uma vez que são
remotíssimas as chances de um desenvolvimento igual, ordenado como o nosso, surgindo em um
lugar abissalmente distante e extremamente diferente, na mais incrível coincidência. Cada física
estudada saiu de um ponto diferente, de modo diferente, e observou o universo de uma perspectiva
diferente. Um resultado diferente era de se esperar.”
O texto continuava por várias páginas, a partir desta idéia principal, impressionando os
líderes do centro de pesquisas interplanetárias, Kingson e Vallians. Em conjunto, prepararam um
texto a ser lido por Vallians na Terra, e por Kingson, em Nil, não sem antes conversar com os outros
membros da equipe de pesquisas, que concordaram, em sua maioria.
“Concordamos”, dizia um trecho do discurso, “com o fato de que, apesar de diferenças de
perspectiva, o resultado final deveria ser equivalente. Mas ao mesmo tempo, enxergamos a
evolução tecnológica que o intercâmbio de informações nos trouxe, acreditando assim, que o
intercâmbio de tecnologias poderia ser bem sucedido com seres de um terceiro, quarto, ou quinto
planeta que seja abrigo de vida inteligente, provocando, cada vez mais, a integração de diferentes
perspectivas, e o conseqüente desenvolvimento de novas tecnologias.”
“Nossos cálculos, como esta situação nos mostrou, funcionam apenas em seu próprio
contexto, o contexto que desenvolvemos para eles e a partir deles. Vamos, pois, integrá-los a novos
cálculos! Formaremos novas maneiras de pensar a partir da junção daquelas que conhecemos,
criando uma física melhor, mais avançada, e, talvez um dia, perfeita.”
domingo, 29 de novembro de 2009
"Eu lírico" ou "Contexto"
Flores cinzentas
Haviam potes de vidro estampados com flores amarelas empilhados em um canto da loja, e uma velha senhora, sentada atrás de um balcão, esperava que alguém entrasse.
Ela não entendia porquê estava vendendo tão pouco. As pequenas peças de decoração, os bonitos quadros(a maioria de natureza morta), as vasilhas e os vasos. Quase tudo permanecia lá. Provavelmente, não conseguiria sequer pagar o aluguel daquele cômodo, e sabia disso, emboaa preferisse tentar não pensar.
Como tudo seria mais fácil se seu filho ainda estivesse com ela! Nunca entendeu como ele pôde deixá-la daquele modo. Ela era sua mãe; cuidara dele por toda a vida, e agora ele a abandonava, como se ela houvesse se tornado um fardo que ele não se dispõe a carregar, mesmo que ela o tenha carregado por tanto tempo. Tudo havia ficado muito mais complicado. Desde que o marido morrera então…
Não! Melhor não pensar nisso. Melhor enxugar as lágrimas antes que algum cliente entre, e veja. Mas nenhum cliente entrava. Ela tinha que se esforçar, tinha que vender os produtos da loja na qual investira toda a herança deixada por seu marido; tinha que fazer render suas únicas posses. Tinha que multiplicar seu pouco dinheiro.
Mas ninguém entrava.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
aqui deveria ter uma outra crônica
se eu me lembrar eu coloco aqui...
Crônica
Acho que uma das coisas que me chamou atenção nele foi que uma parte de seus pelos brancos estava suja de algo que parecia sangue; talvez fosse apenas terra avermelhada, mas parecia sangue, e ainda acredito que era.
Imaginei o que teria acontecido. Aquele cachorrinho pequeno e branco entrara em uma briga com algum cahorro maior, ou acontecera alguma outra coisa? E o que era aquilo, que eu de repente vi, que parecia estar pendurado em seu pescoço?
Conforme me aproximei, percebi: era uma gravatinha. Uma pequena gravata na qual imaginei perceber um tom de azul, mas que estava tão puída e descolorida pelo tempo e intempéries, que não me deixava ter certeza de que aquilo era, realmente, azul.
Aquilo confirmava minhas suspeitas: o cachorrinho tivera um dono. Se este dono o abandonara, ele fugira, ou algum mal entendido acontecera, não sei; mas certamente ele já tivera um dono, que provavelmente gostava dele, para vesti-lo com aquela gravatinha.
Continuei pensando no cachorrinho por mais um tempo, mas a conclusão a que cheguei depois de refletir a respeito acabou me perturbando um pouco:
acho que, de início, pensei que o cachorro não era de rua, e já tivera um dono, só porque ele era um poodle.